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Estádio ou CT para a base no terreno dos Portuários?

Por Tana Blaze, da Alemanha

Já havia defendido a construção de um CT para a Base no terreno arrendado pelos Portuários no comentário “O cinema e o verdadeiro projeto” em 23.10.2015, mas face à galopada continuada do Modesto Júnior em direção à construção do estádio neste terreno, nunca será tarde esmiuçar as consequências previsíveis das duas opções de investimento.

1-Administrações passadas: salvação por meninos e milagres
Convém fazer uma breve resenha histórica do Santos, para ventilar as prioridades atuais em função dos fatores que importaram no passado. Os atos da administração Laor-Odílio são ainda tão conhecidos, que não é necessário arrolá-los; vale recordar principalmente os eventos do início dos anos 2000, nos quais se fez o Santos moderno, e cuja administração era do mesmo grupo que a atual.

O clube havia perdido sua posição quase solitária de 15 anos no topo do futebol brasileiro investindo em projetos sem retorno, como o da compra do Parque Balneário. Foi também foi suplantado pelo agigantamento de rivais na sombra de novos estádios, o Cruzeiro no estádio público do Mineirão e o São Paulo com 10 anos de retardo após a inauguração do Morumbi em 1960.

No início de 2000 o Santos ameaçava sumir do mapa dos grandes, com 15 anos sem título paulista e 32 anos de jejum brasileiro, a sua torcida em São Paulo tendo caído de 10% para menos de 5% e com a maioria dos torcedores com idade acima de 40 anos.

Foi então que o jovem presidente Marcelo Teixeira eleito em 1999 tentou arrombar a porta do jejum de títulos, investindo nos medalhões Rincón, Edmundo, Marcelinho. O malogro esportivo e financeiro desta manobra piorou a situação do clube. No início de 2002 só restavam pouquíssimos jogadores de gabarito, entre eles Robert, Fabio Costa, dois garotos Elano e Renato originários de um clube mais falido ainda, o Guarani, e alguns outros jogadores desconhecidos, os juvenis.

E quando ninguém via luz no fim do túnel, eis que ocorrem três milagres:

O primeiro milagre, em torno do dia 20 de Julho de 2002 em Nova York

Três semanas antes do início do Brasileirão de 2002 o Santos foi convidado para um amistoso contra o escocês Glasgow Rangers em Nova York, para exibir os jogadores Diego e Elano que despontaram no Rio-São Paulo, com o objetivo de eventual transferência. A partida foi precedida pelo pôquer habitual anunciando-se na Folha de São Paulo que o Juventus teria oferecido 6 milhões de dólares pelo Diego, valor inverossímil visto que o Santos vendeu 40% do Neymar à DIS sete anos depois por menos de 2,5 milhões de Euros. Possivelmente o Santos teria vendido o Diego por um valor baixo, mas por graça divina, seja por má apreciação dos olheiros de Nova York ou por outra razão, as transferências não foram encaminhadas.

O segundo milagre, de 17 de Novembro de 2002 em Brasília

O jovem time do Santos estava sem forças nos últimos dois jogos da fase inicial do Brasileirão perdendo por 1×3 da Ponte Preta na Vila Belmiro e por 2×3 do São Caetano no Anacleto. Quando tudo parecia perdido o Gama de Brasília já rebaixado resolveu se despedir para sempre da Série A goleando o forte Coritiba por 4×0. Inesperadamente o rebaixado Gama tirou o Coritiba e colocou o Santos na fase final.

O terceiro milagre: a fase final do Brasileirão de 23.11. a 15.12.2002

O técnico Leão escalou um time com muitos juvenis por necessidade pura pela falta de jogadores com nível de campeonato, devido à crise financeira do clube. Pode ser comum um time ser campeão com um jogador de 17 anos em campo, se os demais forem tarimbados. Mas é raro um time constituído apenas por dois jogadores experimentados, o goleiro Fabio Costa e o meia Robert, ganhar um Brasileirão com quatro jovens, Paulo Almeida 19, Robinho 18, Alex 18, e Diego 17 anos e outros jogadores como o Maurinho, André Luiz, Leo e Alberto até então desconhecidos. Ainda mais que o Santos derrotou nos mata-mata da fase final o São Paulo e o Corinthians, que no mesmo ano haviam cedido Kaká, Ceni, Belletti, Vampeta e Ricardinho à Seleção campeã da Copa do Mundo e que haviam vencido soberanamente a fase inicial do Brasileirão e o Rio- São Paulo de 2002, no qual ao Santos sequer conseguiu ultrapassar o Etti-Paulista. Na finalíssima, Diego com 17 anos, considerado o principal jogador do Santos, sentiu a fisgada no primeiro lance e saiu chorando de campo e foi aí que o segundo moleque de 18 anos com pernas de palito deu um show aos 74.000 espectadores no Morumbi. As circunstâncias improváveis e o grande espetáculo de futebol representam talvez a maior vitória na história do Santos e uma das grandes jornadas do futebol brasileiro.

Se apenas um desses três fatos improváveis não tivesse ocorrido, o jovem time sem o carisma e a sagração pelo título de 2002 teria provavelmente sido desmanchado ao fim da primeira fase ou após eliminação, para pagar as contas do dia e o Santos teria se consolidado como clube médio. E sem a aura quase perdida que o clube reconquistou nas campanhas de 2002 e 2004, o pai do Neymar talvez não tivesse colocado o seu filho no Santos.

