Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Justiça

O meu lado, o seu lado, o nosso lado

amigos - 4 criancas

Nestes dias, além de discutir as questões primordiais do clube, os santistas – e demais leitores deste blog – estão divididos pelas manifestações de rua que sacodem o País. A maioria está a favor do povo que protesta, mas há os que vêem nisso o interesse de desestabilizar o governo. Ocorre que, infelizmente, a sociedade ainda se divide em tribos e as regras, a ética, as noções de competência e honestidade não são as mesmas para o nosso grupo e para o grupo dos outros.

Todos têm uma tendência de serem mais tolerantes com as pessoas de sua turma, do seu lado. A corrupção, por exemplo, não deveria ser defendida por ninguém. Se alguém corrompeu ou foi corrompido, deve pagar por isso, mesmo que seja alguém do nosso grupo. Mas não é assim que funciona na prática. Arrumam-se mil desculpas para as falhas dos companheiros, ao mesmo tempo em que se é implacável com o mínimo desvio dos outros.

Uma sociedade realmente civilizada deveria ter valores claros e segui-los acima de qualquer partidarismo. O meu grupo, por exemplo, é o das pessoas éticas e honestas. E, se for um grupo profissional, também das pessoas competentes. Se você, meu caro, demonstrou que não tem ou não compactua com essas qualidades, então, sinto muito, não será da minha turma. No dia em que um País inteiro pensar assim, não fecharemos mais os olhos para alguns crimes e deixaremos de ser os primeiros a apontar o dedo para os culpados de outros. Crime será crime, independentemente de quem o pratica.

Reconheço que há forças poderosas que agem contra o senso de justiça absoluto. Quem fez parte da chapa, foi empregado no Santos com um bom salário, pouca exigência profissional e condições incomparáveis de trabalho, certamente defenderá com unhas e dentes a administração que está aí. Pois a derrota nas urnas poderá representar demissão e a volta às condições antigas de sobrevivência.

O mesmo ocorre com seguidores do partido político que hoje controla o Brasil. O poder dá e espalha dinheiro e melhores condições de vida entre os que o desfrutam. Por isso poucos aceitam passivamente a hora de perdê-lo. Se for preciso, jogam a sujeira comprometedora dos amigos para baixo do tapete, enquanto fazem questão de expor a dos inimigos. É a regra suja que todos eles seguem.

Por isso não tenho partido, nem no Santos, nem na política brasileira. Gosto e desgosto de alguma coisa de cada um. Acho, por exemplo, que numa emergência social, distribuir uma bolsa que permita a milhões de brasileiros sair da miséria absoluta, é plenamente válido. Mas manter essa esmola indefinidamente, sem ajudar essas pessoas – por meio da educação e do emprego –, a galgar outros degraus na sociedade, é o mesmo que comprá-las.

Gostei da energia e do otimismo com que Luis Álvaro assumiu o Santos, mas fui me desgostando com suas promessas não cumpridas, suas frases vazias, suas decisões ditatoriais e o seu desmesurado apego ao cargo, mesmo quando ficou claro que não tinha mais condições de exercê-lo plenamente. Se sofre de uma doença grave, vá se cuidar e deixe o clube seguir sua vida. O Santos não precisa de mártires. Precisa de administradores capazes, algo que Luis Álvaro ainda não conseguiu ser.

Enfim, vivemos uma era em que as relações entre grupos diferentes podem ser definidas por uma frase saída da sabedoria popular: “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. É claro que não pode haver justiça enquanto se pensar assim, e sem justiça não há democracia.

Ainda não sei o que é viver em um país desenvolvido, em meio a um povo desenvolvido. Mas sinto que nós, santistas e brasileiros, estamos a caminho, apesar dos percalços. E teremos chegado lá quando considerarmos o nosso lado mais importante do que o meu ou o seu.

Veja agora o filme produzido pelo Rachid que mostra momento em que o povo na avenida Paulista impediu que partidos políticos assumissem a paternidade das manifestações:

E você, é tolerante com o lado dos outros?


O herói santista do dia

Não, não é Neymar, Paulo Henrique Ganso, André, Madson, Marquinhos, Zé Eduardo, Arouca ou Wesley… O santista consagrado do dia é o promotor Francisco Cembranelli, que nesta madrugada conseguiu, finalmente, condenar Alexandre Nardoni e sua mulher Anna Jatobá pelo assassinato da pequena Isabela, de apenas cinco anos, filha de Alexandre.

Havia advogado que defendia a inocência dos réus sob a alegação de falta de provas. Ora, se o pai e a madrasta estiveram o tempo todo ao lado da criança e ela foi assassinada, quem teria cometido o crime? Um ET?

Este risco, de que assassinos frios e mentirosos saiam impunes – algo comum em nosso país – é que faz o povo comemorar uma condenação como se fosse vitória em jogo final de campeonato e transformar o promotor público em herói. Apesar dos graves problemas sociais que envolvem boa parte da população, felizmente ainda não é comum matar-se crianças em momentos de descontrole.

Que o ser humano é passível de atos escabrosos, todos sabemos. Mas o que mais chocou, no caso, foi o não arrependimento dos assassinos, a tentativa de se livrar da justiça, as mentiras, o jogo jurídico para burlar a decência e a ética.

Coincidentemente, Cembranelli é santista roxo. Sei disso porque José Carlos Peres o conhece e já tinha me falado sobre ele há dois anos, quando o crime da pequena Isabella aconteceu. Como todo santista, Cembranelli é um apreciador do talento, da beleza e da verdade. Além de prezar, como poucos, a justiça, está acostumado a ser provocado e desafiado pelos idiotas da subjetividade.  E, invariavelmente, consegue colocá-los em seu devido lugar.


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