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Time dos Sonhos, só um

time dos sonhos - autor lendo trecho do livro para Robinho
Início de 2004, no CT Rei Pelé em obras, entrego o Time dos Sonhos e aproveito para ler um trecho para o garoto Robinho, que a partir dali citaria o livro como o seu preferido. É impossível amar o que não se conhece.

Ainda no sábado, pouco depois da final da Liga dos Campeões, teve jornalista que se precipitou ao dizer que este Barcelona é o melhor time de futebol que já existiu. Se as táticas e os métodos de treinamento evoluem, assim como os jogadores evoluem como atletas, então os últimos campeões, teoricamente, serão sempre melhores do que os anteriores. Mas esta é uma armadilha que pega quem comete o anacronismo de analisar o passado com os olhos do presente. Como arte, magia e impacto no mundo do futebol, ainda não se inventou um time superior ao Santos de 1962/63.

Nove vezes campeão consecutivamente, entre 1961 e 1963, nesse período o Santos de Gylmar, Lima, Mauro,Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval Coutinho, Pelé e Pepe acumulou dois títulos estaduais, dois nacionais, duas Libertadores e dois Mundiais, além de um Rio-São Paulo, todas conquistas oficiais, seguidas.

Mais do que os títulos, aquele time tinha dez jogadores regularmente convocados para a Seleção Brasileira. Sete deles seriam bicampeões do mundo na Copa do Chile, em 1962, e Calvet só não foi sob a alegação de que a Seleção já tinha muito santista. E isso em um país com, no mínimo, oito times grandes, bem diferente da Espanha, que só tem dois, ou, com muita boa vontade, três.

Individualmente, mesmo com Messi e Neymar, este Barcelona não pode ser comparado ao grande Santos, um time com talentos natos, todos brasileiros, não uma legião estrangeira montada com a força do dinheiro. É possível comparar Ter Stegen com o campeoníssimo Gylmar? Ou os zagueiros Piqué e Mascherano com Mauro Ramos de Oliveira e Calvet? E um ataque com Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe? E um meio-campo com Zito, titular e líder em duas Copas do Mundo e dois Mundiais Interclubes, além do clássico Mengálvio?

Vivia-se, como costuma informar Pelé, a época artística e romântica do futebol, em que um time só era conhecido no mundo todo se jogasse em todos os cantos, e assim o Santos fez, atuando em todos os continentes, das três Américas à Ásia, Europa, África, Oceania… As plateias apreciaram, in loco, o futebol encantador dos brasileiros.

Contei as histórias que compõem a saga deste time no livro Time dos Sonhos, lançado em dezembro de 2003, que teve suas três edições esgotadas. Lembro-me que fui a Santos no início de 2004 entregar exemplares a cada um dos jogadores campeões brasileiros de 2002, que seriam novamente campeões nacionais naquele ano.

Depois disso, no seu perfil no então Orkut, Robinho citava Time dos Sonhos como o seu livro preferido. Será que por isso valoriza tanto a história do Alvinegro Praiano? Provavelmente. Pois não se consegue gostar do que não se conhece, do que não se entende.

Prometi ao cantor e intérprete Zeca Baleiro, que fez de Time dos Sonhos o seu livro de cabeceira, relançar a obra logo que puder, pois ali está toda a história do time até o título brasileiro de 2002 – os bons e os maus momentos, pois também se aprende muito nas agruras, nas épocas de vacas magras, como esta que o Santos vive hoje.

Espero que os jornalistas e formadores de opinião que não tiveram a oportunidade de lê-lo, o façam desta vez. A leitura de Time dos Sonhos provavelmente evitará a heresia de se comparar uma equipe que foi o maior espetáculo da Terra, lotou os maiores estádios do planeta e chegou a interromper duas guerras na áfrica, com outra que só se apresenta nos palcos iluminados e protegidos da Europa.

E pra você, é possível comparar este Barcelona com o Santos de Pelé?


Santos contribuiu mais para a conquista da Jules Rimet

Os 5 a 0 de ontem pela melhor TV do mundo: a SantosTV:

Bastidores do “Nós contra Rapa”:


O santista Carlos Alberto Torres ergue a Jules Rimet

Participei ontem, domingo à noite, do programa Esporte Visão, da TV Brasil, e em determinado momento afirmei que o Santos foi o time que mais contribuiu para a conquista da Taça Jules Rimet. Ao que fui agressivamente contestado pelo companheiro Márcio Guedes, que participava do programa do estúdio no Rio de Janeiro.

Acho que expliquei que, somados titulares e reservas, o Santos teve mais jogadores nas três Copas que deram ao País a posse definitiva da Taça. Foram três jogadores em 1958 (Pelé, Zito e Pepe), sete em 1962 (Pelé, Zito, Pepe, Gylmar, Mauro, Mengálvio e Coutinho) e cinco em 1970 (Pelé, Clodoaldo, Carlos Alberto, Joel e Edu), completando 15. Nenhum outro time cedeu tantos jogadores. O segundo é o Botafogo, com nove, ou seis a menos.

