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Como a visão do Peres uniu os quatro grandes de São Paulo

Madrugada de sábado. 03h25. Logo mais estaremos escolhendo o presidente do Santos pelos próximos três anos. Que seja uma festa cívica, uma festa da democracia, que os santistas deem o esperado exemplo de educação e espírito esportivo. Que ninguém provoque, que ninguém aceite provocações, e que logo mais possamos comemorar mais essa proeza santista: o fato de termos uma eleição com cinco candidatos totalmente organizada, limpa e justa. Desde já, parabéns a todos, vencidos e vencedores. Votarei no José Carlos Peres, evidentemente, mas respeito aos demais e desejo sucesso ao futuro presidente, qualquer que seja ele. Este blog, de santistas apaixonados e de boas ideias, continuará exercendo a sua crítica e o seu incentivo ao Santos Futebol Clube.

Minha coluna desta sexta-feira no jornal Metro de Santos não cita nomes de candidatos. Apenas fala das qualidades que o novo presidente do Santos deve ter. Clique aqui para lê-la.

g4 paulista - peres
Peres transformou uma boa ideia no G4 Paulista, empresa que reúne os grandes de São Paulo.

Tento ser um homem de ideias, pois acredito nelas. O que é a evolução da humanidade, a não ser boas ideias que encontraram pessoas com capacidade e disposição para realiza-las? Também por isso abomino os ditadores. Um homem sozinho não pode ter todas as boas ideias, muito menos concretiza-las. Voltando ao nosso Santos, confio em quem sabe ouvir e extrair o melhor de cada um, por isso confio e quero que José Carlos Peres seja eleito presidente do clube, neste sábado.

Percebi no Peres, desde que ele era gerente da subsede do Santos na Capital, o dom de selecionar as melhores sugestões dos muitos santistas com quem conversava diariamente, e leva-las para a direção do clube. Eu era um desses que enchia a sua cabeça com mil projetos.

Lembro-me que, ainda na faculdade, diante de colegas mais versáteis, não me considerava uma pessoa criativa. Porém, com o tempo, e com o trabalho persistente na área de comunicação, descobri que criatividade também é algo que se desenvolve. Conhecimento, ousadia e tentativa e erro podem transformar ideias em realizações. Depois do primeiro sucesso vem a confiança e a partir daí o processo se repete mais freqüentemente.

No primeiro semestre de 2009, quando, a convite do Peres, eu iniciava, ao seu lado, o trabalho de pesquisa e redação do Dossiê pela Unificação dos Títulos Brasileiros, visitava regularmente a subsede do Santos e aproveitava para atormentar o paciente Peres com ideias e sugestões. Lembro-me que uma tarde, como que tomado por uma verdade universal, exclamei:

– Peres, você é um diplomata, um embaixador do Santos aqui na Capital. Você tem de se reunir com os presidentes dos outros grandes, almoçar com eles, trocar ideias. Imagine juntar a força dos quatro grandes de São Paulo…

Peres só me olhou. Mas me olhou diferente. Percebi que concordava e que aquelas palavras tinham despertado algum desígnio nele. Nos dias seguintes voltei ao trabalho de entrevistar pessoas, pesquisar em arquivos de jornal e bibliotecas em busca de depoimentos e documentos que provassem que a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa davam aos seus vencedores o título de campeão brasileiro. Na noite de 28 de maio de 2009 toca o telefone. É o Peres:

– Odir, pode descer comigo amanhã para Santos? Vamos fazer o almoço com os quatro presidentes…

Caramba, o danado do Peres, quietinho, tinha convencido os presidentes dos quatro grandes de São Paulo para um almoço no CT Rei Pelé! Aquilo parecia incrível naquele momento, pois só se falava em uma briga entre Juvenal Juvêncio e Andrés Sanchez. Promover a conciliação entre os dois já seria um trunfo para o Santos, presidido na época por Marcelo Teixeira.

