Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

film izle

Tag: Marcelo Da Viá

Festival de besteiras que assola o país na questão Neymar

Carta a Odir Cunha

Por Marcelo Da Viá

Odir, mais uma bobagem sobre a pseudo-necessidade de Neymar jogar na Europa. Além disso, agora deram para falar besteira sobre Pelé e o grande Santos dos anos 60, assunto do qual você é um dos maiores especialistas. Por que digo isso? Ontem, em sua coluna na Folha, Tostão, uma das vacas sagradas da crônica esportiva brasileira, saiu com a seguinte pérola: Pelé não “precisou” sair do Santos porque já jogava no melhor time do mundo. Raciocínio torto que, na melhor das hipóteses, só consegue ser mais um bom argumento a favor da permanência de Neymar.

Na verdade, não precisa ser um gênio para intuir (ou constatar) que foi JUSTAMENTE porque Pelé ficou que o Santos se tornou de fato o melhor time do mundo na época. E não aconteceu de uma hora para outra, como você bem sabe: por não ter uma defesa sólida e precisar amadurecer, o Santos perdeu a Taça Brasil para o Bahia e o Paulistão para o Palmeiras em 59. Aí o clube contratou Gylmar e zagueiros melhores. Ao mesmo tempo, Pelé funcionou como um imã, atraindo para a Vila alguns dos melhores jogadores (juvenis, jovens e veteranos) do Brasil, e deu no que deu. É fato, não achismo.

Se Tostão argumentasse que Neymar não é Pelé e não deve perder tempo tentando repetir essa história incrível de sucesso pessoal e coletivo, eu continuaria a discordar enfaticamente, mas pelo menos ele estaria sendo coerente.

O próprio Barcelona de hoje foi se moldando a partir do trio Messi-Iniesta-Xavi. Imagine se um deles tivesse caído fora uns dois, três anos atrás. E é bobagem atribuir ao genial (jogador, não técnico) Johan Cruijff o grande futebol que o Barça joga atualmente, no sentido de que tudo teria sido “cumulativo” etc. São os jogadores de hoje, comandados pelo ótimo Guardiola, que sobressaem, nada mais que isso. Messi e Xavi estão, respectivamente, à altura de Cruijff e Neeskens, e isso não é nada pouco. Bem, o Santos já tem Ganso e Neymar, e na flor da idade, então por que não poderia sonhar em fazer o mesmo, nos seus moldes? Tostão foi muito infeliz. Daria para elencar mais algumas contradições, mas dá preguiça. A inteligência não pode, não deve atentar contra a lógica e contra os fatos.

Um forte abraço, Marcelo Da Viá.

E pra você, Tostão pisou na bola ao fazer coro aos que pedem a saída de Neymar?

Agora, pegando o gancho da carta do Marcelo Da Viá, a quem agradeço e mando um forte abraço também, gostaria de dar uma palavrinha sobre Tostão: já disse aqui que foi um craque, um jogador inteligente, dentro e fora do campo. Porém, nunca foi um artilheiro nato e digo e repito que o Brasil seria campeão em 1970 também com Toninho Guerreiro na posição de centroavante. Toninho foi preterido a favor do grosso Dadá Maravilha, o preferido do presidente Garrastazu Médici, em gozo de seus plenos poderes dados pela ditadura militar que assolou o País. Dadá, como se esperava, passou a Copa no banco de reservas. Assim como Roberto, outro centroavante inventado por Zagalo por pertencer ao seu Botafogo. Tostão não teve nenhuma sombra. Mas, como centroavante, repito, Toninho sempre foi muito mais efetivo do que Tostão. O técnico João Saldanha, demitido antes da Copa, disse que não foi ele quem cortou Toninho e que a ordem veio de cima. Então, todos nos lembramos de Tostão na Copa de 70 e por ter liderado o ataque do Cruzeiro no título brasileiro de 1966, ao vencer o Santos na final da Taça Brasil, mas quase todos se esquecem de que este mesmo Cruzeiro jamais ganhou outro título importante e que Tostão, em toda a carreira, marcou a metade de gols de Toninho Guerreiro (292 contra 583). Toninho, que morreu aos 49 anos, fez apenas dois jogos pela Seleção Brasileira e marcou quatro gols, ou seja, tem a espantosa média de dois gols por jogo e mais espantoso ainda é o fato de jamais ter jogado novamente pela Seleção.
Então, a verdade é que mitificamos o ex-craque “que jogava sem bola” Tostão por ter dois neurônios em um meio – jogadores de futebol – no qual muitos não têm nenhum. Porém, mesmo ele, hoje comentarista, pisa feio na bola e não está com essa bola toda. Um conselho de Pelé a Neymar tem muito mais valor. Afinal, o que é a pérola de um tostão diante dos tesouros infindáveis de um Rei?


A Internet estimula o ódio entre os torcedores?

Texto de Marcelo Da Viá

Como é sabido, o Corinthians foi novamente eliminado da Taça Libertadores da América, desta vez de forma humilhante, por um time desconhecido, na fase preliminar. É certo que esta competição já se tornou para o clube um fantasma tão poderoso quanto o do antigo e longo jejum de títulos do Paulistão.

No day after, claro que já havia uma infinidade de piadas a respeito, sem falar da quantidade expressiva de rojões que pipocaram pela cidade logo que a derrota se consumou.

