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Tag: Laranja Mecânica

A inteligência de Cruyff

Um tributo ao craque incomparável:

Um exemplo do futebol solidário da Holanda na Copa de 1974:

Morreu hoje, a um mês de completar 69 anos, o holandês Johan Cruyff, provavelmente o craque mais inteligente que pisou um campo de futebol. Não falo só da inteligência de jogar, mas de enxergar o todo que envolve o esporte. E mais do que inteligente, Cruyff tinha personalidade e era um líder respeitado. Por isso foi um atleta, técnico e dirigente bem acima da média.

Melhor jogador da Copa de 1974, merecia ter sido campeão. Um título ali o teria colocado em um patamar ainda mais alto na história do futebol. Mesmo assim, nenhum jogador brasileiro – com exceção de Pelé – representou tanto para o esporte como ele.

Maior expoente do estilo revolucionário da Holanda, seleção que foi chamada de “Laranja Mecânica”, mas também de “Carrossel Holandês”, pois fazia o jogo evoluir em círculos, Cruyff era o maestro daquele “futebol total”, em que os jogadores não guardavam posição e os defensores tinham tanta habilidade quanto os atacantes. Depois, como técnico, levou essa filosofia para o Barcelona, que hoje domina seus adversários com muita movimentação e um toque de bola irresistível.

Contrariado com a ditadura que imperava na Argentina, recusou-se a jogar a Copa de 1978, na qual a Holanda terminou em segundo lugar. Antes, sua opinião tinha sido decisiva para impedir o Ajax de disputar o título mundial na América do Sul, contra o campeão da Copa Libertadores. Abominava a violência e as trapaças usadas pelos times sul-americanos para vencer os europeus. A recusa do Ajax acabou com o sistema anterior do Mundial Interclubes e levou a decisão para um jogo só, em campo neutro, no Japão.

Em seu livro sobre a Copa de 74, que li em apenas uma tarde, define a Seleção Brasileira como “Os Gigantes Sul-americanos”. Cruyff, assunto de 80% dos blogs esportivos nesta quinta-feira, resumiu seus conhecimentos sobre o futebol em frases claras e profundas. Abaixo reproduzo as 10 que considero mais importantes:

10 frases de Cruyff

1. Técnica não é poder fazer 100 embaixadas. Qualquer um pode fazer isso, se praticar. Dá até para trabalhar no circo. Técnica é passar a bola com um toque, na velocidade correta, no pé certo do seu companheiro.

2. Escolha o melhor jogador para cada posição e você não terá, obrigatoriamente, a melhor equipe.

3. No meu time o goleiro é o primeiro atacante e o atacante, o primeiro defensor.

4. Jogadores que não são verdadeiros líderes, mas tentam ser, sempre brigam com os outros depois de um erro. Líderes de verdade já sabem que os outros vão errar.

05. Em uma partida de futebol é estatisticamente provado que os jogadores tem a posse de bola por 3 minutos, em média. Então, o mais importante é: o que fazer nos 87 minutos em que você não tem a bola. Isso é o que determina se você é um bom jogador ou não.

06. Não sou religioso. Na Espanha todos os 22 jogadores faziam o sinal da cruz antes de entrar em campo. Se isso funcionasse, todas as partidas terminariam empatadas.

07. Se você tem a posse da bola, precisa fazer com que o campo seja o maior possível, mas se você não tem, precisa fazer com que fique o menor possível.

08. Qualidade sem resultado é inútil. Resultado sem qualidade é entediante.

09. Acho ridículo quando um talento é rejeitado baseado em estatísticas de computador. Baseado nos critérios do Ajax de hoje eu teria sido rejeitado. Quando tinha 15 anos não conseguia chutar uma bola mais de 15 metros com minha perna esquerda e talvez 20 com a direita. Minhas qualidades, técnicas e visões não podem ser detectadas por um computador.

10. Jogar futebol é muito simples, mas jogar um futebol simples é a parte mais difícil do jogo.

Ganso fora do Sansão

Por uma falta boba diante do Botafogo, Paulo Henrique Ganso foi suspenso e desfalcará o São Paulo no clássico de domingo, na Vila. Bom para o Santos, ruim para o Sansão. Quando ele surgiu, me deu a impressão de que finalmente o Brasil teria um meia como os melhores da história. Mas, provavelmente devido aos seus problemas clínicos, além de seu caráter instável e individualista, Ganso poucas vezes justificou o prestígio conquistado naquele primeiro semestre mágico de 2010. Mais uma prova de que para ser um jogador completo, como Cruyff, é preciso muito mais do que ter habilidade e visão de jogo. É preciso ser um craque o tempo todo, dentro e fora do campo.