Marcelo Teixeira, que havia apostado seu cacife em figurões, parece ter reconhecido naquele momento que não fora ele o pai da sobrevida do Santos, mas sim a conjunção de três milagres mais divinos que terrenos e com toda razão fez rezar uma missa pela conquista do título no Monte Serrat. O investimento sem retorno no parrudo Rincón e no animal Edmundo em contraposição à explosão do perna de palito e gratuito Robinho iluminaram o Presidente por algum tempo, no qual promoveu as três boas ações da sua gestão, construir o CT Rei Pelé, fazer o Robinho sair pela porta de frente para realizar a sua venda inevitável a preço razoável e buscar o Neymar, já com um pé no Real Madrid.

Mesmo salvo por três milagres, o presidente se enroscou na dependência do Luxemburgo e do colorado convicto e duvidoso santista Delcir Sonda, ao qual vendeu direitos de seis jogadores a preço de banana, entregando no fim da sua gestão um clube sustentado financeiramente com empréstimos avalizados pessoalmente. Sendo ainda salvo do descenso em 2008 pelo quarto milagre de dois pontos na tabela por aquela bola que o Quiñonez chutou em direção à lateral e a cara do Gustavo Nery a desviou para as redes. O Santos ao fim de 2009 voltou a ser o que era antes, financeiramente à beira da inviabilidade.

2- O quinto milagre impedido

A ressureição do Santos em 2002 deve ter contribuído para o projeto de construção de um estádio em Diadema por parte de um grupo formado em torno da empresa alemã Hellmich em contato com a Secretaria de Esportes do município, com o seu Secretário, o grande caráter e ex-lateral corintiano Wladimir. O Grupo Hellmich havia construído a Arena do Schalke um dos cinco estádios do mundo que são verdadeiramente multiuso.

Mas a chance única foi descartada pelo Marcelo Teixeira, como publicava o Diário do Grande ABC em 8 de Janeiro de 2009: “O projeto, que já perdura dez anos, retrocedeu depois que o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, declarou que o clube não tem mais interesse em erguer uma arena em Diadema”. O fato de o Morumbi ter sido cogitado e depois o Itaquerão escolhido para a Copa do Mundo deve ter enfraquecido o projeto Diadema, mas este jamais deveria ter sido abandonado, porque o município tinha à disposição uma área de 600.000 m2.

Enquanto isto o Grêmio e o Palmeiras, mesmo vendo seus projetos fora da Copa do Mundo, não hesitaram em erguer os seus estádios ao mesmo tempo em que os da Copa eram construídos e hoje estão colhendo frutos milionários. O Palmeiras faturou 50 milhões de reais de receitas de bilheteria em um ano. Praticamente tão endividado e com torcida menor que a do Santos, o Grêmio seguiu o preceito universal de que a localização em relação ao mercado, que é a torcida, é determinante para qualquer empreendimento imobiliário e gastou 50 milhões de reais na época 17 milhões de euros, para comprar o terreno do novo estádio.

O projeto de Diadema teria colocado o Santos na vanguarda das receitas de bilheteria dos grandes clubes brasileiros e o seu descontinuamento irresponsável o colocou na lanterna. Todos os grandes têm estádio grande à disposição, os dois gaúchos, os dois mineiros, os quatro cariocas e o trio de ferro. Quem achar que o público pequeno em Santos permitirá o clube sobreviver e que receita de bilheteria é algo de secundário, está enganado. As receitas de estádio do Bayern em 2013/14 foram de 88 milhões de euros.

4 – É prioritário salvar e melhorar a competitividade da base santista

Turbinado pelo bing bang das revelações dos irmãos Álvaro e Ramiro, do Del Vecchio, do Pagão e do Pepe nos anos cinquenta, o clube conquistou a fama de “revelador” e sempre manteve aberta a sua base para promessas.

Sem desconsiderar a grande atuação do Formiga, do Zito e de muitos outros, é notório que foram os pais ou padrinhos dos grandes raios que escolheram o Santos e não o inverso, como gostam de propagar alguns cartolas. Os grandes raios que agigantaram o clube chegaram sem que houvesse participação de relevo dos funcionários do clube. Ninguém chamou o Pelé para a Vila, ele foi trazido, Waldemar de Brito dizia que trouxe Pelé para o Santos por causa da fama (recém-adquirida) do clube de revelador e tinha amigos que moravam na aprazível cidade de Santos. Pita morava em Cubatão e vendia siris na Via Anchieta, Robinho nasceu em São Vicente e jogava no Portuários, Diego veio a Santos porque não gostou da sua passagem curta pelo CT do São Paulo, que era o seu time do coração (apesar da dança sobe o escudo anos depois) e menos ainda da cidade de São Paulo, idem Gabriel que ficou mais tempo no CT do São Paulo. Ganso tampouco foi descoberto, foi trazido pelo Giovanni. Neymar foi posto no clube pelos pais, que como os de Gabriel eram santistas. Não chegou a ser façanha de olharia “descobrir” o Robinho fazendo 73 gols pelo Futsal no Portuários, o Neymar na Briosa e o Gabriel no Futsal do São Paulo, marcando seis gols no Santos numa partida.

