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Da Olimpíada de Inverno à decadência do futebol de clube brasileiro

Por Tana Blaze, da Alemanha

1 – Rejeição popular nos países alpinos ao COI e o legado de Ricardo Teixeira

Munique, a capital da Baviera, junto com três outros municípios bávaros na região dos Alpes pretendia candidatar-se novamente para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, tendo ótimas chances de ser escolhida. Munique seria a primeira cidade do mundo a ter sediado jogos olímpicos de verão (1972) e de inverno (2022), um efeito de imagem espetacular. Tanto o prefeito de Munique, reeleito ao cargo durante 20 anos seguidos, como personalidades esportivas estavam eufóricas e otimistas, apoiando o projeto. Dinheiro não teria sido problema.

Mesmo assim haviam surgido movimentos de oposição na população contra a candidatura olímpica, o que levou o governo da Baviera a realizar um plebiscito em 10 de novembro de 2013 nos quatro municípios em questão. A derrota da candidatura olímpica em cada um dos quatro municípios foi surpreendente num país que tem uma tradição olímpica e de medalhas muito forte.

Foram varias as razões para a rejeição, uma delas a imagem negativa do COI-Comitê Olímpico Internacional, com uma historia de corrupção, também por parte dos delegados de outros países, considerados indesejados, exigindo investimentos milionários das cidades anfitriãs e impondo contratos que beneficiam primordialmente os patrocinadores. Tudo isto irrita os cidadãos, mesmo havendo dinheiro publico suficiente para organizar os jogos nestas condições.

Já anteriormente em março de 2013 os eleitores do Cantão de Grisões (St. Moritz e Davos) na Suíça e da capital austríaca Viena haviam vetado em plebiscitos respectivamente as candidaturas para dos jogos olímpicos de inverno de 2022 e de verão de 2028.

Embora a FIFA não tenha nada a ver com jogos olímpicos, curiosamente na analise da imprensa alemã sobre o veto dos cidadãos à candidatura de Munique, o nome dela apareceu em alguns artigos ao lado do COI. A população parece associar a historia de corrupção nas duas entidades e as escolhas muito patrulhadas de Sochi e Catar em boa parte por razões alheias ao esporte, que sediarão olimpíadas de inverno e uma copa do mundo.

A reputação da FIFA foi arruinada principalmente por dois brasileiros, o presidente Havelange e o membro do Comitê Executivo até março de 2012, seu genro Ricardo Teixeira, quando no tramite da insolvência da ISL- International Sport and Leisures foi desvendado que Havelange e Teixeira tinham auferido para os seus bolsos propinas num total de vários milhões de Francos Suíços.

O nome de Ricardo Teixeira saiu inúmeras vezes em jornais europeus nos últimos anos quase sempre associado a desmandos. Escrevia o prestigioso Süddeutsche Zeitung alemão em 9 de agosto de 2011: ”Funcionário da FIFA Ricardo Teixeira intocável, autoconfiante, corrupto“, “Metade do lucro é seu, perdas estão a cargo da CBF…” e “Dez anos atrás, o relatório de 1129 paginas da ultima investigação da Câmara de Deputados e do Senado, atestou ser a CBF de Teixeira um lugar criminoso, onde dominam a anarquia, a incompetência e desonestidade. Ao funcionário mafioso Teixeira foram dedicadas 536 páginas com dúzias de desmandos, desde a falsificação de contratos até a especulação cambial com dinheiro da CBF, cujos lucros ele próprio tinha embolsado.”

O igualmente prestigioso The Times inglês num artigo sobre a FIFA de 15 de julho de 2012: “He (Havelange) and his former son-in-law, Ricardo Teixeira, exploited their powerful positions in world football to benefit from mammoth bribes” (beneficiaram de subornos-mamute).

O Le Figaro francês define: “le football brésilien, structurellement gangréné par la violence des supporteurs et la corruption de ses dirigeants.“ (18/6/2013). Como se constata, as federações brasileiras estão fazendo o que podem para contribuir para a imagem do Brasil no mundo.