E você, o que acha disso?


Festival Laranja Mecânica. Veja como surgiu o Carrossel Holandês com seu “futebol total”

Já falavam da Holanda e seu futebol revolucionário, mas poucos – entre eles o técnico do Brasil, Zagallo – davam bola para os comentários. O mundo só se convenceu de que estava diante de um estilo novo e arrebatador de jogar futebol quando a algo novo e arrebatador de jogar futebol quando a Holanda do técnico Rinus Michels estreou na Copa de 1974, contra o respeitado Uruguai – seleção duas vezes campeã do mundo, que vinha de uma honrosa semifinal na Copa anterior.

Eram 16 horas de 15 de junho quando o árbitro húngaro Karoly Palotai autorizou o início da partida no estádio Niedersachsenstadion, em Hannover, tomado por um público de 53.700 espectadores.

Rinus Michels escalou seu time com Jongbloed, Suurbier, Haan, Rijsbergen e Krol; Jansen, Van Hanegen e Neeskens: Rep, Cruyff e Resenbrink. O técnico Roberto Porto, do Uruguai, levou para Mazurkiewicz, Pablo Forlan, Jáuregui, Masnik e Pavoni; Montero Castillo, Espárrago e Pedro Rocha; Cubilla (Millar), Morena e Mantegazza (dos uruguaios, Pedro Rocha e Pablo Forlan eram jogadores do São Paulo).

Ninguém tinha visto aquilo

A partida, cujos momentos principais trago para meus leitores neste vídeo abaixo, certamente foi uma das que mais influiu para a mudança dos conceitos do futebol. Ela mostrou que um time era capaz de fazer muito mais do que se costumava esperar de uma equipe.

Não só pela técnica refinada dos jogadores holandeses, mas pelo futebol coletivo que apresentavam – tão solidário que o time parecia um ser único, com seus jogadores movendo-se simultaneamente como um cardume, como células do mesmo organismo.

Pela primeira vez se viu uma equipe fazer marcação-pressão usando todos os seus jogadores em um faixa pequena do campo, atordoando o adversário e, invariavelmente, roubando-lhe a bola.

O ataque, também em bloco, avançava em movimentos giratórios, como se vários círculos de uma engrenagem fosse se fechando, estrangulando o adversário em busca do gol.

Não é à toa que a Seleção Holandesa foi batizada de “Laranja Mecânica”, filme polêmico de Stanley Kubrick que fazia grande sucesso na época. Ela era moderna e quase alegre como uma novidade da cibernética, mas ao mesmo tempo chegava a ser cruel com os inimigos.

Perceba neste filme – que, se fosse você, colocaria entre seus favoritos – alguns detalhes impressionantes e quase insólitos:

– Em um lance de meio-campo, os 10 holandeses avançam sobre o uruguaio que tem a bola e este, espantado, dá um passe curto que já pega vários companheiros em posição de impedimento.

– Famosos pela “garra”, os uruguaios jogam sujo e tentam agredir os holandeses, que continuam tocando a bola e dando um baile tremendo.

– O jogo foi só 2 a 0, com dois gols de Rep – aos 6 minutos do primeiro e aos 41 minutos do segundo tempo –, mas se tivesse concretizado metade das chances que criou, a Holanda teria conseguido uma goleada histórica.

Gostou? Então veja tamnbém como a Argentina tomou um baile ainda maior e perder de 4 a 0, em 26/06/1974, já na fase semifinal da Copa.

Para completar o passeio sobre os sul-americanos, em 7 de julho a Holanda, que precisava só do empate para ir à final, sapecou 2 a 0 no Brasil, que tinha Rivelino, Luís Pereira, Paulo César Caju, Leão e Jairzinho.

O título não veio, já que na final, como sabemos, a Holanda perdeu, de virada, para a Alemanha de Beckenbauer por 2 a 1. Mas aquela equipe laranja mudou a ordem do futebol mundial e mostrou que o esporte não precisava ser tão previsível.


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