Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Luis Alonso Peres

Precisa-se de especialistas em futebol. Tratar na Vila Belmiro

A Teisa está abandonando o navio. Descontente com os resultados dos investimentos em jogadores como Elano, Ibson e Henrique, entre outros, a empresa criada para dar suporte às contratações do Santos resolveu parar de perder dinheiro. É compreensível. Só que como experientes investidores, os sócios da Teisa se esqueceram de uma regra básica de mercado: antes de investir, deveriam se abastecer de todas as informações possíveis. Se consultassem os leitores desse blog, por exemplo, jamais teriam feito as loucuras que fizeram.

Perceba o leitor que o Santos, infelizmente, tem seguido um padrão que invariavelmente tem levado à gastança e à inoperância. Essa administração não fugiu da regra. No começo, estabeleceu-se um teto para os salários e um limite para as contratações. E foi justamente nesse período que o time jogou melhor, com mais determinação, objetividade e solidariedade. Foi o tempo do “Cirque du Soleil”,das goleadas, do futebol ofensivo que encantou o Brasil. Mas isso durou apenas o primeiro semestre de 2010.

Depois, sem possibilidade de segurar alguns de seus jogadores principais – como André e Wesley -, o Santos tratou de contratar jovens promissores. Poucos deram certo, mas ao menos dessa nova leva vieram Danilo e Alex Sandro, titulares de seleções de novos.

Porém, dois anos e meio depois dessa administração, vemos um time repleto de veteranos, com uma folha salarial altíssima, jogando mal, sem capacidade ofensiva e nas mãos de um técnico acomodado.

Quanto se busca as razões de o Santos ter andado para trás, não dá para fugir da evidência de que faltou ousadia para manter o plano original, e faltou ousadia porque não houve quem enxergasse suficientemente o futebol para promover as mudanças necessárias.

A goleada sofrida para o Barcelona foi o sinal de que o futebol do Santos estava obsoleto se comparado às grandes forças do planeta. Aquele resultado vexatório deixou a direção do Alvinegro Praiano diante de uma decisão que envolvia coragem e muito trabalho: Vamos lutar para nos equipararmos ao melhor time do mundo, ou vamos nos contentar em continuar sendo um dos melhores da América do Sul?

Optou-se pela alternativa mais cômoda, pois envolvia menos trabalho. Manter-se como um dos principais times sul-americanos não exigia nenhum esforço. Era só deixar tudo como estava. E o Santos saiu de férias, como se nada tivesse acontecido no Japão.

Naquele momento a diretoria já poderia ter analisado as possibilidades de uma grande reformulação no elenco. Desde aquela derrota percebe-se que alguns jogadores já deram o que tinham de dar.
E além de mexer no elenco, deveriam reformular o conceito de se jogar futebol. Ficou evidente que não era mais possível manter um sistema de jogo baseado em um único jogador excepcional.

Hoje, o Santos se aproxima novamente do ponto de erupção. Não houve planejamento financeiro e hoje o futebol gasta mais do que arrecada, a folha salarial é alta demais e o rendimento apresentado pelo time deixa a desejar. Jogadores terão de sair e precisarão ser substituidos por outros com salários menores. O grande dilema é encontrar esses outros. Para isso é preciso conhecer futebol.

Pelas últimas contratações, percebe-se que o Santos não tem a fortuna de contar com especialistas na área. A Teisa certamente acreditou nas indicações do clube para buscar jogadores, e deve ter se arrependido. Após dois anos e meio, e mesmo com tanto dinheiro investido, os grandes destaques do Santos continuam sendo Neymar, Ganso e Rafael, que já estavam no clube quando a nova administração assumiu. Nenhum outro grande jogador foi revelado ou contratado.

Por isso, hoje, mais do que sair gastando a torto e a direito, o Santos precisa contar com especialistas na matéria-prima que alimenta o clube, que é o futebol. Alguém que saiba distinguir um cabeça de bagre de um craque já seria um bom começo. Se não for possível, aconselho que visitem um centro espírita e tentem fazer contato com Luis Alonso Peres, o genial Lula, técnico que descobriu Pagão, Pepe, Del Vecchio, Pelé, Coutinho, Edu, Clodoaldo…

Você não acha que o Santos precisa de um especialista em futebol?