Com o pagamento de uma multa de 2,5 milhões de francos Ricardo Teixeira escapou de um processo na Suíça (The Telegraph 12/07/ 2012) e se tiver sido culpado apenas de uma fração dos desmandos que lhe foram imputados ao longo de três décadas, restaria questionar porque no Brasil todos os processos contra ele foram trancados ou arquivados, como pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região no Rio de Janeiro em Março de 2012, e porque nenhum juiz tentou evitar a sua saída do Brasil, fato que inevitavelmente suscita especulações.

Uma das especulações seria que Ricardo Teixeira permaneceu imune, para que os direitos de imagem do Brasileirão fossem vendidos para a Globo, passo fundamental para promover a distribuição arbitraria de centenas de milhões de reais televisivos.

As anomalias na distribuição do dinheiro dos patrocínios pela Globo parecem não se limitar apenas à espanholização favorecendo o Flamengo e Corinthians. Tome-se como exemplo o Botafogo, que no seu balanço de 31 de dezembro de 2012 mostra um patrimônio liquido de 574 milhões de reais negativos financiados por 401 milhões de reais de adiantamentos de receitas televisivas. Se tomássemos como base a receita televisiva de 48 milhões de reais auferida em 2012, o Fogão teria torrado a sua receita televisiva de oito anos vindouros e teria que sobreviver nos próximos anos essencialmente das bilheterias de jogos, como o da 2° rodada contra o Santos em Volta Redonda com 1.186 pagantes. Não consta se por detrás da Globo há um avalista da dívida botafoguense, mas é evidente que a dívida terá que ser perdoada ao Botafogo, não havendo possibilidade sequer de pagar juros de mercado sobre ela. O não pagamento de juros significaria uma subvenção anual suplementar de no mínimo de 30 milhões de reais anuais.

Tome-se o Flamengo que em 31 de dezembro 2012 mostra no seu exigível receitas a realizar totalizando 839 milhões de reais. A nota explicativa não está disponível, mas é provável que o grosso sejam adiantamentos de receitas televisivas dos anos futuros por parte da Globo. Se fossem imputadas taxas de mercado sobre o seu exigível superior a um bilhão, o Fla teria que pagar juros anuais de 100 milhões de reais. Quem paga? Quem perdoa? À custa de quem?

Parece provável que clubes paulistas, gaúchos e mineiros verão minoradas as suas receitas televisivas no futuro em relação ao que seria possível, para que a Globo possa compensar o risco dos adiantamentos-mamute concedidos aos clubes cariocas, perdoando dividas, facilitando nos juros ou por outros favorecimentos.

A estratégia da Globo parece ser enriquecer dois clubes para a espanholização, salvar os clubes cariocas completamente falidos, e manter a maioria dos outros clubes bem mais eficientes na UTI para que dependam de seus adiantamentos e não tenham força de se desatar dos contratos longos e fundar uma liga soberana e independente. Como veremos, a vitima deste sistema é a qualidade do futebol de clube brasileiro.

2 – Os desmandos e as irregularidades da CBF, FPF e do STJD

Não chega ser surpresa ver o que acontece no dia a dia nas Federações, que foram durante 23 anos a escola do Ricardo Teixeira. Na memória recente santista, os desmandos e irregularidades das federações foram quase cotidianas.

Seja convocando jogadores santistas em partidas de campeonato e poupando os de outros times, como o Paulinho do Corinthians. O Sr Marco Polo del Nero não impediu que o Santos, um clube a ele federado, fosse obrigado a jogar contra o Palmeiras no Brasileirão no dia 10 de julho de 2011 sem 6 jogadores convocados, Neymar, Ganso e Elano, para a Copa America e Danilo, Alex Sandro e Alan Patrick para o Mundial Sub-20, contra o e perdesse consequentemente por 3×0. Este jogo foi apenas um entre vários, algo inconcebível e com consequências legais na Europa.