É claro que aceitei o convite, entusiasmado. Era assim que eu via e vejo o Peres: alguém capaz de unir pessoas, interesses, congregar os clubes, unir as forças do futebol brasileiro, sem esquecer de manter o Santos em uma posição de destaque. Na manhã do dia 29 de maio, lá pelas 11 horas, estávamos descendo a serra, felizes, no seu carro, quando toca o seu celular.

Era o presidente Marcelo Teixeira. Pedia para o Peres ligar para Juvenal Juvêncio e Andres Sanchez e cancelar o almoço, pois o presidente Luiz Gonzaga Belluzzo tinha ligado dizendo que não havia conseguido adiar um encontro com o ex-ministro Delfim Neto. Peres desligou o telefone, fiquei sabendo da história e me inflamei, dizendo que aquilo era uma loucura. Juvenal e Sanchez já deviam estar na estrada. Cancelar o almoço seria terrível, pois talvez não aceitassem mais um novo convite.

Compreensivo e generoso, Peres aceitou imediatamente meus argumentos e ligou de novo para Marcelo Teixeira, colocando-me na linha. Expliquei ao presidente que àquele momento o mais importante seria a reconciliação entre Juvenal e Andrés, e que ele, Marcelo Teixeira, seria olhado como o reconciliador. Era uma pena a ausência de Belluzzo, mas o almoço continuaria sendo importante, mesmo sem o presidente do Palmeiras. Teixeira ouviu os meus arroubos, educadamente, e concordou, mas pediu que o Peres ligasse e tentasse convencer Belluzzo a ir a Santos.

Peres ligou para Belluzzo e começou assim: “Professor, o senhor não pode faltar, o senhor é a pessoa mais importante desse almoço”. Não sei o que mais disseram, só sei que ao desligar o celular, Peres garantiu, com um sorriso, que o presidente do Palmeiras também iria.

O primeiro encontro seria na sala da presidência do Santos, de onde, após as considerações iniciais, os convidados conheceriam as dependências da Vila Belmiro – camarotes, sala de entrevistas… – e depois seguiriam para o CT Rei Pelé, onde também fariam uma visita de reconhecimento e, por fim, seriam encaminhados ao restaurante.

Chegamos diante da entrada principal da Vila e nos deparamos com a imprensa, funcionários do Santos e o presidente do Conselho do clube, senhor José da Costa Teixeira, o “Teixeirão”. Respirava-se um ar de incredulidade. Poucos pareciam acreditar que os três presidentes da capital realmente viriam. Teixeirão chegou a me dizer que estávamos “loucos”, pois mesmo que viessem, seria terrível para o Santos, pois “o Juvenal Juvêncio é uma raposa e vai nos engolir”.

Bem, como se sabe, os três vieram. Peres foi recebe-los, um a um, certamente para a inveja de muitos que apostavam no fracasso do evento. Eu trazia um texto pronto que descrevia as grandes vantagens que os quatro clubes teriam caso fossem aliados fora do campo. O texto falava de um hipotético super time que, na verdade, era a soma dos quatro grandes; citava o exemplo da Guerra do Paraguai versus o Mercosul, no qual ficava evidente que construir junto é bem melhor do que destruir, e concluía com alguns benefícios que os clubes teriam com a criação de uma empresa que os congregasse.

O almoço no CT Rei Pelé gerou novas reuniões no São Paulo, Corinthians, Palmeiras, até que em 17 de julho, dia do aniversário do Peres, que também foi escolhido como o coordenador geral da nova empresa, se fundou o G4 Paulista, que no início de 2010, quando Peres e eu já tínhamos sido desligados do Santos pela administração de Luis Álvaro Ribeiro, contribuiu com 2,5 milhões de reais para os combalidos cofres do Santos Futebol Clube.

Esta história, contada em detalhes, mostra a capacidade de José Carlos Peres de aprimorar e levar adiante uma boa ideia – algo que repetiu, em maior escala, no trabalho que obteve a Unificação dos Títulos Brasileiros. Foram precisos meses de trabalho, contatos e paciência para conciliar as vaidades, o poder e as agendas de seis presidentes de grandes clubes brasileiros, do presidente da CBF e de João Havelange para obter, finalmente, a tão sonhada Unificação dos Títulos que hoje torna o nosso Santos Octacampeão Brasileiro!