Uma final heróica contra o Corinthians. Que poucos conhecem…

Quanto se fala nos jogos entre Santos e Corinthians que decidiram títulos, todos se lembram dos Paulistas de 1935 e 1984, vencidos pelos Santos; do Paulista de 2009, que ficou com o Corinthians; do histórico Brasileiro de 2002, conquistado pelo Alvinegro Praiano e – depois de lembrado por Celso Unzelte no livro “O Grande Jogo” – também do Paulista de 1930, arrancado pelo alvinegro da capital em plena Vila Belmiro. Mas ninguém se recorda daquele que, para mim, foi o mais dramático de todos.

Estou me referindo ao Rio-São Paulo de 1966, decidido, na última rodada, com um confronto entre Corinthians e Santos, no Pacaembu. Naquele domingo, 27 de março de 1966, dois clássicos alvinegros definiriam a competição: aquele do Pacaembu, à tarde, e depois, à noite, Vasco e Botafogo, no Maracanã.

A situação do torneio era a seguinte: o Vasco era o líder, com um ponto ganho a mais do que Santos e Corinthians e dois pontos à frente do Botafogo. Não me pergunte porque os dois jogos não foram realizados no mesmo horário, como a ética mandaria. O certo é que se vencesse, o Vasco seria campeão. Mas, se perdesse, ficaria atrás de Santos ou Corinthians, caso um dos dois saísse vitorioso no clássico paulistano.

Quanto ao Botafogo, sua única possibilidade de chegar ao título seria vencer o Vasco e torcer para o empate em São Paulo, pois isso deixaria os quatro times empatados na primeira posição e obrigaria a realização de um quadrangular final para a definir o torneio.

Vivia-se o auge do tabu

Naquela época, o Corinthians não ganhava do Santos de jeito nenhum. Sabe-se que por 11 anos, de 1957 a 1968, o Santos não perdeu para o rival no Campeonato Paulista. Mas houve um período, de junho de 1962 até março de 1968, que a invencibilidade se estendeu por todas as competições. Só nesse período foram 19 jogos, com 11 vitórias santistas e oito empates.

Pelé, maior algoz do Corinthians, naquele domingo não jogou. O técnico Lula escalou a equipe com Laércio, Carlos Alberto Torres, Oberdan, Haroldo e Zé Carlos; Zito e Mengálvio; Dorval (Lima), Coutinho, Toninho e Edu (Joel).

Oswaldo Brandão armou o Corinthians com Heitor, Jair Marinho, Ditão, Galhardo e Édson; Nair e Rivelino; Garrincha, Flávio (Nei), Tales e Gílson Porto.

O jogo começou e seguiu equilibrado, com tentativas de ambos os lados. Mas, por jogo violento, seguido de reclamação, o árbitro Ethel Rodrigues cismou de expulsar Coutinho e Mengálvio de uma vez só. E aos 30 minutos, ao driblar Zito dentro da área, Garrincha sofreu pênalti.

Eu, com os meus 13 anos e meio, acompanhava a partida pelo rádio e percebi que a situação estava critica. Um pênalti contra e dois jogadores a menos, em um Pacaembu repleto de torcedores contrários… Como o Santos faria para manter o tabu? Mas, lembro-me bem, não desisti. Continuei torcendo pelo improvável.

O primeiro estágio da torcida deu certo. Laércio Milani, tão bom goleiro que chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira mesmo sendo reserva de Gylmar, espalmou o pênalti cobrado por Flávio no canto direito. A bola voltou para a pequena área e Flávio jogou por cima.

Lula substituiu os pontas Dorval e Edu por Lima e Joel e o Santos passou a jogar na defesa. Mas, faltavam, ainda, 15 minutos para terminar o primeiro tempo, além da segunda etapa inteirinha.

Mesmo quando tinha de me distanciar do grande rádio, que ficava na cozinha, torcia para não ouvir o grito de gol, pois isso, inevitavelmente, significaria que o adversário tinha vencido a retranca santista. E assim o tempo passou.

Um título heróico

Nos últimos minutos, já com o coração aos pulos, ouvi quando, em um contra-ataque, Toninho Guerreiro penetrou pela direita e quase fez o gol da vitória santista. De qualquer forma, o empate de 0 a 0, nas circunstâncias em que foi obtido, representou uma grande vitória, que se revelou até mais importante do que a manutenção do tabu.

À noite, o Botafogo venceu o Vasco por 3 a 0, provocando um empate qrádruplo. Sem datas para realizar um quadrangular para definir o campeão, decidiu-se que o título seria dividido entre os quatro.

