Blog do Odir Cunha

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Tag: Mérito esportivo

Dar dinheiro público para estádio corintiano é burlar regras do jogo


Políticos e cartolas fazem média com a torcida corintiana, mas a maioria dos eleitores é contra.

A essência do esporte competitivo, como o nome já diz, é a competição. Times devem competir, seguindo as regras e a ética, por vitórias e títulos que lhes darão prestígio e riqueza. Qualquer outro fator que leve ao sucesso de uma equipe sem passar pelo campo de jogo é uma trapaça com o espírito do esporte.

Estádios sempre foram sonhos que, para serem concretizados, envolviam o esforço de toda a comunidade ligada ao clube. Foi assim que o valente Vasco ergueu São Januário no distante 1927 e que a Portuguesa construiu o seu Canindé. Lançavam-se campanhas “do cimento”, “do tijolo”, e assim, aos poucos, os aficionados viam surgir o resultado de seu orgulho.

Decisão é injusta, anti-desportiva e anti-democrática

A isenção de impostos, a doação de dinheiro público ao estádio corintiano é uma amoralidade que burla, flagrantemente, as regras do esporte. É uma decisão que não está embasada na justiça, no mérito esportivo e nem na democracia. É uma determinação imposta por poderes superiores que visa, claramente, beneficiar, por motivos políticos, o time tido como o mais popular de São Paulo.

Não é justa porque nenhum outro clube, antes, no Brasil, foi agraciado com tantas vantagens para construir o seu estádio. Algumas agremiações, como o São Paulo, tiveram de amargar longos anos de derrotas a fim de economizar dinheiro para erguer o seu. Outras, mesmo também muito populares, jamais receberam esse dinheirão do governo para ter uma casa maior.

No caso do São Paulo, que também não é o ideal, pois tudo indica que o clube recebeu a doação do terreno do governo do Estado, ao menos o tricolor teve de passar 13 longos anos dirigindo todos os esforços para a construção do estádio, período em que se tornou um saco de pancadas dos rivais. Nem esse incomodo terá o alvinegro da capital, que em dois anos receberá seu presente embalado, pronto para usar.

Não há, também, qualquer mérito esportivo nessa milionária doação (deixar de arrecadar é o mesmo que dar), pois o Corinthians está longe de ter conseguido, em seus 100 anos e meio de existência, as mesmas conquistas do que rivais até bem mais jovens. Não se está premiando, assim, o melhor, mas sim o que tem mais eleitores. Ou seja, trata-se de uma medida odiosamente populista.

Se o critério fosse cívico – o que combinaria mais com o uso do dinheiro público – e se, por exemplo, se decidisse que o clube que ganharia tanto dinheiro e facilidades para construir um estádio para a Copa, seria aquele que mais contribuiu para a projeção do futebol brasileiro no exterior, ainda haveria alguma lógica.

Mas preterir um clube e escolher outro apenas porque este é mais popular e porque, no momento, tem melhores relações com o poder político que governa o País, chega a ser indecente, pois gera uma situação que fere o espírito esportivo e provoca um rancor natural e duradouro nos demais.

Por fim, é ditatorial porque impõe um ônus enorme ao contribuinte sem consultá-lo. Mesmo que todos os corintianos da cidade aprovem a idéia – mesmo que considerem que um estádio para a Copa é mais importante do que usar esse dinheiro em saneamento básico, escolas e hospitais – eles não representam 40% dos habitantes de São Paulo. Portanto, a maioria dos paulistanos está sendo contrariada.

Mais do que contrariada, está sendo obrigado a pagar pela construção de um estádio que incrementará enormemente o patrimônio e o faturamento do rival. Sim, porque quando os outros clubes forem jogar lá, terão de pagar alugueis e taxas ao proprietário. Ou seja, santistas, palmeirenses e são-paulinos serão obrigados a bancar a maior parte da construção de um estádio que depois cobrará de seus clubes.

Este estádio será um monumento a uma nova ditadura

Quando foi conveniente, Lula e os dirigentes que hoje comandam o País demonizaram a ditadura militar. E foi fácil, porque não há mesmo quem possa concordar com um regime político que não esteja baseado na democracia. Hoje, porém, agem de forma ditatorial para atingir seus objetivos. Este caso do estádio corintiano é um exemplo. Até pressão e ameaças de agressão física têm acontecido.