Seja permitindo em abril de 2012 a antecipação relâmpago do jogo pela Libertadores contra o Bolívar em La Paz para 4 dias antes de um clássico mata-mata para cansar o Santos a 3800 metros de altura e com dois dias de viagem e ao mesmo tempo descansar o São Paulo, permitindo a anulação do jogo do São Paulo 4 dias antes do dito clássico, num campo em que a chuva havia parado 40 minutos antes do inicio da partida e os rodos estavam escondidos, o pessoal se recusando a enxugar o campo, conforme relatou o observador da FPF José de Assis Aragão. Mas as poças de agua devidamente fotografadas e as federações não exigiram jogar a partida em 24 horas, como prevê o regulamento. Esta coincidência incrível de inciativas ou omissões das Federações ficará nos anais esportivos, também porque o Santos acabou goleando o São Paulo. A bola puniu.

Seja não permitindo o convidado Santos a jogar a Copa Audi do Bayern, mas depois deixando o São Paulo. Seja marcando dois jogos do Santos da Copinha e no Paulista no mesmo horário. Seja tentando banir a torcida do Santos na final da Copinha de 2014 ao Tobogã. Não sabemos se foi irregularidade, mas calculem a probabilidade para que o campeão da Copa Brasil Sub-20, o Santos, e o vice Criciúma, entre 104 times sorteados para 26 (!) grupos, parem no mesmo grupo. Sabendo-se que um só time poderia avançar, estando assim decretado que um dois favoritos ao titulo fosse eliminado no inicio da competição.

Neste contexto também não é surpresa ver os auditores STJD achando que o regulamento de uma entidade brasileira de direito privado, como o da CBF, não estaria sujeito às leis brasileiras e à constituição brasileira. Uma Lei Federal em vigor há 10 anos exigindo explicitamente a publicidade para as punições da justiça desportiva não se aplicaria ao tribunal deles e ao regulamento da CBF.

Não poucas viradas de mesa do STJD e de seus órgãos precursores foram baseadas na retirada ou não de pontos ou anulação ou não de resultados. Retiram-se pontos que não prejudicam um São Paulo, como no caso Sandro Hiroshi, para salvar um Botafogo do descenso. Retiram-se pontos da Portuguesa e para manter as aparências também do Flamengo, algo que não prejudica o clube da Gávea, para salvar o Fluminense. Rebaixar mais de um clube carioca além do Vasco, algo que não pode acontecer. Aliás, salvo de forma irregular na Séria A pela terceira vez.

O advogado que defendeu o Gama em 1999, Paulo Goyaz, indicou como fator decisivo para a vitória do Gama contra a CBF e o STJD na Justiça Comum, a tirada do processo do Rio de Janeiro: “a CBF sempre costuma tentar decidir suas questões jurídicas em tribunais do Rio de Janeiro. Com o Gama, chegou a conseguir, por meio do Botafogo, derrubar liminar do clube no judiciário carioca. ”Houve um conflito de competência e o STJ acabou definindo que o tribunal do Distrito Federal é que tinha competência, assim a CBF perdeu.” (UOL,29 /12/2013).

3 – A confusão dos campos e os julgamentos dos STJD

Podemos considerar que a Portuguesa foi o time mais prejudicado quanto aos impedimentos, porque existe uma pesquisa abrangente baseada nos 380 jogos do campeonato, que mostra que em termos de impedimentos mal marcados no Brasileirão de 2013 o Corinthians foi o mais beneficiado e a Portuguesa a mais prejudicada. Especificamente a defesa do Corinthians foi beneficiada por 19 impedimentos adversários marcados de forma errada e a da Portuguesa por apenas 8. Ao mesmo tempo 15 ataques da Portuguesa foram interrompidos pela marcação equivocada de impedimento, sendo o ataque do Corinthians foi prejudicado apenas 9 vezes. (Globo, 21/12/2013).

