Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Lista de convocados

Lista sem os Meninos é ruim pra Seleção, mas não pro Santos. Melhor futebol do mundo não estará na África, mas na Vila Belmiro

O técnico Dunga e seu auxiliar Jorginho ficaram convencidos da capacidade de Paulo Henrique Ganso e Neymar, mas não a ponto de “trair” o grupo que se mantém unido há mais de dois anos. Até porque eles têm a certeza de que os santistas, muito jovens, terão todas as oportunidades na Copa de 2014. A convocação de minutos atrás, infelizmente, foi a mesma que os mais pessimistas esperavam. De novidade, como previu a revista FourFourTwo de abril, só mesmo a presença de Grafite no lugar de Adriano.

Quem leu a abertura da matéria sobre Grafite, na página 14, se deparou com a seguinte informação: “É justo dizer que se alguém pode ser a surpresa na lista definitiva do técnico Dunga para a Copa, este deve ser o centroavante Grafite. Não só por méritos próprios, mas também por demérito de Adriano, cuja vida pessoal continua preocupante”.

Como disse no meu post de ontem, fiquei, sim, com a certeza de que Ganso seria chamado. Provavelmente ficará entre os sete reservas. Na verdade, porém, não fiquei tão triste, hoje, pela ausência dos dois Meninos na lista. Como escreveram alguns santistas – e nisso sou obrigado a concordar com eles – o Santos já serviu tanto a Seleção Brasileira, e recebeu muito pouco em troca. Por que desfalcar-se mais uma vez na reta final de uma competição importante em troca, provavelmente, de um banco de reservas?

Em 2005 o clube perdeu a oportunidade de disputar uma final de Libertadores porque Carlos Alberto Parreira convocou santistas para ficarem no banco de um amistoso chinfrim. Desta vez, se escalados entre os 23, ficariam de fora do segundo jogo contra o Grêmio, o mais importante do Santos este ano, pois pode lhe colocar na final da Copa do Brasil, a um passo de um título importante que nunca conquistou e ainda da vaga para a Libertadores.

Se fosse campanha contra, teriam chamado?

É até engraçado, mas acho que se fizéssemos uma campanha contra as presenças de Ganso e Neymar na Copa, aí sim eles teriam sido chamados. Dunga e a CBF parecem fazer tudo ao contrário do que o torcedor brasileiro realmente deseja, como se técnico e entidade fossem os donos do futebol. O torcedor só tem o direito de pagar, sustentar com sua paixão o mercado milionário, mas na hora de opinar sobre o evento mais importante, que é a Copa do Mundo, é ignorado olimpicamente.

Ótimo. Tudo tem o seu lado positivo e estou certo que há muito santista soltando rojão neste momento. Não estou tão triste como imaginei que ficaria caso Ganso e Neymar não fossem convocados. O show do futebol tem de continuar e o mundo já está de olho neles, com Copa ou sem Copa.

Acho que quando começamos a campanha #gansoeneymarnacopa no twitter, a idéia era só ver esta arte, este futebol bonito dos Meninos, representado também na África do Sul. A coisa cresceu, tomou o País, virou um filho de muitos pais. Tudo bem. Se é para uma boa finalidade, não importa quem começou. Não tenho e nunca tive esse tipo de vaidade.

Quando soube que, se convocados, desfalcariam o Santos no segundo jogo contra o Grêmio, juro que fiquei menos empolgado. Não poderia abortar a campanha que encheu tanta gente de entusiasmo, mas no fundo comecei a ter dúvidas… Será que, quando ouvi a lista de hoje, eu ainda os queria com tanta intensidade na Copa, ou preferia o Santos completo na final da Copa do Brasil? Bem, o coração tem razões que a própria razão desconhece…

Não é à toa que a fase áurea do Santos e da Seleção Brasileira de confundem e se resumem de 1958 a 1970. No ano passado ouvi pessoalmente de João Havelange que se não fosse o Santos a CBD não teria montado tantas seleções campeãs. “Devo muito a esses Meninos”, disse ele, referindo-se a Pelé, Coutinho, Pepe, Mengálvio, Zito, Clodoaldo, que o ouviam no Centro de Treinamento Rei Pelé.

No entanto, apesar de ser o melhor time do mundo na época e ter contribuído para formar também a melhor seleção do planeta, o Santos nem ao menos tem seus títulos brasileiros da década de 1960 ratificados por esta direção da CBF que está aí.