O comportamento e o caráter de José Carlos Peres exprimem o líder moderno, que comanda pelo exemplo, que sabe delegar poderes, mas assume o seu papel no momento mais importante. Alguém com esse perfil e, repito, esse caráter, é que deve presidir o Santos.

A seguir, os textos entregues por mim e Peres aos presidentes Marcelo Teixeira, Andrés Sanchez, Juvenal Juvêncio e Luiz Gonzaga Belluzzo no almoço de 29 e maio de 2009, no CT Rei Pelé. Nota-se que o nome pensado originalmente para a empresa era G4 S/A:

O melhor time do mundo

Ele é de São Paulo. Tem mais títulos, torcida, história, carisma e potencial de mercado do que qualquer outro do planeta.

Ele é, oficialmente, seis vezes campeão do mundo (além uma Taça Rio e uma Recopa Mundial), seis vezes campeão da Taça Libertadores da América (além de duas Conmebol, uma Mercosul, uma Supercopa da Libertadores e uma Recopa Sul-americana), 26 vezes campeão brasileiro (sem contar três Copas do Brasil e uma Copa dos Campeões), 16 vezes campeão do Torneio Rio-São Paulo e ainda possui 84 títulos estaduais (fora um Supercampeonato Paulista).

Sua torcida, desde o início desta década, é a maior do Brasil. Pelas últimas pesquisas do Instituto Datafolha, representa 30% de todos os torcedores do País. Ele tem 365 anos de vida e é por sua causa que o Brasil é considerado o melhor do mundo no futebol, pois forneceu a maioria dos jogadores que conquistaram as Copas de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Boa parte dos maiores craques que o mundo já conheceu vestiram sua camisa, entre eles o Rei do Futebol.

Este time é garantia de ótima visibilidade para os patrocinadores. Pelo Campeonato Paulista deste ano, sua média foi de 24,37 pontos por partida, o que o torna uma das maiores audiências da tevê brasileira, com índices semelhantes aos das novelas da TV Globo. É também o que ocupa o maior espaço na mídia impressa (em parte isso se explica por estar encravado no Estado que abrange os dois mercados mais ricos do País: o da Capital e o do Interior de São Paulo).

Este Supertime, que tem as cores Branca, Preta, Verde e Vermelha, na verdade não é apenas um, mas a soma de quatro clubes que, depois de passarem todo o tempo brigando entre si, agora descobriram que, unidos, poderão conseguir muito mais e crescer juntos. Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo desde 17 de junho estão unidos no G4 S/A, uma empresa que pode mudar a história do futebol brasileiro.

O exemplo da Guerra do Paraguai

Durante mais de cinco anos – de dezembro de 19864 a março de 1870 – quatro países da América do Sul elevaram suas rivalidades ao extremo na Guerra do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai, mesmo desconfiados entre si, lutaram contra o Paraguai do ditador Solano López. No final, ninguém ganhou, ao contrário, todos os quatro tiveram enormes prejuízos.
O Paraguai perdeu quase a metade de sua população, partes de seu território, teve sua economia arrasada e o país ocupado por tropas estrangeiras por dez anos. O Brasil ficou com uma grande dívida externa e teve 50 mil mortos; a Argentina perdeu metade de suas tropas, assim como o Uruguai. Todos saíram empobrecidos e isso retardou enormemente o desenvolvimento da região.
Setenta e um anos depois, em Assunção, os mesmos quatro beligerantes assinaram o tratado que deu origem ao Mercosul, comprometendo-se a colaborar para o desenvolvimento econômico e social comum. A partir daí a região gozou de estabilidade política e econômica jamais vista. A história, enfim, havia lhes ensinado a paz, no mínimo, é o melhor negócio.

