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Tag: Mário Pereira

Ontem conversei com Mário Pereira, uma lenda santista

Os amigos e amigas devem ter estranhado a falta de respostas aos comentários deste blog ontem à tarde. É que fui a Santos conversar com Mário Pereira, 96 anos, remanescente do time campeão paulista de 1935.

Baixinho, mas habilidoso, Mário tinha 21 anos quando formou na equipe que venceu o Corinthians por 2 a 0, no Parque São Jorge, com gols de Araken Patusca e Raul Cabral Guedes.

As lembranças do velho campeão com alma de menino serão editadas para um filme histórico sobre o Santos produzido pela Canal Azul, a mesma produtora que recentemente lançou um filme do Corinthians.

Nascido em 4 de abril de 1914, apenas dois anos depois da fundação do Santos, Mário, “o perigo loiro”, foi um meia-direita tão eficiente no ataque como na defesa, que marcou 24 gols nos 41 jogos que fez pelo Santos (média admirável de 0,58 por jogo).

Marcado às vezes com violência, Mário teve a infelicidade de quebrar o joelho esquerdo em 1938, com apenas 24 anos, e ser obrigado a abandonar a carreira. “Nem me lembro quem foi. Só sei que entrou por trás e me quebrou aqui”, diz ele, mostrando a cicatriz que já tem 72 anos.

Nascido e criado em Santos, onde passou toda a vida, Mário nunca pensou em morar em outra cidade. Quanto lhe perguntei o que aconteceria se jogasse hoje e recebesse uma proposta milionária de um clube europeu, respondeu sem esperar o fim da frase:

“Não aceitaria nenhuma proposta para sair daqui. Aqui é a minha cidade, minha terra”, diz, sorrindo.

Torcedor fanático do Santos, acompanha todos os jogos do time pelo pay per view. Como fica muito nervoso, coloca as mãos e os pés em bacias d’água, para se acalmar.

Neymar e Ganso ele define da mesma forma que ao velho amigo Araken, também campeão de 1935: “São jogadores grandes, craques. Eu costumo dizer que ‘comem’ a bola.”

Voltei pra São Paulo feliz por ter conhecido e conversado com Mário Pereira, “o perigo loiro”. O Santos é o único time tradicional do país que ainda tem um jogador de seu primeiro título importante.

Acho que o filme sobre a história do Santos já começou bem.

Veja fotos de Mário Pereira aqui


Veja como o Santos ganhou seu primeiro título paulista, há 75 anos

Há exatos 75 anos, em 17 de novembro de 1935, o Santos conquistava seu primeiro título estadual. E conquistava batendo o Corinthians em pleno Parque São Jorge, por 2 a 0. Vale a pena relembrar essa façanha…

Nos dois primeiros amistosos que fez em 1935, o Santos sofreu duas derrotas: 3 a 2 para o São Paulo e 1 a 0 para a Portuguesa de Desportos, ambos na Vila Belmiro. Como o Campeonato Paulista demorava a começar, deu tempo para se redimir, com vitórias sobre Corinthians (3 a 2), São Cristóvão (2 a 1), Espanha (10 a 1)… Deu até para aceitar um convite para uma excursão ao Rio Grande do Sul, de 12 a 26 de maio, onde venceu Novo Hamburgo (4 a 2) e Riograndense (4 a 3), empatou com o Internacional (1 a 1) e perdeu para Grêmio (3 a 2) e Seleção Gaúcha (3 a 2).

Uma excursão como essa, naqueles tempos de poucas viagens, era tudo que os jogadores queriam. Só que chegaram a Santos no dia 29 de maio e descobriram que a tabela marcava para o dia 2 a estréia contra o Palestra, atual campeão paulista.

Logo de cara, um jogo decisivo, pois se o time tinha alguma pretensão de brigar pelas primeiras posições, deveria vencer o Palestra na Vila. No segundo turno o jogo seria no Parque Antártica e a dificuldade seria bem maior. Sabendo disso e lutando como nunca, o Santos venceu por 1 a 0, gol do centroavante Raul. Bastante modificado com relação à temporada anterior, o time jogou com Ciro, Neves e Badu; Figueira, Ferreira e Marteleti; Saci, Moran, Raul, Logu e Paulinho.