Assim, se você ainda não sabia, fique sabendo – e não esqueça – que o Santos já foi campeão jogando 60 minutos com dois jogadores a menos do que o Corinthians, em um empate que valeu muito mais do que uma goleada e que deixou no adversário uma sensação terrível de derrota.

Reveja o filme deste jogo no lendário Canal 100:

Corinthians 0, Santos 0

27 de março de 1966, domingo à tarde

Última rodada do Rio-São Paulo de 1966

Pacaembu

Corinthians: Heitor, Jair Marinho, Ditão, Galhardo e Édson; Nair e Rivelino; Garrincha, Flávio (Nei), Tales e Gílson Porto.
Técnico: Oswaldo Brandão.

Santos: Laércio, Carlos Alberto Torres, Oberdan, Haroldo e Zé Carlos; Zito e Mengálvio; Dorval (Lima), Coutinho, Toninho e Edu (Joel).
Técnico: Lula.

Árbitro: Ethel Rodrigues (SP).

Cartões Vermelhos: Mengálvio e Coutinho.

Renda: Cr$ 64.517.500,00

Veja matéria sobre os títulos ganhos pelo Santos no Pacaemnbu no blog Santistas Loucos

Acreditar, sempre

Por ter vivido situações como esta, é que nunca deixei de acreditar no Santos, mesmo nos momentos mais difíceis de sua história. Por isso, vencer o Corinthians, domingo, na Vila, e comemorar mais um título Paulista, é fichinha perto das dificuldades que o time já passou diante de seu tradicional rival.

Você conhecia esta história? Acha que um time que já manteve um tabu jogando com dois jogadores a menos por 60 minutos, no campo do adversário e com torcida contra, pode ter algum receio ao jogar completo e em sua casa?


No Santos, só os Meninos salvam

O Santos tem oferecido planos de carreira a Meninos da base e jogadores jovens que se destacam. Acho isso ótimo. Mas que tal a direção do clube ter também um plano de carreira para o time de futebol?

Talvez o termo certo não seja este, talvez o mais apropriado seja plano de vôo, são sei, o certo é que o futebol profissional parece desorientado. Às vezes parece ir em determinada direção, mas em seguida muda a rota sem maiores explicações.

Há um distanciamento entre o time e a torcida

Está havendo um distanciamento entre o time de futebol e a torcida do Santos. O torcedor está sendo obrigado a engolir jogadores que ele não quer e não está tendo a oportunidade de ver em campo os que ele quer.

Entendam bem. Não estou afirmando que todo Menino da base é melhor do que um profissional contratado de outras equipes.

Também não estou afirmando que todo jogador jovem deva entrar imediatamente na equipe.

Mas o que faz o torcedor feliz, o que seria um consolo nesse momento é ver todos os jogadores que ele quer com a camisa do Santos.

Seria precipitado lançar todos de uma vez só, admito, mas nesses três jogos que faltam para o final do Brasileiro, por que não dar reais oportunidades a Felipe Anderson, Moisés, Tiago Alves, Anderson Planta,Vinícius Simon, e manter no time os garotos Neymar, Madson, Alan Patrick?

É isso que o povo quer. É isso que o torcedor anseia.

Que o torcedor assuma o risco

Se um time jovem desses – desde que bem preparado antes, claro, e não jogado às feras – perder, jogar mal, mostrar que alguns desses jovens jogadores, decantados pelo torcedor, não têm mesmo condições, no momento, para serem titulares do Santos, tudo bem. O torcedor compreenderá e parará de fazer pressão para que sejam escalados. Mas, se jogarem bem e devolverem a alegria ao Santos, por que não mantê-los?

O torcedor sabe que os grandes momentos da história do Santos estão ligados aos Meninos da Vila: 1978 (com resquícios no de 1984), 2002, 2010. Isto, sem contar os Meninos fundadores do clube – Milllon e Arnaldo –, os que jogaram no ataque dos 100 gols (Siriri, Camarão, Araken, Omar, Evangelista) e os maravilhosos Meninos dos anos 50 e 60 (Pepe, Del Vecchio, Pagão, Pelé, Coutinho, Clodoaldo, Edu, Joel Camargo…).

Com razão, o torcedor do Santos pensa assim: enquanto o time não for formado por um bando de Meninos talentosos e irreverentes, não seremos o Santos. Por isso ele acha que esse time que jogou ontem, em casa, contra o Grêmio – com um jogador a mais durante 70 minutos e com um pênalti a seu favor –, só ficou no 0 a 0 porque não é o Santos, não segue o DNA do Santos.