Ao todo 10 ações de ofensa ou desrespeito de jogadores contra juízes, incluindo a do Héverton, foram registradas nos relatos oficiais dos 380 jogos do Brasileirão de 2013. Destas, o STJD absolveu ou advertiu cinco jogadores sem qualquer suspensão puniu um jogador com suspensão de uma partida e puniu quatro jogadores com suspensão de dois jogos (Willie do Vasco, Felipe Jorge do Flu, Gilberto e Héverton da Lusa).

O jogador Héverton, foi punido com dois jogos porque contra o Bahia se dirigiu ao arbitro dizendo: “porra, caral…, você é um merda, está com medo dos caras! Só isso de acréscimo?” Em comparação, um dos jogadores apenas advertido sem ser suspenso, o Willians do Internacional, após ter recebido cartão amarelo no jogo contra o Santos, atingiu um adversário com carrinho, matando um ataque promissor. Vendo o cartão vermelho disse ao arbitro: “vai tomar no seu c…”.

Conclui-se que para o STJD mandar um arbitro “tomar no c…” não é ofensa para suspensão, apenas para advertência, mas achar que o arbitro “é um merda” leva a suspensão de dois jogos. Se fosse confrontando com a comparação destes dois julgamentos, o STJD iria justificá-los com os seus chavões sem nexo, como o da “comparação descontextualizada”.

Então injustiças berrantes do STJD a todos os níveis. O Flu e o Cruzeiro escalam jogadores impedidos em jogos que valem pontos e um titulo de campeão e seus pontos são mantidos. Mas a Portuguesa escala um jogador impedido num jogo que nada valia e pontos são tirados para que seja rebaixada.

4 – Como o sistema da Globo e as injustiças esportivas debilitam o futebol de clube brasileiro

Voltando do picadinho ao macroeconômico, exemplificaríamos que a força econômica dos Estados Unidos está para a do Brasil, como a do futebol de clube europeu está para o futebol de clube brasileiro. O que separou os Estados Unidos e o futebol de clube europeu do Brasil foi primordialmente a justiça, na qual os irmãos do norte tendem a confiar, apesar de muitas deficiências e erros. Uma justiça forte que ao longo das décadas garantiu que os melhores e mais eficientes se impusessem dentro das normas da lei e servissem de motor e exemplo para o progresso, sendo a falência e o descenso dos ineficientes aceita como fato saneador.

Foram lendárias as batalhas dos Estados Unidos contra os trustes, desde o desmantelamento da Standard Oil até as imposições à Microsoft de para que browsers e outros aplicativos de empresas concorrentes pudessem sem rodados na sua plataforma. Quem no rastro do episodio Netscape viu o homem mais rico do mundo, Bill Gates, entrando nos tribunais como capitalista feroz, para finalmente sair dos tribunais gaguejando, com a sua plataforma aberta e como maior filantropo da atualidade, tem ideia do que é uma justiça potente.

Enquanto que alhures se detonam trustes, no futebol brasileiro segundo a opinião de muitos, se implantou o truste da Globo que concentra numa só mão o poder esportivo, o dinheiro e a (in) justiça desportiva. A CBF teria passado a funcionar como mero departamento da Globo, o que o grande jogador Alex definiu da seguinte forma: “A CBF cuida apenas da Seleção Brasileira. Quem realmente cuida do futebol brasileiro é a Globo”(Lancenet 9/8/2013).

A recente iniciativa da CBF para obter a promessa dos clubes de não irem à justiça comum, foi justificada pelo presidente do Atlético Mineiro Alexandre Kalil com “tem muito dinheiro envolvido… Daqui para frente, os 20 clubes não aceitarão demanda de torcida… temos um contrato a cumprir. Não falo de contratinho, é na casa do bilhão“ (Lancenet 06/02/2014). Trocado em miúdos, o clubes teriam obedecido, temendo por suas receitas televisivas (interpretação que os presidentes evidentemente vão negar). Renuncia-se ao direito de qualquer cidadão brasileiro de recorrer à justiça comum para não ser lesado na distribuição do dinheiro televisivo. Cheira a abuso de truste.