A vitória sobre um dos favoritos ao título animou os santistas, que em seguida venceram também o Espanha, no campo do Macuco (2 a 0), e o Paulista, da Capital, no Parque Antártica (5 a 1). No quarto jogo veio a derrota para o Corinthians, na Vila Belmiro (2 a 1), mas o time se aprumou de novo e venceu a Portuguesa Santista, na Vila Belmiro (3 a 1) e o Juventus, na Capital (4 a 1). Nesta última partida, a que encerrou o primeiro turno, o time ganhou o reforço de Araken, que voltava ao Santos.

Na estréia do segundo turno, outro confronto com o Palestra, desta vez no Parque Antártica. Jogo tenso, difícil, que terminou sem gols. Depois, uma goleada no Espanha, na Vila (4 a 1) e outra no Paulista (5 a 2), também em casa. Mas a Portuguesa Santista complicou as coisas em Ulrico Mursa (3 a 3) e o time depois teve de vencer o Juventus em nervosos 2 a 1, na Vila, para jogar pelo título e pelo empate a última partida, contra o Corinthians, no Parque São Jorge.

Finalmente, o primeiro título paulista estava bem próximo. Mas Bilu, o técnico santista, temia que a emoção traísse seus jogadores, ou que o árbitro, Heitor Marcelino Domingues, pudesse puxar a sardinha para os times da Capital. O Corinthians não tinha chance de ser campeão, mas sua vitória daria o título ao Palestra Itália, mesmo clube que venceu o Santos na Vila Belmiro, em 1927, quando o empate bastaria para que a taça ficasse em Santos.

Bilu, que jogou a decisão de 1927 como zagueiro, jamais escondeu a mágoa pela forma com que o campeonato lhe tinha sido tirado, com uma atuação parcial e cínica do árbitro Antonio Molinaro. Naquele 17 de novembro, no Parque São Jorge, finalmente Bilu teria a chance de, por linhas tortas, saborear sua vingança.

Por felicidade, Bilu pôde escalar o melhor santista para cada posição: Ciro, Neves e Agostinho; Ferreira, Marteleti e Jango; Saci, Mário Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha. A boa torcida que subiu de trem para São Paulo fez o time se sentir à vontade, mesmo no campo do rival.

Um grupo de torcedores do Santos que trabalhava na estiva do Porto, cansados de ver o time ser prejudicado pela arbitragem em jogos decisivos, levou galões de gasolina para o estádio do Corinthians. Se o Santos fosse roubado mais uma vez, prometiam colocar fogo na Fazendinha.

Mas não precisaram chegar a tal extremo. Jogando melhor, o Santos venceu por 2 a 0, com gols de Raul e Araken, um em cada tempo. O
título ficou mesmo com o melhor do campeonato. Tanto, que o Santos teve o ataque mais positivo (32 gols) e a defesa menos vazada (10).

Confira a ficha técnica do jogo que deu o primeiro título estadual ao Santos:

Corinthians 0, Santos 2
(Primeiro tempo: 1 a 0).
Campeonato Paulista (jogo que decidiu primeiro título do Santos).
17 de novembro de 1935, domingo à tarde.
Parque São Jorge
Corinthians: José, Jaú e Carlos; Brito, Brandão e Munhoz; Teixeira, Carlito, Teleco, Alberto e De Maria.
Técnico: José Foquer.
Santos: Cyro, Neves e Agostinho; Ferreira, Martelete e Jango; Sacy, Mário Pereira, Raul, Araken e Junqueira.
Técnico: Bilu.
Gols: Raul aos 36 minutos do primeiro tempo; Araken aos 17 do segundo.
Árbitro: Heitor Marcelino Domingues.
Público: 15.000 pagantes.

Quanto era proibido ao Santos ser campeão

Antes de 1935 o Santos teve um período, mais especificamente de 1927 a 1931, em que foi um dos melhores times do país e poderia, naturalmente, ter sido campeão paulista em mais de uma temporada.

Porém, vários fatores contribuiram para que isso não acontecesse. O Santos não só foi prejudicado pelo poder do futebol paulista, como pela intransigência de seus próprios dirigentes. Leia um longo artigo sobre o assunto clicando nesta página: Quando era proibido ao Santos ser campeão

Você sabia alguma coisa deste jogo e do título de 1935? Qual foi o primeiro título que você viu o Santos ganhar?


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