O torcedor pode estar errado? Sim. Mas ele quer e tem o direito de errar. Desde que presidente, diretores e comissão técnica entendam qual é o plano de carreira para o Santos, estes erros fazem parte da vida de um clube. Mas sem esses erros não se chegará a um time verdadeiramente Santos.

E os “experientes”, como ficam?

É claro que não se pode descartar, de uma hora para outra, vários jogadores experientes e razoavelmente bons, que hoje são maioria no elenco santista. Porém, eles não têm conseguido e nunca conseguirão dar ao Santos o futebol que se viu no primeiro semestre, por exemplo.

Veteranos, ou, diríamos, jogadores mais rodados, preferem impor um ritmo de jogo mais cadenciado ao time, ousam menos em dribles e chutes, arriscam menos nos passes.

É natural imprimirem um estilo de jogo que poupará seus físicos. Assim, obviamente, não há time com muitos jogadores mais velhos que seja rápido, insinuante e marque muitos gols, como deve ser o Santos.

Lembremo-nos do Santos de 2009 e 2009. Havia no mínimo quatro jogadores que eram considerados intocáveis. Dizia-se que sem eles o Santos seria rebaixado (na verdade quase o foi com eles em campo). Eram Fábio Costa, Rodrigo Souto, Kléber e Kléber Pereira.

Pois os quatro saíram do time e o que aconteceu? Surgiram as oportunidades para Rafael, Arouca e André (além da volta de Léo), e o time passou a ser ofensivo e atrevido como um bom Santos deve ser.

Assim, não é uma questão de se menosprezar os veteranos, mas de se ter consciência de que no Santos eles nunca podem ser maioria, nunca poderão ter a prioridade nas escalações, ou isso deformará o estilo ancestral de jogo do time.

Reconheço que há posições, em funções de defesa, em que um veterano pode ser mais importante. Porém, hoje o futebol mudou. Mesmo de um zagueiro se exige mais velocidade e disposição física. Se há reservas mais jovens, por que não lhes dar oportunidades reais de brigar pela posição?

Por que os Meninos são tratados como bombeiros?

Tenho dito para todos os cantos que o Santos é o clube que mais respeita os Meninos que vêm da base. E gostaria muito que os diretores do clube confirmassem isso na prática e não tratassem os Meninos apenas como apagadores de incêndio.

Na verdade, o Santos sempre apelou para seus Meninos quando não tinha dinheiro em caixa e não podia contratar medalhões. Foi assim com o time de 1927, em 1978 e em 2002.

O primeiro a fugir desse script foi o técnico Luis Alonso Peres, o Lula, que realmente acreditava nos jovens e tinha um olho clínico incrível para distinguir um craque entre milhares de cabeças de bagre.

Lula teve a coragem de lançar Coutinho com 14 anos, Pelé com 16, Edu com 15… Foi o técnico de maior visão e coragem que o clube já teve e a ele o Santos deve suas grandes conquistas.

Em 1927, 1978 e 2002 os Meninos foram chamados quando o clube estava bem próximo da insolvência. Vieram e não só salvaram o Santos, como o tornaram uma referência mundial de bom futebol.

Que se forme a República dos Meninos

Há muita gente que se diz preocupada com a irreverência, com a alegria, com o “desrespeito” dos Meninos. Ora, algumas características são próprias da idade, mas sem elas o Santos nunca teria os grandes times que teve.

Sem os Meninos o Santos não ousa, não se diverte em campo, não vai pra cima dos adversários. Vira esse velório que se viu ontem e que se verá nos jogos restantes desse Brasileiro se o time continuar a ser escalado com tanto jogador “experiente” e contemporizador.

Acho que falo pela maioria dos santistas quando digo que gostaria de ver, nestes três jogos que faltam neste Brasileiro desperdiçado, muitos e muitos Meninos em campo.

Se o Santos perder, paciência. O torcedor saberá entender. Já que os veteranos perderam, os Meninos também têm o direito. Mas se voltar a jogar com beleza e alegria, se voltar a ser ofensivo como sempre foi e deve ser, o torcedor voltará a acreditar que há um rumo certo para este time, que ele realmente pode muito mais do que tem jogado e que não são apenas os jogadores do Santos que têm um plano de carreira.

E você, acha que se deve lançar muitos Meninos nos jogos que faltam, ou é preciso ter cuidado, já que muitos ainda são inexperientes?


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