Ninguém controla quanto a Globo aufere em publicidade do futebol ou qual a porcentagem que ela repassa aos clubes. O faturamento televisivo dos grandes brasileiros é baixo quando comparado com a Premier League, a Bundesliga e a NFL (futebol americano, anualmente 11 bilhões de dólares anuais).

A distribuição ocorre de forma arbitraria de acordo com o que a Globo considera ser o tamanho da torcida. Cria-se uma situação estática, com clubes de torcida supostamente grande sendo privilegiados nas transmissões ao vivo o que por sua vez é gera mais torcida, não havendo qualquer premiação da eficiência esportiva. Para dos clubes privilegiados não há necessidade de melhorias, porque o dinheiro televisivo e os favorecimentos das entidades esportivas são garantidos. Neste sistema a decadência da competitividade do futebol é certa. Não se impõe os melhores, mas os protegidos. O conta-gotas de favorecimentos, acumulados ao longo dos anos, solapa a qualidade do futebol de clubes e torna imensa a distancia para o hemisfério norte.

A eficiência em termos de custos-benefícios da Portuguesa no Brasileirão de 2103, que apesar do apito pouco favorável, conquistou o oitavo lugar por saldo de gols, não é premiada, é punida, o clube já perdeu alguns de seus melhores jogadores.

A fraqueza do futebol de clube no Brasil ficou escancarada nos três últimos confrontos entre os campeões brasileiros e africanos, nos quais os clubes brasileiros foram amplamente dominados. O Corinthians sufocado durante todo o segundo tempo, venceu a partida contra o Al Ahly por sorte. O Internacional e o Atlético Mineiro perderam feio para o Mazembe e Raja Casablanca.

Torna-se evidente a débâcle esportiva do sistema da Globo, com o estado atual do Corinthians, privilegiado também pelos milhões da Caixa Econômica. O time oscilou na zona descenso do Brasileirão de 2013. Nos 38 jogos do Brasileirão de 2013 obteve doze empates de 0x0 e doze resultados de 1×0 ou 0x1. Agora se mostra como um dos piores entre 18 times do Paulista.

Os estádios estão vazios, torcedores temendo as organizadas. As audiências televisivas caindo. Com a tirada de pontos da Portuguesa dezenas de internautas de nível cancelaram o pay per view. Está se promovendo a miserabilização do futebol de clube brasileiro.

5 – Uma separação de poderes necessária para ressuscitar o futebol de clube

Será que os grandes clubes brasileiros não privilegiados querem mesmo ficar levando desvantagem neste sistema? E eventualmente ficarem através de receitas reduzidas financiando a falência de outros clubes? Parecem não saber que nas federações de direito privado, como as estaduais e a CBF, quem manda são os clubes federados e não o inverso. Um mal-entendido que possivelmente se deve ao fato que nas federações estaduais os presidentes são eleitos por uma maioria de clubes pequenos, que em numero superam os grandes. E na CBF as federações estaduais superam os grandes clubes, configuração que deixa os clubes grandes sempre em minoria e dá poder irrestrito às federações.

Mas se os grandes clubes quisessem, poderiam fundar uma nova federação independente e soberana, na qual eles mandam, com uma distribuição transparente dos milhões de publicidade e com sede numa das muitas cidades com justiça mais confiável, como por exemplo, Curitiba. Senão uma nova federação, pelo menos uma liga de clubes de primeira e segunda divisão que decidiria a venda e repartição dos direitos de imagem na base de critérios pré-estabelecidos.

Seria importante uma justiça esportiva independente das Federações e Ligas, com redução do numero de julgamentos através do aumento de punições automáticas e redução da possibilidade de efeitos suspensivos. Julgamentos ocorreriam apenas se houver contestação da sumula das partidas com base em provas vídeo ou testemunhas ou por inciativa da promotoria nos casos de transgressões graves, justificando penas maiores que o padrão. Regulamento de futebol deveria ser como regulamento de transito, as punições deveriam constar em tabela, nas quais poderiam ser diferenciadas por tipo. Gestos obscenos, insulto, cada tipo de ofensa levando a uma punição padrão. Não haveria necessidade de contextualizações por parte de auditores numa primeira instancia.