O que cada um ganha com o G4 S/A

Os quatro grandes paulistas ganham as mesmas coisas, que são:

– Troca de informações nas áreas administrativa, jurídica, de marketing e comunicação.
– Fiscalização contra a pirataria de produtos.
– Apoio para melhores acordos com a TV.
– Apoio político.
– Valorização dos clássicos paulistas.
– Possibilidade de negociação de jogadores sem intermediários.
– Elaboração de um teto salarial para jogadores e comissão técnica.

E então, que tal escolher um presidente que sabe transformar boas ideias em realidade?


Arrogância do negociador ajudou a detonar o Clube dos 13


Até uma criança teria lidado melhor com a situação, pois saberia que a união é sempre mais produtiva.

Hoje ouvi uma longa matéria da rádio Jovem Pan do São Paulo direto do Clube dos 13 e fiquei espantado com o nível de arrogância de um tal Ataíde Gil Guerreiro, escolhido pelo Clube dos 13 para encaminhar as negociações entre os clubes e as tevês.

O homem falou grosso, apertou a CBF, a Globo e chamou os presidentes dos grandes clubes de covardes. Enfim, escolher este senhor para encaminhar conversações tão importantes foi como designar um homem-bomba para mediar as negociações entre israelenses e palestinos.

É óbvio que diante de um tema tão delicado, que envolve paixões e interesses, o perfil do negociador deveria ser outro. Acima de tudo, deveria ser neutro, o que o senhor Ataíde não é. São-paulino, amigo e parceiro de Juvenal Juvêncio, há fortes suspeitas de que o negociador está usando o cargo para favorecer o clube do Morumbi, que se aproveitou da debandada para, por exclusão, assumir um comando do futebol brasileiro que ele nunca teve.

Sei que este senhor, sem citar as fontes, apresentou estudos para propor uma divisão de cotas que favorece o São Paulo. Este foi um dos motivos que fez as negociações perderem a credibilidade. Admiro-me que a velha raposa Fábio Koff tenha confiado o futuro da entidade a alguém sem o mínimo tato para lidar com a questão.

O que faltou fazer

É óbvio que um bom acordo deve contentar todas as partes, e isso inclui:

1 – Garantir à tevê e às diversas mídias o retorno que elas precisam para vender bem os jogos.
2 – Conseguir garantias das tevês e das mídias de que se empenharão para dar a devida visibilidade ao campeonato e aos clubes.
3 – Garantir a todos os clubes participantes da Série A (e por que não também da B?), uma cota que pague suas despesas para disputar a competição.
4 – Reservar uma parte do valor total para os times de maior visibilidade.
5 – Reservar outra parte para os mais bem classificados.

No mais, passaria a ser uma questão de porcentagens. Tira-se mais daqui, põe-se mais ali, até que a maioria concorde.

A estratégia de se criar reservas de mercado para os clubes de mais torcida desestimula a competitividade e, a médio e longo prazos, trabalha contra o nível do espetáculo. Enfim, não é inteligente.

Ainda dá tempo

Como os clubes, as tevês e o Clube dos 13 conseguiram chegar ao fundo do poço – e isto em um ano de Copa do Mundo no Brasil! –, acho que agora não há outro remédio a não ser deixarem as vaidades de lado e buscarem um entendimento. Do contrário, todos perderão e a penúria continuará rondando nosso futebol.

Para começar, que Fábio Koff tenha o bom senso de substituir o líder das negociações por uma pessoa mais sensata, mais respeitosa e a mais neutra possível. Alguém mais sábio e menos guerreiro.

Depois, que não se use apenas o critério da popularidade para dividir as cotas, pois ele costuma provocar tremendas injustiças e, repito, não incentiva a busca da excelência técnica, de um espetáculo mais atraente.

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Veremos o próximo passo. Se é que ainda existe algum antes do precipípio. As cotas devem ser distribuidas pela participação no campeonato, pela classificação final e pela visibilidade.