Não se sabe por qual razão o Santos atrai tantos talentos, possivelmente seja a imagem perpetuada de clube revelador, o bom ambiente no clube para os jovens e a aprazibilidade da cidade que atrai os jovens e seus pais. O último fator deve ter pesado nos casos Diego, Gabriel e Neymar. Acresce-se o fato de pais serem santistas, que ajudou nos casos Neymar e Gabriel.

Diego conta porque não ficou nem um ano no tricolor: “Aos 11 anos, fui tentar jogar no São Paulo porque era meu time do coração. A experiência não foi das melhores. Achei aquilo tudo muito grande, não bateu comigo: a cidade, o Morumbi, a vida. Levei um susto.“.

Valdemir Silva, pai do Gabriel, além de santista, justificou a saída do garoto do São Paulo para o Santos, com o fato da esposa lá em São Paulo ter que acompanhar o filho, “tomando três conduções de São Bernardo do Campo a Cotia e quando não dava para pagar a condução, tinha de pegar dinheiro emprestado de amigos, ao passo que em Santos tudo era perto.”

Também os pais de Neymar igualmente santistas prestigiaram a cidade Santos deixando o seu garoto cinco anos na Portuguesa Santista bem localizada na zona urbana de Santos. Quando o Santos pagou 1 milhão de reais aos Neymares para que o garoto voltasse do Real Madrid, onde já estava registrado, os pais compraram um apartamento perto da Vila Belmiro para ficar perto do garoto.

A LOCALIZAÇÃO URBANA, com possibilidades de pais ou pessoas designadas acompanharem e abrigarem os garotos, demonstrou ser de IMPORTÂNCIA SUPREMA para a captação de talentos com idade menor que 12 anos para a base santista. Foi nesta faixa etária que Diego (12), Robinho (12), Neymar (11) e Gabriel (8) ingressaram no clube. O que demonstra inequivocamente ser necessário assegurar o critério de localização urbana para que os raios do futuro optem igualmente pelo Santos. Localização urbana não significa no alto de um morro ou a 50 quilômetros num manguezal perto de Bertioga, onde a mãe de um Robinho de 11 anos terá dificuldade em trazê-lo e buscá-lo. O terreno como o dos Portuários cairia como uma luva para um CT para a Base, que neste local seria imbatível no Brasil.

Tudo indica que se o CT permanecer no Saboó, sem espaço e atratividade, o Santos perderá a sua liderança na revelação de craques, pelas tendências que se definem:

1-Na época do big-bang santista no início dos anos cinquenta, a cidade de Santos era a segunda do Estado e maior que várias capitais de outros Estados e as rivais no interior eram poeirentas dispondo de pouca infraestrutura. Hoje várias cidades do interior se equiparam a Santos, têm infraestrutura de alto nível, qualidade de vida muito boa e criminalidade menor que a da Baixada Santista. Ao contrário da cidade de Santos, encurralada por manguezais, mar, rios e morros, cidades do interior tem espaço de sobra ainda para campos de futebol e a concorrência de CTs para a Base nos grandes centros do interior deverá aumentar de forma significante.

2-Muitos clubes brasileiros e alguns estrangeiros expandiram seus tentáculos de olharia com escolinhas e redes de franquias pelo Brasil afora. A crescente igualdade entre as redes de olharia e captação e a disponibilidade universal de You Tubes e dados estatísticos sobre os jovens, faz com que a qualidade do CT para a Base se torne cada vez mais o critério diferenciador na captação de talentos.

3-Já existem hoje CTs para a base melhor equipados, como o de Cotia, que inaugurado em 2005 vem revelando muitos jogadores, só que o São Paulo não demonstrou capacidade de intregrá-los na sua equipe profissional. Dos 28 jogadores que entraram em campo no famigerado 1×7 contra a Alemanha na Copa do Mundo estavam 8 jogadores que vieram de dois CTs apenas, cinco do CT do Bayern, Müller, Schweinsteiger, Hummels, Kroos e Lahm e três do CT de Cotia do São Paulo, David Luís, Hulk, Oscar. Poderiam ser até seis jogadores de Cotia, se o Hernanes tivesse entrado em campo e se o Lucas e Kaká tivessem sido convocados e jogado, satisfazendo as esperanças de parte da torcida. O único jogador naquela Copa formado no Santos foi Neymar, trazido ao clube pelo pai. Diego, Robinho e Neymar optaram pelo Santos ANTES da abertura do CT de Cotia em 2005.

4-Com a previsível gentrificação dos jogadores e de seus pais, o CT do Saboó se tornará cada vez menos atrativo. CT para a Base tem que convencer com padrão de primeira linha, ser condizente com os sonhos dos pais e de seus garotos, bem localizado na zona urbana, fora de qualquer zona de criminalidade e tráfico de drogas, com amplas instalações sanitárias, alguns verdes, quadra de futebol de salão, campo de areia, um pequeno anfiteatro para conferências e filmes e uma pequena área social. Atributos que serão mais importantes do que a questão da disponibilidade de quatro ou seis campos de futebol.

5-Caso o Profut pegar, dezenas de clubes obterão Certidões Negativas de Débitos Fiscais e candidatarão para os incentivos do esporte para financiar os CTs para a base. Incentivos que serão como sempre versados para os amigos do rei. E o Santos não tem nem terreno ainda.