Os atuais presidentes de clubes, muitos responsáveis pela destruição do Clube do Treze e eventualmente envolvidos com o sistema atual, devem ser empecilhos para a formação de uma nova liga. Por esta razão quaisquer estudos deveriam ser iniciados por grupos externos à administração dos clubes em contato direto com as grandes ligas americanas e europeias e com as redes televisivas. A Globo poderá até ganhar por licitação, mas segundo as regras da nova liga.

Se o sistema não for reformado, o futebol de clube brasileiro continuará minado pela distribuição arbitraria e intransparente de milhões televisivos para o ralo da ineficiência e debilitado por injustiças das suas federações, cujo odor continuará exalando através de seus funcionários e aos plebiscitos nos Alpes.

A cidade do futebol

odir
José Luis e seu pai, Eladio, do “Pepe & Sale”: amor pelo Santos que veio de longe (Foto: Marcos Vasconcelos).

Um primo do Carlinhos chegou à padaria e, depois de conversar um pouco com ele, veio me pedir o número da conta do Dorval. Não tinha comigo e pedi para ele entrar no meu blog e procurar logo na primeira página. Agora repito aqui, para facilitar:

Dorval Rodrigues. Banco: Bradesco. Agência: 0093-0. Conta: 0091840-7. CPF: 130371068-40.

Pouco depois o Carlinhos passou pela mesa que eu dividia com a Suzana para avisar que ele e o primo iriam depositar um determinado valor para engrossar o presente do Dorval, que no dia 26 faz 79 anos. Ele nem precisava, pois no sábado que vem vai fazer uma festa para o ataque dos sonhos – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe – com venda de camisetas em benefício de uma entidade beneficente. E ainda este mês fará outra festa para festejar o aniversário dos ídolos aniversariantes do mês.

Carlinhos é o diretor de relações públicas que o Santos não tem, é o símbolo da generosidade santista, alguém que faz as coisas por amor ao time, sua paixão desde pequenininho. Sua preferência certamente afasta da Padaria A Santista torcedores de outros clubes, mas ele não se importa: ali é um ponto de encontro de “escolhidos”. Fim de papo.

Que outro bar do Brasil pode reunir, na mesma mesa, jogadores do quilate de Coutinho, Edu, Joel Camargo, Clodoaldo? Seria o mesmo que, em um bar da Alemanha, Beckenbauer, Uwe Seeler, Breitner e Overath se reunirem para tomar umas cervejas e lembrar histórias saborosas de um tempo em que a bola era tratada com muito mais carinho.

Santos está repleta de lugares que cultuam o Time dos Sonhos. Saindo da “padaria do Carlinhos”, na rua Epitácio Pessoa, 312, canal 5, fui com a Suzana para o Centro Santista de Tênis, na rua Dr. Armando Sales de Oliveira, 195, no Boqueirão, e bem em frente às quadras encontramos o “Sale & Pepe”, um restaurante e pizzaria que chama a atenção pela decoração totalmente voltada para o nosso time. Quadros, uma camisa autografada por Pelé e até uma bela prancha com o símbolo do Santos decoram o salão.

Quis conhecer o proprietário e dar-lhe um Dossiê de presente. Soube que o responsável pela decoração é José Luis Balboa, mas quem semeou o amor pelo Santos na família foi seu pai, Eladio Balboa, um espanhol que desembarcou em Santos em 15 de outubro de 1955, dia em que o Santos pré-Pelé fez um grande exibição pelo Torneio Rio-São Paulo e encantou definitivamente o imigrante recém-chegado.

