Talvez, neste momento, poucos santistas estejam compreendendo a importância dessa derrota acachapante que o Barcelona impôs ao Alvinegro Praiano. É claro que o terceiro título mundial dos deixaria mais felizes. Porém, o ideal de um time não é apenas acumular títulos, mas sim continuar se desenvolvendo em busca da perfeição. E o choque com o Barcelona mostrou que o Santos e o futebol brasileiro e sul-americano estão muito defasados com relação ao melhor time do mundo.

O título preenche o currículo, mas pode ser enganoso. Outras equipes já foram três vezes campeãs do mundo e hoje estão em uma situação inferior ao Santos. Por outro lado, uma tristeza profunda é uma lição que fica para toda a vida, vale mais do que mil treinamentos, do que um milhão de preleções.

Depois de enfrentar o Barcelona e sentir na pele a dor pungente dessa derrota, nenhum desses jogadores santistas se esquecerá da importância do jogo de conjunto, da necessidade do deslocamento constante, de ser sempre uma boa opção para receber o passe, da habilidade para dominar e passar, enfim, de ser parte de um todo e não basear o futuro do time no astro que decide.

A constatação que lançamos aqui logo no primeiro post após a derrota santista, já se espalha. Creio que mesmo as mentes mais obtusas já perceberem que não foi só o Santos que saiu humilhado de Yokohama, mas sim o futebol brasileiro, que por tanto tempo reinou absoluto no planeta.

O ideal do time perfeito sobre o qual já conversamos aqui, com zagueiros e volantes ágeis e habilidosos, que se incorporariam a outros jogadores ainda mais ágeis e habilidosos, nos está sendo apresentada por este Barcelona. E já deu para perceber que a fórmula não é instantânea.

Não é uma ou outra contratação, mesmo de vulto, que fará uma equipe superar a esquadra espanhola. O trabalho, que exige coragem e determinação, deve começar na base. Apenas jogadores preparados em todos os fundamentos, acostumados a jogar ao lado dos mesmos companheiros anos a fio, é que um dia poderão formar um time tão ou mais harmonioso e eficiente do que o campeão do mundo. O Santos já tem o know how e a grife dos Meninos da Vila. É só colocar em prática aquilo que a história lhe ensinou.

Um grande time começa com uma grande derrota

O momento que marcou a passagem do futebol brasileiro da fase ingênua para a maturidade não foi de alegria. Ao contrário. Justamente na maior tristeza que o povo brasileiro sentiu em toda a sua história – a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã – é que começou a surgir o espírito campeão de 1958, que iniciou o reinado do Brasil no futebol.

Falou-se tanto da derrota, suas prováveis causas foram tão esmiuçadas e evitadas no futuro, que por algum tempo a Seleção Brasileira tornou-se quase invencível, a ponto de se sagrar bicampeã em 1958 e 62 de forma invicta.

Portanto, não há nada de errado nas demonstrações de tristeza e revolta dos santistas. Quem respeita a democracia, deve também respeitá-las. Porém, só o lamento inócuo não levará nada. É preciso identificar as falhas e aprender com elas, para que nunca mais se repitam.

E ter fé, claro, pois o futebol é cíclico e premia quem acredita. Veja que em 2001 o santista sofreu aquela dor tamanha ao ver o time ser eliminado nos segundos finais da semifinal do Paulista. Um ano depois, porém, também com um gol no último segundo, o Santos derrotava o mesmo adversário, de virada, e se tornava campeão brasileiro pela sétima vez, acabando com um jejum de títulos importantes que vinha desde 1984.

Só agora a imprensa está percebendo sua responsabilidade

Só agora é que deve ter caído a ficha de muito jornalista esportivo brasileiro, que viu o Barcelona dar esse baile no Santos e, de repente, se perguntou: “Ué, será que eu tenho parte nisso? Será que a derrota do Santos, a impotência do futebol brasileiro diante do melhor time do mundo, também me afeta?”

Ora, claro que sim. Se você é um crítico teatral em La Paz, na Bolívia, obviamente que isso não é o mesmo que ser crítico teatral na Broadway, em Nova York. O mercado em que você atua tem a ver com seu status profissional. Se o futebol brasileiro é uma merda, provavelmente você é um jornalista esportivo de merda. E mesmo que não seja, será assim que o mundo o verá.

O sujeito pode argumentar: eu só sou brasileiro e moro no Brasil, mas sou especialista em futebol europeu. Aí eu pergunto: você confia em gringo especializado em samba? É a mesma coisa. A Europa já tem os seus especialistas em quantidade suficiente. Não precisa da opinião de sul-americanos.

Por isso é inadmissível um jornalista esportivo brasileiro aconselhar um jogador jovem e talentoso a mudar-se para a Europa. Com uma atitude dessas ele só está contribuindo para empobrecer ainda mais o seu mercado de trabalho. Como a hegemonia européia poderá ter adversários à altura, se todo bom jogador do mundo for pra lá?

Portanto – e isto serve para jornalistas e torcedores rivais – rir da desgraça do Santos é rir de si mesmo. O mais inteligente é aprender as lições, ou, repito, aproveitar o limão servido pelo Barcelona e fazer uma refrescante limonada.

Que lição você aprendeu com essa derrota espetacular do Alvinegro Praiano?