Dorival Junior ia mesmo para o São Paulo

Fui cobrado por alguns por ter dito que o comportamento estranho de Dorival Junior, insistindo na punição descabida a Neymar, escondia uma negociação com o São Paulo. Como o técnico acabou indo para o Atlético Mineiro, muitos duvidaram do que escrevi. Mas a verdade tarda, mas não falha.

Enquanto ainda era técnico do Santos, Dorival Junior foi contatado por um emissário do São Paulo, a mando de Juvenal Juvêncio, presidente do clube. Isso mexeu com a cabeça do técnico santista, que de uma hora para outra passou a tomar atitudes inexplicáveis.

Mas dois fatores impediram sua contratação pelo São Paulo: a maneira turbulenta com que saiu do Santos e as acusações – deste blog, inclusive – de que tinha forçado a demissão para receber a multa e assumir no São Paulo. Assumisse o comando do Tricolor logo em seguida, como estava previsto, e mancharia a sua imagem de, até agora, profissional correto.

Outro motivo é que o time de Sergio Barei começou a vencer e Juvenal Juvêncio ficou em dúvida de substituir o jovem técnico interino. Nesse ínterim surgiu a ótima proposta financeira do Atlético Mineiro, patrocinado pelo banco BMG, e Dorival Junior pensou mais no bolso do que em um projeto vencedor.

Mas Dorival ainda é cotado para assumir o São Paulo em 2011, após o Brasileiro. A confirmação destas informações está no blog do ótimo repórter Leandro Quesada, da Rádio Bandeirantes. Para ler o texto na íntegra, acesse http://blogdoquesada.blog.uol.com.br/arch2010-09-26_2010-10-02.html

Alguma dúvida de que Dorival forçou a demissão pensando no São Paulo?


Filme “Soberano” se baseia numa informação falsa

É interessante essa moda de se lançar filmes sobre clubes de futebol. Já tivemos alguns muito bem produzidos sobre o Corinthians, como o “23 anos em sete segundos”, teremos em 2011 um sobre o Santos, e sexta-feira, justo no dia do meu aniversário, será lançado “Soberano – seis vezes São Paulo”, que conta a história dos seis títulos brasileiros conquistados pelo tricolor.

Nem preciso dizer que gosto e respeito a história do São Paulo. Tenho amigos e parentes são-paulinos e certamente conheço mais a história do clube do que eles. Porém, este filme em particular me decepciona em um quesito que considero muito importante: a verdade histórica.

“Soberano” é o tipo de filme feito para atender os interesses do clube. Ele distorce as informações para que se tornem mais favoráveis ao São Paulo e carrega nas tintas para se tornar mais atraente, o que pode torná-lo agradável para seu público, mas diminui sensivelmente o seu valor como documento.

São Paulo não é o maior campeão brasileiro

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, tinha 24 anos quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959. É de se imaginar que já acompanhasse o futebol. E se acompanhava, e se leu algum jornal, ouviu alguma emissora de rádio, assistiu tevê ou foi ao cinema – onde se passava o Canal 100 –, sabe que a Taça Brasil, que perdurou até 1969, foi criada pela CBD para dar ao vencedor o título de campeão brasileiro e o direito de representar o Brasil na Copa dos Campeões da América, hoje conhecida como Copa Libertadores da América.

A partir de 1967 a competição nacional mais importante passou a ser o Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata, que mesmo disputado por apenas quatro anos – 1967 a 1970 – é até hoje a que teve o melhor índice técnico e a melhor média de público dentre todos os campeonatos já realizados para se apurar o campeão brasileiro.