Ouvia os convidados do Rio pelo “ponto”, aquele aparelhinho que a gente põe no ouvido. Se mais de uma pessoa fala ao mesmo tempo, você não consegue distinguir bem. Só sei que ouvi o Márcio dizer que reservas não valem, que os titulares é que jogam. Claro que concordo com essa afirmação. Percebi que ele deve ter entendido que eu disse que o Santos teve mais reservas. Se eu disse isso, me embananei, pois queria dizer que o Santos teve mais jogadores somando-se titulares e reservas.

Como o Márcio Guedes deve ter uns 413 anos de crônica esportiva e como reagiu de maneira tão confiante e até um tanto brusca, preferi não estender a discussão, até porque não há como comparar os resultados do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, por mais boa vontade que se tenha. Um foi seis vezes campeão brasileiro, duas vezes da Libertadores e duas Mundial; o outro só ganhou um brasileiro, o da Taça Brasil de 1968, direito que defendi galhardamente no Dossiê da Unificação.

Santos também teve mais titulares na Jules Rimet

A vida é um constante aprendizado e não tenho nenhum problema de aprender uma nova lição a cada dia. Assim, humildemente, ao chegar em casa, fui consultar meus livros para checar a informação que Márcio Guedes anunciou com tanta certeza. Confira junto comigo, caro leitor e cara leitora:

Copa de 1958 – O Santos colaborou com os titulares Pelé e Zito; enquanto o Botafogo cedeu Garrincha, Didi e Nilton Santos. O Santos ainda teve um reserva, Pepe, enquanto o alvinegro carioca não teve nenhum reserva.
Detalhes – Em 1958, Zagalo do Flamengo, assim como Gylmar ainda era do Corinthians e Mauro do São Paulo.

Copa de 1962 – O Alvinegro Praiano teve quatro titulares: Pelé, Gylmar, Mauro e Zito. O Botafogo, outros quatro: Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo. Entre os reservas ainda havia três santistas: Mengálvio, Coutinho e Pepe. O Botafogo tinha um reserva: Amarildo.
Detalhes – Pelé se machucou no segundo jogo e foi substituído pelo botafoguense Amarildo. Coutinho e Pepe foram inscritos na Copa como titulares, mas, devido a contusões nos últimos jogos preparatórios, Coutinho foi substituído pelo palmeirense Vavá e Pepe pelo botafoguense Zagalo.

Copa de 1970 – O Santos teve três titulares no México: Pelé, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres. E ainda mais dois reservas: Joel Camargo e Edu. O Botafogo só teve Jairzinho como titular. Roberto e Paulo Cezar Lima, ou “Caju”, foram reservas.
Detalhes – Gérson foi inscrito na Copa como jogador do São Paulo. Nas Eliminatórias, quando o time foi denominado “As Feras do Saldanha”, por ser dirigido pelo jornalista João Saldanha, o Brasil fez todos os jogos com seis titulares do Santos: Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel, Rildo, Pelé e Edu.

Portanto, em que pese a ênfase dada pelo companheiro Márcio Guedes, a realidade é que além de ter mais jogadores nas três Copas, somando-se titulares e reservas, o Santos também teve mais titulares do que o alvinegro carioca nas Copas que deram ao Brasil a Jules Rimet.

Mesmo que se divida a titularidade entre Pelé e Amarildo em 1962, o fato de ter dois titulares a mais em 1970 ainda daria ao Santos o mesmo número de titulares do que o Botafogo, com nove titulares nas três Copas. Isto sem contar os reservas, que proporcionam uma vantagem absoluta ao melhor time de todos os tempos. E ainda sem contr o time nas Eliminatórias de 1970.

E pra você, que time contribuiu mais para a conquista da Jules Rimet?


Hoje faz 47 anos que o maior jogo do mundo foi realizado

Quase perdi o maior jogo já disputado no Brasil. Como estudava pela manhã, estava dormindo quando meu pai me chamou: “Não vai ser seu time?!”. Estranho o seu Moacyr, que não ligava pra futebol (e talvez por isso se dissesse são-paulino), me despertar para assistir a uma partida do Santos. Acordei, sonolento, e fui para o sofá da sala. A imagem, linda, mesmo em branco e preto, vinha do Maracanã. Já batiam bola o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, que naquela partida, em 2 de abril de 1963, decidiriam a Taça Brasil, válida pelo título brasileiro de 1962.