6- Independente da disponibilidade de incentivos ao esporte, o fato de TODOS os grandes clubes brasileiros, os dois gaúchos, os dois mineiros os quatro cariocas e o trio de ferro, EXCETO o Santos, já terem estádio moderno à disposição, os levará forçosamente a investir no que falta ainda, que são os CTs para a Base.

7- A proibição pela FIFA dos investidores-atravessadores em direitos econômicos de jogadores favorecerá tanto os clubes vendedores como os compradores de direitos econômicos de jogadores e incentivará clubes brasileiros a investir mais na base.

8-Finalmente, o ajuste cambial recente da moeda brasileira vai incentivar as exportações em geral e os clubes brasileiros a revelar jogadores para um dia vender os seus direitos à Europa. A queda da cotação do real nada mais foi que um ajuste em direção da paridade de compra que se fazia necessário. O real estava grotescamente supervalorizado a ponto do Índice Big-Mac mostrar que São Paulo depois de Oslo era cidade mais cara do mundo, sendo corresponsável para retração da economia brasileira. Portanto a correção cambial veio antes para ficar. Os direitos econômicos de um Neymar, que em Abril de 2013 valiam 90 milhões de euros, na época 234 milhões de reais, hoje pressuposto o mesmo montante em euros, valeriam 360 milhões de reais.

Estas tendências indicam que a concorrência entre os clubes na captação de talentos para as suas bases vai crescer significantemente e que o Santos não tem alternativa senão investir rapidamente no setor que foi o principal responsável da sua sobrevivência e formador da sua imagem. Se nada fizer vai perder a sua posição de revelador e passar a clube médio.

4-Prioridade de investimento tem que ser definida pelo critério do retorno
Num jogo de “Banco Imobiliário” conviria numa primeira etapa investir os recursos escassos em casinhas e hotéis nos endereços que rendem o maior retorno possível, com o qual se poderá numa segunda etapa financiar construções nos endereços de menor retorno (“os nichos de mercado”) também. O inverso não seria recomendável, pois se investir primeiro no endereço de menor retorno, a probabilidade de ser eliminado precocemente do jogo é maior. O jogo pune quem inverte as prioridades.

O Santos está em situação similar, tem a escolha de num terreno localizado em Santos de realizar um investimento num CT para a Base de retorno alto e rápido e num estádio de retorno menor e lento, o que foi exemplificado mais uma vez há poucos dias quando compareceram apenas 8.000 espectadores para ver o time na luta decisiva pelo G4 contra o Flamengo depois de 19 dias de ausência do estádio.

São ínfimas as receitas de estádio atuais da Vila Belmiro; a receita líquida (após despesas) tem colocado o Santos sistematicamente no Z4 do Brasileirão desta categoria. A razão é o comparecimento fraquíssimo de torcedores do estádio da Vila Belmiro, isolado pela Serra do Mar da massa dos torcedores no planalto. Mesmo com o Neymar e com a fase boa do time em 2015, o Santos não consegue colocar nem uma fração do número de torcedores que o Palmeiras coloca no Allianz Parque a preço de ingresso duplo em relação ao preço meio do ingresso da Vila Belmiro. A Serra do Mar não é apenas barreira para os santistas como também para torcedores de outros clubes residentes no planalto. Os 20 e 30 milhões de habitantes do planalto e os 2,5milhões de simpatizantes do Santos permitiriam facilmente encher um estádio com fazem o Palmeiras e o Corinthians, com preços equivalentes, pois está comprovado que o poder aquisitivo médio do torcedor do Santos é G4 no Brasil.

Sem dúvida haveria melhora de público com um novo estádio nos Portuários principalmente no setor de camarotes, com boa melhora percentual da receita líquida. Mas a despeito da evolução percentual, o incremento de renda líquida em termos absolutos será acanhado, devido à base muito baixa e a apenas 600.000 torcedores santistas captados no raio do estádio, havendo risco de saturação de oferta de ingressos com o Santos jogando todas as partidas no novo estádio.

Mesmo se supuséssemos que o incremento (acima do valor atual) de receita liquida de bilheteria (após despesas de caixa e após a parte que será retida por um investidor) de um novo estádio fosse, digamos, de 20 milhões de reais por ano (o que é propositalmente otimista), um novo CT para a Base poderá render o triplo anual, 15 milhões anuais pela economia na compra de direitos econômicos, 30 milhões anuais na poupança anual de salários, já realizada no início da gestão do Modesto usando jogadores da base, e 15 milhões com a venda de um jogador formado na base por ano.

Não há dúvida que a construção de um CT para a Base, conjugada às evoluções recentes, como a proibição dos investidores em direitos econômicos pela FIFA e à valorização cambial do Euro, representa um potencial retorno múltiplo em relação ao potencial retorno máximo que poderia ser gerado por um novo estádio no mesmo terreno em Santos. Resumindo os pontos de retorno financeiro:

a – Economia na compra de direitos econômicos

Em vez de pagar 20 milhões de reais por um Cicinho e um Thiago Ribeiro, se lança um Daniel Guedes, um Zeca, e um Gabriel sem pagar por direitos econômicos.

b – Economia de salários

Em vez de pagar um salário alto para um Arouca, o Dracena e o Mena, paga-se menos para um Daniel Guedes um Thiago Maia e um Zeca. Ao todo a administração Modesto diminuiu a folha salarial em 30 milhões de reais anuais, essencialmente escalando jogadores da base.