Portanto, se estou triste pela ausência nesta lista de Ganso e Neymar – os melhores jogadores do Brasil no momento –, estou feliz pelo Santos, que com eles terá uma equipe mais forte para lutar pelo título da Copa do Brasil contra o poderoso Grêmio de Porto Alegre.

Agora é torcer. Para a Seleção e para o Santos

Se eu já torci até para a Seleção do Sebastião Lazzaroni, do Parreira e do Zagallo, claro que torcerei como um louco por mais um título brasileiro. Seleção é Seleção. Copa é Copa. É sempre maravilhoso ver o Brasil ganhando um Mundial, assim como será maravilhoso ver este Santos premiado pela excelência de seu futebol.

A lista do Dunga

Goleiros
Júlio César (Inter/ITA)
Doni (Roma/ITA)
Gomes (Tottenham/ING)

Laterais
Maicon (Inter/ITA)
Daniel Alves (Barcelona/ESP)
Michel Bastos (Lyon/FRA)
Gilberto (Cruzeiro)

Zagueiros
Lúcio (Inter/ITA)
Juan (Roma/ITA)
Luisão (Benfica/POR)
Thiago Silva (Milan/ITA)

Volantes
Felipe Melo (Juventus/ITA)
Gilberto Silva (Panathinaikos/GRE)
Josué (Wolfsburg/ALE)
Kleberson (Flamengo)

Meias
Kaká (Real/ESP)
Ramires (Benfica/POR)
Elano (Galatasaray/TUR)
Júlio Baptista (Roma/ITA)

Atacantes
Luís Fabiano (Sevilla/ESP)
Robinho (Santos)
Nilmar (Villarreal/ESP)
Grafite (Wolfsburg/ALE)


Depois de conversar com Dunga, saí com a certeza de que Ganso está na lista. Neymar é dúvida…

Dunga: "Mas o Neymar não é franzino?"

Já tinha visitado minha mãe e minha sogra. Estava assistindo a Ceará e Fluminense quando minha mulher trouxe o telefone sem fio. “Quer falar com você. Jorge”. Jorge? Pensei em um velho amigo professor de tênis e atendi animado – Jorjão!”. Mas a voz do outro lado era desconhecida, baixa e quase formal. “Você é o jornalista Odir Cunha?”. Imaginei um editor me oferecendo um frila, ou um alguém querendo agendar uma palestra, ou pedindo um livro autografado. Mas o assunto era bem diferente…

“Aqui é o Jorginho, da comissão técnica da Seleção Brasileira. Estamos em São Paulo e o Dunga queria falar com você. Já jantou?”. Engoli em seco. Será que nas minhas críticas tinha atravessado o sinal e ofendido o técnico da Seleção Brasileira, que queria me processar? Rememorei meus artigos e constatei que não havia nada de ofensivo demais neles. “Ah, já comi uma pizza na casa da sogra…”, tentei descontrair. “Então vem tomar um café com a gente”, ele insistiu.

Ambos estavam em um hotel da Rua Augusta. Tinham assistido, disfarçados, ao jogo do Corinthians. Acho que queriam tirar as últimas dúvidas antes da divulgação da lista para a Copa, amanhã. Claro que fiquei honrado com a lembrança. Respondi que em meia hora estaria lá.

Conheci Dunga quando ele jogou no Santos, em 1986. Até ali tinha a fama de jogador medíocre, volante só de destruição. Mas nos demos bem. Também pelo fato de ele ser da mesma cidade de Ijuí, onde nasceu o grande tenista e meu amigo Marcos Hocevar, cinco anos mais velho do que Dunga.

Por falar em idade, fiz as contas e vi que em 1986, quando o conheci, Dunga tinha apenas 22 anos – era um garotão, enquanto eu, com 33, já cobria futebol há sete anos. Talvez pela minha mania de dar conselhos aos mais jovens a gente tenha se aproximado. Não sei, só sei que enquanto dirigia para o nosso encontro, tive a sensação de que não havia e nem haveria qualquer problema entre nós.

“Agora também é compositor, é?”

Dunga e Jorginho eram os únicos clientes no restaurante e ocupavam uma mesa no fundo, em um canto propositalmente escuro. Jorginho foi o primeiro a se erguer e me cumprimentar. Apertei sua mão e depois abracei Dunga. Sorrimos. Ele quebrou o gelo:

“Agora também é compositor, é? Que pagodinho sem vergonha é esse?” (referia-se ao sambinha que compus “Dunga me escuta”, que está no youtube na interpretação dos irmãos Claudio e Fernando).