Como se sabe, de 1958 a 1970 viveu-se a era de ouro do futebol brasileiro, com a conquista de três Copas do Mundo – 1958/62/70 –, ou seja, 2/3 dos mundiais que o país conseguiu em toda a sua história. Era uma época tão encantada que todos os jogadores da Seleção Brasileira, titulares e reservas, jogavam no Brasil. Dentre eles Pelé, Garrincha, Tostão, Gérson, Rivelino, Zito, Gylmar, Jairzinho, Clodoaldo, Paulo César Caju, Vavá, DirceuLopes, Ademir da Guia…

Pois bem. Nesta fase, repito, de ouro do nosso futebol, o São Paulo, que construía o Morumbi, não tinha um time tão competitivo e por isso não ganhou nada. Nem um estadual, nem um Rio-São Paulo, nada. É claro que um são-paulino gostaria que esses anos fossem apagados da história do futebol…

Pois o filme faz justamente isso. Apaga da história a fase de ouro do futebol brasileiro e, neste caso coloca Juvenal Juvêncio de braços dados com a rival CBF de Ricardo Teixeira, pois assim como o omisso dirigente da Confederação, aceita a versão anticonstitucional de que o Brasil tem campeões nacionais apenas a partir de 1971.

Aviso aos navegantes que tanto a Taça Brasil como o Torneio Roberto Gomes Pedrosa eram oficiais, chancelados pela CBD, a entidade da qual a CBF herdou os títulos da Seleção e, obrigatoriamente, herdou também as competições internas oficiais organizadas por sua antecessora. Além da cobertura da imprensa e de documentos da CBD, tenho a palavra de João Havelange, falada e escrita, para comprovar a oficialidade dos títulos brasileiros de clubes conquistados naquele período.

Carta que recebi de João Havelange em que ele confirma a oficialização dos títulos da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, competições criadas por ele quando presidia a CBD, e em que pede a unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959.

Boletim oficial da CBD que trata o Fluminense como campeão do Brasil em 1970

Capa de A Gazeta Esportiva, o jornal de esportes mais lido do País na época, anunciando o tetracampeonato do Santos em 1964. Depois viriam mais quatro títulos brasileiros (1965/1968/2002/2004) e a Copa do Brasil deste ano.

Já discorri exaustivamente sobre o caso e expus provas e evidências mais do que suficientes para que não houvesse quaisquer dúvidas sobre o assunto. Credito às “dúvidas” apenas à paixão de alguns por clubes que nada conquistaram entre 1959 e 1970. Historiadores e cineastas deveriam ser mais criteriosos ao lidar com algo tão sério que é a história do futebol brasileiro.

Para se apurar os maiores campeões brasileiros, é preciso recorrer a um ranking publicado na revista internacional FourFourTwo e elaborado pelo jornalista e pesquisador Celso Unzelte. Nele, o Santos tem oito títulos de primeira linha; o Palmeiras, sete; Flamengo e São Paulo, seis, mas o time carioca ganha a terceira posição no desempate por ter mais duas Copas do Brasil.

De qualquer forma, o filme deve ser uma boa diversão para os são-paulinos e, de alguma forma, servirá para consolidar a paixão dos torcedores pelo clube. A iniciativa é válida e merece os parabéns. Pena que é mais uma peça de marketing do que uma obra de arte, e representa menos ainda como documento histórico, pois amputa justamente a fase mais criativa do futebol brasileiro.

E você, acha que esses filmes de clubes devem mesmo ser instrumentos de marketing e falar só o que o torcedor quer ouvir, ou deveriam obedecer a um maior rigor histórico?


O início da decadência do São Paulo

O São Paulo começou a perder a força que tinha quando o presidente Juvenal Juvêncio ironizou o Corinthians pelo fato de o Alvinegro não ter estádio. Isso provocou nos corintianos a determinação de não jogar mais no Morumbi, o que passou a gerar um grande prejuízo ao São Paulo, raiz de todos os males que afligem o clube hoje.

Lembro-me perfeitamente. No almoço no CT Rei Pelé que gerou o G4 Paulista, no ano passado, Andrés Sanches, presidente do Corinthians, explicava a mim, ao José Carlos Peres e ao presidente Marcelo Teixeira, por que o Corinthians não jogaria mais no Morumbi.

Por ele, Sanches, seria bom voltar a jogar, pois é um estádio que comporta mais pessoas e, conseqüentemente, dá mais lucro, mas, explicava, não podia voltar atrás em sua palavra, depois que a torcida corintiana, revoltada com a arrogância do São Paulo, pressionara o Corinthians para nunca mais jogar no Morumbi.