c – Aumento de receitas na venda de direitos econômicos

Não há lucro significante quando se compra e vende direitos de jogadores estabelecidos como Ibson, Montillo, Thiago Ribeiro, Damião, mas um lucro enorme quando se vende um Thiago Maia ou um Gabriel formados na base.

d – Um CT para a Base moderno melhora o espetáculo nos estádios

Através da formação de um maior número de jovens jogadores de alto nível, aumenta forçosamente a produtividade dos estádios, porque com mais craques, haverá mais público que se empolgará com eles. O inverso não será possível, um estádio novo não possibilita aumentar a produtividade da base.

e – Maior possibilidade de surgirem novos “raios”

Mesmo que diminuta por natureza, se mantém a probabilidade através de um CT para a Base moderno de atrair novos “raios”, não havendo qualquer potencial similar por parte de um estádio. Se cair um novo raio no Santos, a venda de seus direitos econômicos, se executada de forma profissional, poderá render o fluxo de caixa para construir “meio estádio”.

f – O CT para a Base manterá o Santos flexível, ao contrário do estádio

Se investir num CT para a Base, o Santos permanecerá flexível, ao passo que no caso
da construção de um estádio em Santos, o investidor certamente não se contentará com as receitas dos jogos do Jabaquara e da Portuguesa Santista para amortizar o seu investimento e obrigará o Santos contratualmente a jogar em Santos.

O descaso com o projeto Diadema, a tirada do time dos campos do planalto em 2015, e a iniciativa de um estádio no terreno arrendado aos Portuários refletem a vontade decidida do grupo em torno do Marcelo Teixeira em relegar a maior torcida santista localizada no planalto ao segundo plano, priorizando se sentar e fazer sentar empresários e cartolas amigos em novos camarotes em Santos. E possivelmente cooptar uma maioria de associados residentes em Santos para ganhar as futuras eleições.

Enquanto que o futebol é feito nas equipes de base, na luta e no brilho dos campos e na vibração das gerais e arquibancadas, muitos cartolas o veem como evento de camarote. Cartola prefere botar placa, puxar saco recepcionando outros cartolas e empresários, a construir instalações condizentes com as necessidades básicas dos garotos num CT para a Base. Cartolas tendem a se julgar mais importantes do que os que fazem o futebol em campo, o que aliás já transparece pela simples aberração hierárquica da nomenclatura santista com um “CT Rei Pelé” como parte ou ao lado de um “Complexo Modesto Roma”.

Foram e serão sempre os grandes craques os principais responsáveis pela grandeza dos clubes, menos os técnicos e muito menos ainda os cartolas. O Leão sem Diego e Robinho não ganhou mais nada. O Luxa sem Roberto Carlos, Mazinho, Cezar Sampaio, Edmundo, Alex e Robinho implodiu de gênio do futebol a técnico comum e o Muricy sem Conca, Danilo, Alex Sandro e Neymar sumiu.

A ideia de ocupar o terreno dos Portuários é ótima, não podendo ser desperdiçada, sendo também necessário ter um novo estádio em Santos um dia, não há dúvida. Mas um estádio novo em Santos gerando retorno baixo e lento tem prioridade três, depois de um CT para a Base na zona urbana de Santos e de um Estádio no Planalto, para captar mais de 30.000 espectadores por partida a preços mais elevados por ingresso, como faz o Palmeiras. Quem inverter as prioridades dos fluxos de caixas será punido pela história.

Findos 74 anos de igualdade pacaembuana e extinto o Clube dos Treze, novos milagres, além de improváveis, mal salvariam o Santos. Distanciado irremediavelmente pelo trio de ferro tanto nas receitas televisivas como nas de bilheterias, não pode haver mais lugar para decisões baseadas em paixões ou rivalidades internas.

A possibilidade de ocupar o terreno dos Portuários colocou o Santos numa encruzilhada que poderá decidir se permanecerá entre os grandes. Se investir no estádio em Santos, arriscará ficar contratualmente trancado na cidade, com receitas de bilheteria baixas, abandonando e sendo abandonado pela torcida do maior centro econômico e populacional do hemisfério sul, que é o Planalto Paulistano. Será financeiramente engolido pelos rivais do trio de ferro e seria a primeira associação da qual se tem notícia que abandona por obstinação de um pequeno grupo a sua sólida posição no maior mercado e centro econômico do hemisfério sul.

Se utilizar o terreno dos Portuários como CT para a Base, permanecerá vivo com acesso privilegiado à mina de ouro do futebol que são as revelações e manterá todas as opções abertas para se impor no
Planalto Paulistano.

Está soando cada vez mais alto o tique-taque da bomba relógio das dívidas do Santos, com novos prejuízos a cada mês e o Santos perdendo um tempo precioso com miragens de camarotes, ao invés de sacramentar a medida certa para dar a volta por cima, que será um CT para a Base moderno na zona urbana em Santos.

O passado mostrou que foram antes os pais ou padrinhos dos grandes raios que escolheram o Santos e não o inverso e que o agigantamento do clube se deveu essencialmente a eles a não aos cartolas, que almejavam politicas arriscadas ou ruinosas investindo em figurões. Portanto é indispensável manter a base do Santos mais atraente que as demais.