“Uma brincadeira bem-humorada. Mas que diz uma grande verdade”, respondi.

“Não precisa de uma música para eu te escutar. É só me procurar…”.

“Hoje você é o técnico da Seleção Brasileira, um dos caras mais importantes do Brasil…”.

“Sem essa… Fica com meu e-mail. Jorge, depois dá meu e-mail e telefone pro Odir”.

Enquanto Jorginho se apressava em anotar em um papel o e-mail e o celular pessoais de Dunga, este, sempre muito objetivo, foi direto ao ponto:

“Você é santista pra caralho… nem sei se deveria te ouvir. Mas confio nos teus critérios. Diz pra gente por que eu deveria convocar o Paulo Henrique e o Neymar. E anda logo que a gente já tem vôo marcado…”.

Ganso, um maestro precoce

“O fato de ser santista e de acompanhar esses garotos desde as divisões de base é uma vantagem, ou não?”, retruquei. “Conheço os dois, sei do que são capazes, por isso não tenho nenhum receio de afirmar que deveriam ir pra Copa…”.

“Mas por que devem ir?”, Jorginho interrompeu.

“É, tu fala de um primeiro e depois do outro”, reforçou Dunga.

“Está bem. Vamos lá: primeiro, Paulo Henrique Ganso. Dá assistências como nenhum outro jogador brasileiro, dentro ou fora do País. Bola no pé dele tem destino certo. O jogo está aquele bate e rebate, de repente a bola cai no pé do Ganso e a gente já espera que ele coloque alguém na cara do gol, ou limpe a jogada. Tem uma visão de jogo impressionante, descobre espaços que nem você assistindo à tevê consegue enxergar…”.

Percebi que Jorginho olhou para Dunga e ambos sorriram discretamente. Prossegui, mais empolgado: “Nota máxima em habilidade. Dribla no chão ou pelo alto, se vira bem nos menores espaços e se tiver de segurar a bola, então, ninguém tira dele”. Neste momento percebi que Dunga ficou mais interessado. Acho que ele imaginou um jogo duro, em que o Brasil terá de prender a bola nos últimos minutos. Há um cara melhor do que o Ganso para isso?

“E o detalhe mais importante: tem só 20 anos, fará 21 em outubro, mas já é maduro. Viram como ele jogou na final do Campeonato Paulista? Enquanto os veteranos Léo, Marquinhos e Roberto Brum foram expulsos, ele fez questão de ficar em campo, pôs a bola embaixo dos asas e garantiu o título…”.

“Outra coisa: tem um bom porte físico: 1,84m e está mais forte. Também é uma opção em bola alta e já fez gols de cabeça pelo Santos…”.

“Mas ele saber marcar?”, interrompeu Jorginho, provavelmente antecipando-se a uma pergunta de Dunga.

“Olha, tem marcado melhor”, respondi. “Não é um marcador nato, mas cerca bem e já está conseguindo roubar algumas bolas. E marca sem fazer falta escandalosa. É inteligente até nisso… Mas sobre isso tenho uma opinião: é mais fácil você fazer um craque ajudar na marcação do que um marcador virar craque. Ou não?”.

Jorginho e Dunga olharam-se significativamente. Completei as informações sobre Paulo Henrique dizendo que era canhoto (os canhotos costumam ter algo especial no futebol) e que seria o reserva ideal do Kaká, apesar de considerá-lo, hoje, melhor do que o titular da Seleção.

Neymar, aquele que vai pra cima

Percebi que não havia mais nada de essencial a falar sobre Ganso e tratei de dar minha opinião sobre Neymar. Destaquei, em primeiro lugar, sua inteligência. Sem ela, qualquer jogador profissional sabe, não se obtém sucesso no futebol…

“Na primeira vez que pegou na bola como profissional, há mais de um ano, pelo Campeonato Paulista, ele recebeu na lateral direita, driblou o zagueiro com uma facilidade espantosa e tocou de cobertura, quase sem ângulo”, comecei.

“Gol?”, quis saber Jorginho. “Não, travessão”, respondi, “mas sabe aquele lance que já deixa em todos a certeza de que se está diante de um cara iluminado?”