Seu Eladio estava no Pacaembu quando o Santos venceu ao Palmeiras por 7 a 6, no jogo em que, segundo ele, era a despedida do palmeirense Mazzola do Brasil, pois iria para a Itália. Viu muito jogador bom e diz que precisa só de 20 minutos de observação para dizer se um jovem jogará bem. Geuvânio, por exemplo, ele diz que será bom. Também acha que Leandro Damião vai vingar no Santos.

Para seu Eladio, quem não sabe bater de trivela, não será um bom jogador, pois sem usar efeitos é difícil acertar alguns passes. Concordo plenamente com ele. Será que não ensinam mais efeitos nas escolinhas? Na várzea, todo mundo sabia bater com efeito, que a gente chamava de “rosca”, ou “biscoito”.

Quem dará o primeiro passo?

Olho Santos do alto de um edifício à beira-mar. Vejo a praia repleta, no fim da tarde de sábado, tomada por campos de futebol. Sei que lá, assim como nas ruas, espremidas no fundo das valas entre os prédios, imperam as camisas do Alvinegro Praiano, a paixão de mais da metade das 400 mil pessoas que moram na maior cidade litorânea do Brasil que não é capital.

Lembro-me de que a cidade do Porto tem menos habitantes do que Santos, mas mantém a média de 30 mil pessoas a cada jogo do Porto. Se Santos tivesse ao menos 15 mil espectadores de média, na Vila Belmiro, teria muito mais possibilidades de mercado. Fico pensando o que seria preciso para se atingir isso.

Ingressos mais baratos, promoções, bilheterias para o jogo instaladas na praia, ônibus das cidades vizinhas direto para a Vila Belmiro, ônibus de São Paulo saindo pela manhã, com lanche a bordo e direito à visita ao Memorial das Conquistas, ou almoço com os ídolos, ou direito a um brinde, ou… Sei lá quantas coisas podem ser feitas, o que não é possível é não fazer nada para levar o santista à Vila Belmiro.

Carlinhos acha que com o rodízio maior entre Pacaembu e Vila Belmiro, o público da Vila vai aumentar, pois “o torcedor não aguenta pagar 40 reais por semana”. E sugere que o Santos faça eventos em cada cidade do Interior em que for jogar. A ideia é antiga, mas ainda não saiu do papel. Está na hora de se dar o primeiro passo.

Fico imaginando se, assim como a Flórida é o paraíso das academias de tênis, a ponto de atrair jovens de todo o mundo, a Baixada Santista, a partir do próprio Santos, não poderia ser o maior reduto de ensino de futebol no mundo. Mestres não faltam e apaixonados por futebol também não. Falta apenas alguém, ou uma empresa de visão, para iniciar a caminhada.

E para você, o que Santos deve fazer para se tornar a cidade do futebol?


O jogo mais emocionante da história!

Um dia desses um leitor me perguntou se eu tinha recortes da época sobre o lendário Santos 7, Palmeiras, 6, pelo Torneio Rio-São Paulo de 1958, no Pacaembu. Eu devia estar correndo, ou distraído, e disse que não. Mas fiquei com aquilo na cabeça. Claro que tenho! Mais do que isso: há este filme sobre o jogo feito pelo programa Esporte Espetacular, da TV Globo.

As imagens são raríssimas, descobertas por acaso por Anibal Massaini, diretor e produtor do filme Pelé Eterno. Santos e Palmeiras eramos melhores times de São Paulo. O Santos venceu o primeiro tempo por 5 a 2, o Palmeiras virou na segunda etapa para 6 a 5, mas nos últimos minutos Pepe marcou dois gols e deu a vitória ao Santos.

Os jornais noticiaram que cinco pessoas morreram de ataque cardíaco assistindo ao jogo no Pacaembu ou ouvindo pelo rádio. Ao voltar para casa, já de madrugada, no bonde que ia de Santos para São Vicente, um fã perguntou a Pepe quanto tinha sido o jogo. O ponta disse o placar e o rapaz xingou, pensando que Pepe estivesse brincando.

E você, qual o jogo mais emocionante que assistiu?


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