Um CT para a base é igualmente interessante para o município de Santos, porque os raios porventura formados no CT, como foram Pelé, Robinho em Neymar levarão o nome da cidade para o mundo. “La Masia”, o nome de uma simples casa, é conhecida no mundo inteiro.

E pra você, o melhor é construir um moderno CT para a base no terreno dos Portuários, ou um estádio para 25 mil pessoas?


Outra derrota na Vila. E outro Brasileiro decepcionante

http://youtu.be/l8GUMkFKg9Q

Como já tinha acontecido contra o Fluminense, o Santos voltou a perder na Vila Belmiro, desta vez para o Internacional, por 2 a 1, e caminha para a sua sétima atuação decepcionante seguida em um Campeonato Brasileiro. Desde 2008 o time não consegue ficar sequer entre os seis mais bem classificados e em algumas temporadas correu até risco de rebaixamento.

Neste jogo, que, na verdade, o Santos não merecia perder, pois só foi derrotado por uma falha infantil de Aranha – que pegou com as mãos uma bola recuada por Mena, provocando o “dois toques” que resultou em gol –, destaque-se o antimarketing do clube, protagonizado pelo técnico Enderson Moreira. Primeiro Enderson anunciou que escalaria um time misto. Depois, voltou atrás e colocou o time titular em campo, o que reduziu ainda mais o público da Vila Belmiro.

Se em condições normais esse jogo poderia atrair até oito mil pessoas ao Urbano Caldeira, a indecisão sobre que time jogaria fez o público cair para 5.907 pagantes, com renda bruta de R$ 170.950,00, que mantém o Santos na liderança absoluta dos 20 clubes da Série A como aquele que possui a menor média de público do campeonato. Sim, a velha, histórica e amada Vila Belmiro é o estádio que atrai menos pessoas na Série A deste Brasileiro.

O lado bom desse público tão limitado que acompanha os jogos do Santos na Vila Belmiro é que, caso o estádio tenha algum problema, será possível transferir os jogos para outros dois estádios da cidade, sem obrigar os jogadores e os torcedores a cansativas deslocações. Isso porque o estádio do Jabaquara, o Espanha, comporta 8.031 pessoas, e o Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista, 12 mil pessoas, suficientes para receber a torcida santista.

Com a derrota, o Santos continua em oitavo lugar, com 46 pontos. No meio da tabela, o time está a oito pontos do G4 e a 12 acima da zona de rebaixamento. Os quatro da zona da Libertadores são, pela ordem Cruzeiro (64 pontos), São Paulo (59), Internacional (56) e Fluminense (54).

Na quarta-feira, o Santos volta a jogar na Vila Belmiro, esta vez contra o Cruzeiro, pela Copa do Brasil. Precisará vencer por dois gols de diferença para chegar à final, ou por 1 a 0 para tentar ganhar nos pênaltis. Pelo Brasileiro, o próximo jogo será contra o Corinthians, domingo, às 19h30, no Itaquerão.

Santos 1 x 2 Internacional
02/11/2014, domingo, Vila Belmiro.
Público: 5. 907 pagantes. Renda: R$ 170.950,00.
Santos: Aranha, Cicinho, Edu Dracena, Bruno Uvini e Mena; Alison (Renato), Arouca e Lucas Lima; Rildo (Jorge Eduardo), Gabriel (Leandro Damião) e Robinho. Técnico: Enderson Moreira.
Internacional: Alisson, Cláudio Winck, Alan Costa, Ernando e Fabrício; Willians, Aránguiz, D’Alessandro (Wellington Paulista), Jorge Henrique e Alan Patrick (Bertotto); Nilmar (Ygor). Técnico: Abel Braga.
Gols: Aránguiz aos 24 minutos do primeiro tempo; Gabriel aos 17 e Aránguiz aos 36 minutos do segundo.
Arbitragem: Jailson Macedo Freitas, auxiliado por Alessandro ª Rocha de Matos e Luiz Carlos Silva Teixeira (todos da Bahia).
Cartões amarelos: Fabrício, Jorge Henrique, Alan Patrick, Alisson e Aránguiz, do Internacional; Edu Dracena e Cicinho, do Santos.

E você, o que achou de mais esta derrota do Santos na Vila?


Gylmar, o ídolo renegado pelo Corinthians que só foi feliz no Santos, será homenageado hoje na Vila

Como Gylmar vive hoje e, abaixo, o seu jogo de despedida do futebol, aos 39 anos, quando fez sua 100ª partida pela Seleção Brasileira. O Brasil, que jogou com oito titulares do Santos, venceu a Inglaterra, então a campeã do mundo, por 2 a 1, no Maracanã, em junho de 1969.

Hoje o Santos fará uma homenagem a Gylmar dos Santos Neves, o goleiro mais vitorioso do futebol mundial, que vestiu a camisa do Alvinegro Praiano de dezembro de 1961 a dezembro de 1969. Gylmar, um goleiro elegante, frio e elástico, completou 80 anos no dia 22 de agosto e terá uma camisa do Santos com o seu nome.

Nascido no bairro do Macuco, em Santos, em 1930, Gylmar jogou no Portuários, assinou seu primeiro contrato profissional com o Jabaquara, acabou contratado pelo Corinthians no começo de 1951 – como contra-peso no negócio com o quarto-zagueiro Ciciá –, mas dez anos depois, escorraçado pelo clube do Parque São Jorge, finalmente foi feliz no futebol ao se transferir para o Santos.