“Vocês dizem que estou pedindo pelos dois na Seleção porque sou santista”, retruquei, “mas o fato de torcer para um time não muda meus conceitos sobre o futebol. E eu digo que se fosse técnico e tivesse de escolher entre Neymar e Robinho, escalaria o Neymar. Hoje ele é mais decisivo…”.

“Como assim?”, perguntou Dunga.

“Dribla e passa melhor, ou seja, dá mais sequência às jogadas. Também arremata bem melhor a gol. Já estamos em maio e o garoto mantém a média de quase um gol por jogo este ano. Assim como marca, serve aos companheiros. É um jogador de equipe, mas se preciso sabe usar muito bem sua capacidade individual…”.

Percebi que Dunga e Jorginho mexeram-se nas cadeiras esperando mais informações sobre o talento de Neymar, e prossegui: “O garoto vai pra cima mesmo, não tem medo de botinada e nem de perder a bola. Não é aquele cara que diante de uma dificuldade toca de lado ou pra trás. Deve ser um inferno marcar o Neymar, pois ele não para. É ágil, esperto. Em um time com tantos jogadores bons, como a Seleção, ele iria deitar e rolar”.

“Não sei… Não é muito franzino para agüentar uma Copa?”, resmungou Dunga.

“Está mais forte e mais alto este ano. Aumentou dois centímetros e quatro quilos. Mas cair, pra ele, é uma defesa. Se deixar o corpo firme, podem lhe quebrar. Cai porque amortece a pancada. Mas não passa um jogo que não provoque cartões amarelos nos adversários. E num jogo duro, amarelar os inimigos e cavar bolas paradas perto da área é bom, não?”

“Acho que ele estará no ponto em 2014, mas agora não sei, tenho o Nilmar, ou mesmo o Tardelli…”, ponderou Dunga.

“Olha, tinha um chefe de reportagem, o Roberto Avallone, que dizia que futebol é o momento. E no momento os dois garotos estão comendo a bola. Não se sabe como será em 2014, mas hoje eles têm de ser titulares em qualquer time. Com eles em campo, a preocupação passa para o outro lado. Eles criam jogadas, criam opções…”

“Futebol não é só criar, também é destruir as jogadas do adversário. Para você ter a bola, precisa roubar do outro time”, interrompeu Jorginho.

“Sim”, concordei. “Mas depois de roubar a bola do adversário, vem a questão do que fazer com ela. O forte do futebol brasileiro sempre foi a criatividade. Sem jogadores criativos, o Brasil se igualará às outras equipes”.

“ A gente não precisa ter muitos criativos. Igualando-se aos gringos na marcação, a gente acaba decidindo na habilidade individual”, enfatizou Dunga.

“Sim”, concordei, “há mais de um jeito de ganhar uma Copa. Pode ser de um jeito lotérico, como uma disputa de pênaltis, como foi em 1994, ou com uma série de goleadas, como em 1958 e 1970, quando a Seleção tinha vários jogadores criativos, vários craques no ataque…”

“Valeu, Odir. Obrigado por suas informações. Agora a gente tem mesmo de ir, não é Carlos?”, encerrou bruscamente Jorginho, que às vezes chama Dunga pelo nome de batismo.

“Eu é que agradeço pela honra de me ouvirem. Mas não comecei a campanha #gansoeneymarnacopa no twitter por ser santista, podem crer nisso. Pois considero Elano e Robinho tão santistas como o Ganso e o Neymar e hoje, se fosse escolher, levaria os dois moleques, de olhos fechados” (fiz questão de usar a expressão ‘olhos fechados’ para que Dunga e Jorginho se lembrassem de que Zico também a utilizou para falar da vontade de ver Neymar na Copa. Todos os grandes craques do futebol brasileiro, aliás, têm concordado que Ganso e Neymar devem jogar na África do Sul).

Despedimo-nos rapidamente. No estacionamento tirei o gravador do bolso e confirmei que toda a conversa tinha sido gravada. Agora você, leitor do Blog do Odir, a tem em primeira mão.

Tire suas conclusões. Será que Dunga e seu conselheiro Jorginho ficaram convencidos de que Ganso e Neymar devem ser chamados para a Copa? Eles estarão na lista amanhã? Fiquei com a impressão de que Paulo Henrique Ganso é nome certo. A dúvida é Neymar.


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