A pretexto de falar de mais essa eliminação do meu time, comentei com meu amigo Odir que achava que a internet havia acirrado os ânimos dos torcedores. Já há um bom tempo que penso assim. E longe de mim fazer uma crítica à internet, uma das grandes invenções da humanidade. O problema – e isso não deveria ser um problema – é que a repercussão deixou de ser monopólio dos grandes veículos de comunicação, foi se pulverizando entre os próprios torcedores, fato que deveria, sim, ser saudado, mas que, infelizmente, tem um lado sombrio.

Se hoje existe mais gente podendo se expressar sem depender da grande imprensa, o que é ótimo, muita gente também se deixou impregnar pelo ódio, que sabidamente é cego, burro, simplificador. A piada do dia seguinte às derrotas dos rivais sempre existiu, nada contra, é parte da graça do futebol. Mas algo mudou nos últimos dez anos, período no qual a internet se disseminou no país – essas derrotas passaram a ocupar um papel tão ou mais importante que as vitórias e comemorá-las virou quase uma obrigação, um exercício de sadismo a que muitos – incluindo crianças e pré-adolescentes – aderem sem nada questionar.

Sem medo de exagerar, constato que, atualmente, essa alegria pela desgraça alheia compete quase em grau de igualdade com os triunfos, e como me parece que esse fenômeno é crescente, é certo que, num futuro bem próximo, festejar derrotas tende a ser o objetivo último dos torcedores. Sempre foi assim?

Não. Tenho 44 anos, adoro futebol, sou um corintiano entusiasmado e não me lembro de sair berrando a cada gol sofrido pelo São Paulo, Palmeiras ou Santos. Pelo contrário, a depender do time, chegava a torcer por estes clubes, como foi o caso do Palmeiras de Telê Santana, no Brasileirão de 1979 – vibrei com a goleada imposta por Jorge Mendonça e Cia contra o poderoso Flamengo de Zico, em pleno Maracanã. Aliás, minto – a partir da constatação, na internet, de que meu time é nada menos que odiado pelos rivais, passei a torcer contra, como não fazia antes. A pergunta é: isso é bom?

Penso que não, que a energia gasta em secar, quando em doses exageradas, turva a alegria de simplesmente torcer a favor. E nada contra as secadinhas – é claro que se assisto a um jogo do rival na TV, principalmente contra um pequeno, me divirto em ver esse pequeno triunfar. Mas tudo tem limite, e acho que todos esses rojões, insultos, gritaria e piadinhas viraram uma grande chatice, e para mim o futebol sempre foi diversão. Esse é o ponto, o meu ponto aqui. A quase obrigação de ser mal educado, de berrar e gritar um gol apenas porque foi contra o time X ou Y, é antes de tudo aborrecido.

No caso do Corinthians, assim como acontece no Rio em relação ao Flamengo, é inquestionável que essa tendência à hostilidade é ainda maior. Como corintiano e parente (pelo lado de minha mulher) de rubro-negros fanáticos, acredito que a origem dessa má vontade tem muito que ver com o fato de que esses times possuem as maiores torcidas de suas cidades e estados. Seria um invejinha, sim. E o fato de vivermos numa era em que a TV passou a ser onipresente, transmitindo tudo que é jogo (até solteiros e casados), mas brigando pelas melhores audiências, implicou uma certa predominância das transmissões desses dois clubes, causando uma justificada irritação entre os torcedores dos demais grandes de cada cidade.

Mas isso está longe de explicar esse fenômeno recente, já que Corinthians e Flamengo há muito possuem as maiores torcidas. Aí entra a internet, o anonimato proporcionado por ela (e nada contra, se usado com honestidade), os chats, a tentação de ser agressivo e violento com impunidade, a vontade de responder a uma provocação, enfim, a forma como cada indivíduo se comporta em sociedade varia muito, e, como a grosseria tende a se destacar, é como se na internet só houvesse gente desse nível, o que sabemos que não é verdade.

O fato é que esse tipo de comportamento tem mudado até a atitude dos jogadores e dos clubes. Os nortes éticos – e por que não dizer morais – se tornaram mais “flexíveis”. Hoje um time, por maior que seja, pode entrar em campo para perder, contanto que o faça em consonância com parte da torcida, e a derrota prejudique diretamente algum rival que ainda briga pelo título. Aconteceu no ano passado e em 2009, envolvendo (e maculando) o trio de ferro da capital – Palmeiras, Corinthians e São Paulo – e, infelizmente, penso que esse comportamento tende a se tornar lugar comum. Mas pergunto: alguém aqui consegue imaginar Ademir da Guia, Pelé, Rivelino, Sócrates, Falcão, Furlan, Chicão, Pedro Rocha e tantos outros craques do passado entregando um jogo, ou “amolecendo” para estragar a festa de um rival? E quanto a Oswaldo Brandão, Minelli, Telê, Vicente Matheus, Aidar? Não mesmo. Sinal dos tempos? Não duvido que a truculência do atual “torcer contra” tem tudo a ver com isso. Fico por aqui, porque o assunto renderia – e espero que renda – um livro.

Você também acha que as torcida estão mais agressivas? O que era apenas secar o rival agora virou manifstações de ódio?


© 2017 Blog do Odir Cunha

Theme by Anders NorenUp ↑