Gylmar confirma a sina do Alvinegro da capital de maltratar seus ídolos. Seu primeiro problema no Corinthians ocorreu em novembro de 1951, quando o time perdeu por 7 a 3 para a Portuguesa e levantaram a suspeita de que ele teria “amolecido”. Sem poder provar sua inocência, foi afastado do time por seis meses.

“Passei um período muito difícil”, contou-me ele quando o entrevistei para o livro Time dos Sonhos. “Não podia nem entrar no clube. Eu não tinha como provar, porque as coisas foram feitas fora, sem que eu soubesse. Só sei que no dia do jogo havia muitas promessas de prêmios para mim. Pensei que estivesse abafando, mas não era nada disso. A intenção deles era outra.”

Gylmar só foi perdoado e voltou a jogar pelo Corinthians porque em 1952 o time estava para embarcar em uma excursão e não tinha goleiro, já que Cabeção fora convocado para a Seleção Paulista. Depois de tentar conseguir, sem sucesso, um jogador emprestado, o diretor Manoel dos Santos propôs o nome de Gylmar, aceito com resistência. Após uma viagem exaustiva de três dias, o time estreou na Turquia e perdeu. Depois, foram 11 vitórias consecutivas, com Gylmar fechando o gol:

“Foi o dedo de Deus que me deu aquela oportunidade. Joguei muito bem. Na partida contra a Seleção da Dinamarca cheguei a defender três pênaltis. Voltei novamente como herói. Joguei todo o Campeonato Paulista de 1952, quando o Corinthians foi campeão”, lembrou ele.

Gylmar foi muito importante na conquista do título paulista do IV Centenário, em 1954. O time fazia 1 a 0 e ele segurava o resultado. Vivia uma fase excepcional, que quatro anos depois o levou à Copa do Mundo da Suécia e o fez sentir a maior alegria de sua carreira:

“A emoção de ganhar uma Copa é indescritível. Você fica meio bobo. Com exceção do Castilho, Didi e Nilton Santos, ninguém ali havia estado em Copas do Mundo.”

O goleiro novamente voltou como herói, mas aos poucos foi reduzido à única estrela de um Corinthians que perdera Cláudio, Luisinho e Baltazar e não estava contratando jogadores à altura dos que saíam. A fase negativa não tardou. Gylmar passou a ser apontado como o culpado pelas derrotas. Mesmo quando se queixou de dores no braço, não lhe deram ouvidos. O médico do clube disse que ele estava fazendo corpo mole para sair do Corinthians.

Num treino, ao se atirar nos pés de um atacante, o goleiro sentiu uma dor aguda no cotovelo, que inchou imediatamente. Tirou a cotoveleira e, enquanto se dirigia para o vestiário, mostrou o braço para os diretores que assistiam o treino.

“Vieram conversar comigo, mas eu disse que não queria nada, que tinha um seguro particular e no dia seguinte iria procurar um hospital para me operar. Fui para casa louco de dor. Tratei com água quente, sal e vinagre para desinchar e três dias depois estava operando no Hospital Santa Catarina, com o doutor João de Vicenzo. Minha mulher, que tem curso de enfermagem, assistiu a cirurgia. Imaginou-se que seria simples, por se tratar de uma bursite, ou algo assim, mas a operação demorou duas horas e meia. Eu tinha um tendão partido no braço e não sabia. Isso é o que causava a dor. Se demorasse mais um pouco para operar, o tendão estaria tão retraído que seria impossível emendar novamente.”

No dia seguinte, ainda sonolento pela anestesia, Gylmar recebeu o repórter Milton Reina, da Gazeta Esportiva, e admitiu que sua situação no Corinthians ficara difícil. A entrevista gerou a manchete: “Gylmar diz que não joga mais no Corinthians”. Em resposta, o presidente do clube, Vadi Helu, retrucou dizendo que agora era o Corinthians que não queria mais Gylmar e estipulou o passe do goleiro em 10 milhões de cruzeiros.

“Era uma fortuna. A transferência mais alta daquela época tinha sido a de Mauro, do São Paulo para o Santos, que custou cinco milhões de cruzeiros. Um goleiro por dez milhões era para não vender. Talvez a idéia fosse que eu terminasse a carreira ali. Mas, como eu já tinha meu emprego como chefe de seção da Secretaria da Fazenda, não estava desamparado. E eu trabalhava mesmo, todas as tardes.”

Nesse meio tempo surgiu o interesse do Santos, mas este não dispunha de todo o valor. Foi preciso fazer um empréstimo da Federação Paulista de Futebol e ainda receber uma doação do empresário José Ermírio de Moraes. Gylmar não ganhou nenhuma porcentagem, tampouco luvas de seu novo clube. Melhor negócio para ele seria ter aceitado uma proposta do Peñarol, de Montevidéu, mas o goleiro não quis:

“O Peñarol ofereceu uns 12 milhões para o Corinthians, mais uma fortuna na minha mão, mas resolvi não ir. Não queria dar mais nenhum tostão para o Corinthians. Eles me judiaram demais.”

O contrato com o Santos foi assinado em dezembro de 1961. Logo em seguida o time iniciou uma excursão à América Central. Quanto voltou, Gylmar já era o titular. Em 1962, no melhor ano de sua carreira, foi campeão paulista, brasileiro, da Taça Libertadores e do Mundial Interclubes. Convocado novamente para a Seleção Brasileira, tornou-se bicampeão mundial no Chile.