Enquanto a Câmara Municipal se reunia para votar a isenção ou não de impostos para a construção do estádio, torcedores organizados cercavam o edifício público e, aos berros, ameaçavam os vereadores. Quantos votos não foram determinados por esta coação?

Não creio que uma Copa, com duração de apenas um mês, mereça tanto investimento de um país que ainda tem tanta coisa a resolver. O mundo já tem uma opinião formada do Brasil – que, felizmente, tem melhorado a cada dia –, não será uma Copa que mudará isso.

Não creio também que o Mundial de 2014 vá mudar muito o panorama do futebol brasileiro, que continua sendo um fornecedor de mão de obra barata e talentosa para a o exterior, principalmente para a Europa, sem que haja um movimento – das autoridades e da opinião pública – para mudar isso.

Por fim, já que decidiram, inexplicavelmente, não reformar o Morumbi e o Pacaembu, o que seria mais racional e viável, que fizessem um estádio público, sem privilégios a clube algum. Do jeito que o negócio está sendo encaminhado, perpetua-se uma trapaça histórica contra as regras do jogo. Isso gerará um dívida moral que, mais dia, menos dia, será cobrada.

E você, o que acha da doação de dinheiro público para a construção do estádio corintiano?


Cotas de tevê: Minha proposta para uma fórmula boa para todos

Para a Globo, vale a pena pagar bem mais para Corinthians e Flamengo, pois são os times que dão maior audiência na tevê. Para a Record, vale a fórmula que já existe, com cinco clubes ganhando mais e o Santos logo abaixo.

As duas emissoras devem pagar ao Santos o equivalente a R$ 70 milhões por ano, mas a diferença é que o esquema da Globo criará um desequilíbrio que, a médio prazo, tornará Flamengo e Corinthians bem mais poderosos do que os demais, prejudicando a competitividade do Campeonato Brasileiro.

A Globo sugere uma estrutura com Corinthians e Flamengo no topo e um grupo de quatro times logo abaixo: Santos, São Paulo, Palmeiras e Vasco. Os do segundo escalação receberiam cerca de R$ 70 milhões cada, enquanto Flamengo e Corinthians teriam, no mínimo, uma verba de R$ 100 milhões.

É só somar as outras vantagens que um clube de grande torcida tem no Brasil – patrocínio, merchandising, marketing, bilheteria, visibilidade, possibilidade de adquirir mais sócios… – e fica fácil constatar que essa diferença enorme nos direitos de tevê será multiplicada por outros fatores e farão com que Flamengo e Corinthians passem a faturar, por ano, cerca de R$ 100 milhões a mais do que seus adversários, tornando a concorrência desigual.

E estamos falando só de cifras, sem levar em conta o que é mais importante no futebol ou em qualquer esporte, que é o mérito, o resultado em campo. Mesmo que percam competições seguidas, ainda assim estas duas equipes estariam ficando cada vez mais ricas. O que, convenhamos, não é moral e nem ético.

A Record, que tem mais dinheiro e certamente ganhará a concorrência, pagará R$ 84 milhões para cinco clubes – Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco –; R$ 72 milhões para o Santos; R$ 60 milhões para Grêmio, Internacional, Cruzeiro, Atlético-PR. Fluminense, Botafogo e Bahia; e o restante segundo a tabela acima.

Não é justo que o Santos receba menos do que Vasco e Palmeiras, mas, ainda assim, a fórmula da Record, que é a adotada pelo Clube dos 13, ainda é menos desequilibrante e permite que não se perca tanto a competitividade como a sugerida pela Globo, que quer criar no Brasil uma nova Espanha, com apenas dois times grandes.

Minha sugestão para um sistema mais justo

A audiência da tevê é apenas um dos fatores que deve ser levado em conta para a divisão da verba, mas nunca o único. Já ficou provado – e o Santos foi o autor dessa façanha várias vezes – que mesmo um time sem a maior torcida pode dar o maior ibope, desde que pratique um futebol que agrade à maioria dos telespectadores. Um sistema de distribuição de cotas tem de levar isso em conta, ou se tornará odiosamente injusto.