Era o único acordado em casa e parecia ser o único vivo no mundo. O silencia chegava cedo naqueles lados ainda ermos da Cidade Dutra. Só a voz do locutor e a luz azulada da tevê povoavam a sala. Havia algo de mágico naquilo tudo e hoje eu sei que não era só uma impressão. Eu estava prestes a apreciar jogadores inigualáveis de uma geração iluminada, como se jogassem só pra mim..

Imagine, em uma mesma partida, os bicampeões mundiais Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Zito, Zagallo, Gylmar, Mauro, Amarildo, todos titulares na Copa do Chile, além dos reservas Mengálvio, Coutinho e Pepe. Lá ainda estavam jogadores que seriam titulares na Copa seguinte, a de 1966, casos de Manga, Rildo e Lima. Para completar, outros craques notáveis que só não se firmaram na Seleção pelo excesso de concorrentes naqueles tempos de ouro do nosso futebol, casos de Quarentinha, Calvet e Dorval.

Anos depois, a pedido do amigo Roberto Avallone, fiz uma musiquinha falando daquela noite e só me lembro dos versos: “A bola era branca, branca como o Santos, e o Santos e a bola se davam tão bem… Me fazia acordar na noite para ve-lo jogar. Me fazia acordar na noite para continuar a sonhar”.

Sim, foi como um sonho, pois naquele jogo que nunca mais se repetirá, entre duas equipes que reuniam quase 80% dos titulares da Seleção Brasileira bicampeã do mundo, o Santos realizou uma das partidas mais deslumbrantes de sua história, e ganhou por esplêndidos 5 a 0.

No primeiro tempo os gols foram de Dorval aos 24 e Pepe aos 39 minutos. Na segunda etapa, Coutinho aos 9 e Pelé aos 30 e 35 minutos completaram o marcador. Sem ter outra forma de reagir, e mostrando uma elegância que só era possível durante o curto reinado do futebol-arte, o público de 70.324 pagantes aplaudiu os santistas.

A imprensa carioca se rendeu àquele que, com aquela vitória incontestável, confirmava sua condição de campeão mundial. O jornalista Ney Bianchi, que viria a se tornar o único a conquistar três vezes o Prêmio Esso de Informação Esportiva, batizou aquele confronto de “O maior jogo do mundo” e o definiu assim na matéria de capa da revista Fatos& Fotos, uma das mais lidas do País:

O Maracanã ainda não tinha visto tamanha exibição de futebol-arte até quando, terça-feira, o Santos provou ser o maior time do mundo, aniquilando, por 5×0, o Botafogo, com Pelé abusando da condição de gênio. Houve de tudo. Principalmente: 1. O Botafogo, glorioso dias antes, passando ao papel de vítima; 2. A estratégia de Lula anulando a de Marinho, que retirou Zagallo, afastou Nilton Santos da área e abandonou Garrincha; 3. cada um dos gols sendo uma obra-prima; 4. Manga devorando um “frango” servido por Pepe; 5. A torcida (caso único na América do Sul) esquecendo a partida para aplaudir o melhor; 6. O Botafogo, que costuma ferir com “olé”, com “olé” sendo ferido. É preciso repetir que jamais o Maracanã viu espetáculo igual. Foi tão perfeita a exibição que, ao terminar, a partida pareceu a todos a mais curta da história do futebol.

Decisão da Taça Brasil de 1962

02/04/1963

Botafogo 0, Santos 5, Maracanã, Rio de Janeiro

Botafogo: Manga, Rildo (Joel), Zé Maria, Nilton Santos (Jadir) e Ivan; Ayrton e Édison; Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Técnico: Marinho Rodrigues.

Santos: Gilmar, Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho (Tite), Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Gols: Dorval aos 24 e Pepe aos 39 minutos do primeiro tempo; Coutinho aos 9, Pelé aos 30 e aos 35 minutos do segundo tempo.

Árbitro: Eunápio de Queiroz.

Público: 70.324.

Como campeão da Taça Brasil, o Santos se classificou para a Taça Libertadores da América de 1963. Porém, como foi campeão da Libertadores em 1962 e com isso garantiu vaga na edição seguinte, o Botafogo, vice-campeão da Taça Brasil de 1962, ganhou o direito de ser o segundo representante brasileiro na Libertadores de 1963 (que também seria vencida pelo santos, depois de derrotar o Botafogo, na semifinal, novamente no Maracanã, por 4 as 0).

Neste post trago as imagens históricas da cobertura deste jogo pela concorrida revista Fatos & Fotos. O consagrado jornalista Ney Bianchi atuava na imprensa carioca. Portanto, não tinha qualquer interesse em enaltecer uma equipe de São Paulo. Seu texto está livre do bairrismo e do passionalismo que tanto turvam as opiniões dos cronistas de hoje.

E você, querido leitor e leitora, acha que ainda veremos um jogo como este Botafogo e Santos, decidindo a Taça Brasil de 1962, ou aqueles tempos nunca mais voltarão?


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