Quem não tem casa, tem de jogar na casa dos outros e não reclamar, foi o que disse Juvenal Juvêncio depois de um impasse sobre as taxas a serem cobradas pelo São Paulo para abrigar um jogo do seu rival. Até ali, Juvenal dizia o que queria, sem maiores conseqüências, mas naquela vez o Corinthians resolveu reagir, com resultado desastroso para o Tricolor.

Não se perdeu só o aluguel…

Sanches nos contou que o diretor de uma empresa que mantinha painéis de publicidade no Morumbi tinha ligado para ele para saber se o Corinthians não voltaria mesmo a jogar no Morumbi. Diante da confirmação, a empresa resolveu não renovar o contrato com o São Paulo.

Sim, porque o Corinthians, e eventualmente o Santos, não propiciavam ao São Paulo apenas as gordas taxas de aluguel do estádio. O maior valor arrecadado vinha da visibilidade das placas publicitárias – vistas não só pelos torcedores no estádio, mas também pelos espectadores da tevê e, através das fotos, por leitores de jornais, revistas e da Internet.

Com a restrição do uso do estádio apenas para jogos do São Paulo, o clube não pôde mais renovar seus contratos de publicidade nos mesmos valores e passou a perder alguns milhões de reais por ano.

Contratações ruins

Para mim, ficou evidente que o São Paulo estava com problemas quando contratou uma leva de ex-santistas que nem eram cogitados para voltar à Vila Belmiro, como André Luis, Léo Lima, Cléber Santana e depois trocou o sonolento Rodrigo Souto por Arouca.

O centroavante Washington nunca correspondeu no Tricolor, e Fernandão também já estava em má fase quando foi contratado. Ricardo Oliveira, outro ex-santista, não parece ter físico para muitas partidas seguidas.

Especular em cima de jogadores ainda com algum nome, mas decadentes, é típico de clubes que precisam manter a aura de fortes e competitivos, mas estão com “problemas de fluxo de caixa”.

Certamente o torcedor são-paulino preferiria que fossem repatriados Luís Fabiano, Júlio Batista, ou mesmo Josué. Para um clube que diz preocupar-se tanto com o marketing, estes três seriam alternativas mais eficazes e de maior impacto. Acontece que o São Paulo não tem receita suficiente para gestos tão ousados.

A venda de Hernanes, sem que houvesse um jogador do mesmo nível para o seu lugar, foi um exemplo de que de clube comprador, o São Paulo de Juvenal Juvêncio se tornou fornecedor de mão de obra.

Marca desvalorizada

A derrota constrangedora para o Corinthians, ontem, por inapeláveis 3 a 0 – décima partida sem vencer o rival –, que mantém o São Paulo próximo da zona de rebaixamento, foi apenas a ponta do iceberg. É interessante lembrar que além deste desconfortável tabu para o time que não tem estádio, o São Paulo já perdeu quatro vezes para o Santos este ano. Ou seja, não é mais o time vencedor de outras temporadas.

Tudo isso está desvalorizando a marca trabalhada com tanto carinho nos últimos anos. Recentemente o São Paulo tentou fechar um contrato de patrocínio com valores equivalentes aos dos grandes clubes europeus, mas não conseguiu. A alegação da empresa consultada é que o time está sem grandes atrativos – além do veterano Rogério Ceni, perto do aposentadoria, não há um ídolo que atraia a mídia.

A impossibilidade de conseguir parceiros para ser o estádio inaugural da Copa de 2014 também contribuiu para abalar a imagem do São Paulo. Com a constatação de que o clube não é tão organizado como tenta transparecer, de que seu marketing não faz milagres e sua direção tem um sentimento de grandeza e auto-suficiência que não corresponde à realidade, o Tricolor do Morumbi volta a ser um time comum.

Você acha que a fase ruim do São Paulo é transitória, ou o time está em decadência?


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