Nessa Copa de 62, contra a Espanha, realizou a defesa mais importante de sua vida. O Brasil perdia por 1 a 0 e seria desclassificado com este resultado. Em um ataque pela esquerda, Gento driblou Djalma Santos – jogando a bola por dentro e saindo correndo pela pista de atletismo – e cruzou. Puskas vinha entrando, enquanto Gylmar e o zagueiro Mauro saíram para cortar o cruzamento. O goleiro conseguiu socar a bola, mas ele, Mauro e Puskas trombaram e caíram. A bola sobrou para Peiró, que vinha na corrida e bateu de primeira, num chute a um metro do chão. Gylmar só teve tempo de erguer o braço e espalmar para escanteio. Em seguida, no contra-ataque, o Brasil empatou o jogo (e acabou vencendo por 2 a 1, com gols de Amarildo em centros de Garrincha). Os espanhóis creditaram sua eliminação na Copa àquela defesa do goleiro brasileiro.

No Santos, Gylmar finalmente pôde viver um tempo feliz, de tranqüilidade e profundo respeito. O time era como uma família e nunca foi maltratado por dirigentes. Ao contrário: era o clube que melhor remunerava seus jogadores. Em uma excursão à Europa, Gylmar se recorda de que as delegações de Santos, Botafogo (de Garrincha, Didi, Nilton Santos…) e Corinthians se encontraram no mesmo hotel. Em conversas informais com os jogadores dos outros times, ficou sabendo que o “bicho” (prêmios em dinheiro) que os santistas ganhavam por partida era o dobro dos botafoguenses e cinco vezes maior do que o dos corinthianos.

Gylmar admite que o Santos seria até hoje um dos melhores do mundo caso seus diretores tivessem tido maior visão e soubessem administrar o clube de maneira mais eficiente, mas, pessoalmente, não tem queixas:

“Se o Santos tinha condição de pagar ou não, eu não sei, só sei que pagou todo mundo e nunca atrasou. Todos queriam ver o Santos jogar. Onde jogavam, enchia. Começou a chover dinheiro. O Santos era uma equipe vencedora, com grandes valores, que ficou no auge por 13 anos. O ambiente era ótimo. Nunca tivemos uma discussão entre os jogadores.”

O Santos foi o melhor time de todos os tempos? Gylmar responde a essa pergunta comparando a equipe com o Real Madrid, o melhor time do mundo antes da fase áurea do Santos:

“Há uma celeuma sobre quem foi o melhor time de todos os tempos. Uns dizem que foi o Real Madrid, outros o Santos. Acho que cada um teve a sua época. Que eu me lembre, os dois só se enfrentaram uma vez, em 1959, na Europa, quando o Santos estava começando a ser o grande time que foi, e o Real ganhou (5 a 3). Quando o Santos começou sua evolução e o Real iniciou sua fase regressiva, ele nunca mais quis jogar com o Santos, sempre evitou. Chegou ao cúmulo de abrir mão de jogar a final de um torneio na Argentina para não nos enfrentar. Foi um quadrangular, em 1965, com Santos, Real, Boca Juniors e River Plate. Ficaram Santos e Real para decidir o título, mas eles não quiseram jogar, preferiram deixar o título para nós do que correr o risco de perder pra gente. Queriam manter aquela imagem de ter sido o único time a vencer o Santos” (o Santos venceu o Boca Juniors por 4 a 1, no dia 8 de agosto, e o River Plate por 2 a 1, quatro dias depois. A decisão seria contra o Real Madrid, que se recusou a jogar).

Gylmar jogou no Santos até dezembro de 1969. Em sua despedida pela Seleção, em 12/06/1969, na vitória de 2 a 1 sobre a Inglaterra, no Maracanã, o Brasil tinha oito titulares do Santos. Ao abandonar o futebol, aceitou o convite para ser relações públicas de uma concessionária Chevrolet. Depois montou a sua, na Vila Prudente, em São Paulo. Em 1983 foi convencido a tornar-se supervisor da Seleção Brasileira, cujo técnico era Carlos Alberto Parreira. Ficou decepcionado com o que viu. O marketing comandava tudo. “Talvez eu fosse o errado, pois trazia a mentalidade do tempo em que eu era jogador, em que não se exigia dinheiro para ganhar jogo.”

Na verdade, nem tudo Gylmar fez conforme seu tempo. Numa época em que a maioria dos jogadores de futebol adorava cair na noite, ele sempre foi um jogador de ir pra cama mais cedo, mesmo sofrendo de insônia. Quando saía, chegava ao extremo de – coisa de cinema – pedir leite em boate. Paradoxalmente, era o melhor companheiro de quarto do boêmio Dorval, que por mais tarde que chegasse, ainda encontrava o goleiro acordado, tentando ler para atrair o sono.

De saúde perfeita até 2000, Gylmar sofreu um acidente vascular cerebral e hoje não consegue falar e vive em uma cadeira de rodas. Mas, lúcido, compreende tudo e certamente se emocionará com essa demonstração de carinho dos santistas, os torcedores que o fizeram recuperar o amor pelo futebol.

Quer enviar uma frase de apoio e carinho para Gylmar? Fique à vontade. Ele merece.


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