Portanto, uma significativa porcentagem do valor total arrecadado tem de ser distribuído conforme a colocação do time no campeonato, obviamente com a destinação de valores com um peso maior para os mais bem classificados.

Outro detalhe que não pode ser esquecido é que só o fato de participar do Campeonato Brasileiro da Série A, de jogar a mesma quantidade de partidas que os demais e, naturalmente, se envolver em jogos importantes, dá a todo time o direito de receber um valor importante por isso.

Por outro lado, o fator popularidade não pode ser esquecido e os times de maior audiência na tevê realmente devem receber por isso.

Assim, minha sugestão para a divisão de cotas, levando em conta o mérito esportivo, o estímulo à competição e a premiação aos de maior audiência na tevê é a seguinte:

Dos 1,32 bilhão de reais que devem ser arrecadados com todos os direitos de transmissão (tevê aberta e fechada, pay per view, internet, telefonia, naming rights, direitos internacionais de tevê e publicidade estática), eu separaria 120 milhões de reais para a Série B e dividiria o bolo de 1,2 bilhão assim:

Prêmio de participação

1 – 40% do total de R$ 1,2 bilhão iriam, como cota de participação, para os 20 times da Série A. Ou seja, R$ 480 milhões seriam distribuídos igualmente entre os participantes da competição, cabendo R$ 24 milhões a cada um.

Justificativa – Participar da divisão mais importante do futebol brasileiro já é uma vitória. E todos os 20 clubes, como integrantes do espetáculo, estarão envolvidos em jogos importantes, decisivos e de grande interesse. A cota de participação é o mínimo que devem receber pelo trabalho.

Prêmio por mérito técnico

2 – 40% do total dividido pelo critério técnico. R$ 480 milhões serão distribuídos de acordo com a posição final de cada um dos 20 times no campeonato. Obviamente o título e as melhores posições serão valorizadas. A distribuição do prêmio total obedecerá à seguinte ordem:

Campeão – 20% do total, ou R$ 96 milhões
Vice-campeão – 10% do total, ou R$ 48 milhões
Terceiro colocado – 8% do total, ou R$ 38,8 milhões
Quarto – 6% do total, ou 28,8 milhões
Do quinto ao oitavo – 5% para cada um, ou R$ 24 milhões
Do nono ao décimo-segundo – 4% para cada um, ou R$ 19,2 milhões
Do décimo-terceiro ao décimo-sexto – 3% do total, ou R$ 14,4 milhões
Do décimo-sétimo ao vigésimo – 2% do total, ou R$ 9,6 milhões

Justificativa – O estímulo ao mérito esportivo proporcionará jogos mais disputados, espetáculos mais interessantes. Os melhores ganharão mais, o que é e deve ser a essência do espetáculo esportivo. Haverá uma disputa maior mesmo pelas competições secundárias. Por exemplo: a diferença entre a décima-segunda e a décima-terceira posições valerá R$ 4,8 milhões.

Prêmio por visibilidade
3 – 20% do total será dividido conforme o critério de audiência. R$ 240 milhões serão distribuídos de acordo com o índice de audiência de tevê ou de média de público de cada equipe na competição. Os critérios de aferição deverão ser analisados e votados pelos clubes. As regras devem ser claras, justas e divulgadas com antecedência pela mídia.

Os prêmios por visibilidade deverão levar em conta ou os índices de audiência na tevê (aberta, fechada e pay per view) ou a média de público, ou uma combinação de todos esses fatores. Assim, a distribuição do prêmio total de visibilidade obedecerá à seguinte ordem:

Campeão – 20% do total, ou R$ 48 milhões
Vice-campeão – 10% do total, ou R$ 24 milhões
Terceiro colocado – 8% do total, ou R$ 19,2 milhões
Quarto – 6% do total, ou 14,4 milhões
Do quinto ao oitavo – 5% para cada um, ou R$ 12 milhões
Do nono ao décimo-segundo – 4% para cada um, ou R$ 9,6 milhões
Do décimo-terceiro ao décimo-sexto – 3% do total, ou R$ 7,2 milhões
Do décimo-sétimo ao vigésimo – 2% do total, ou R$ 4,8 milhões

Justificativa – O índice de popularidade das equipes deve ser levado em conta e devidamente premiado, só não pode ter um peso desproporcional. Os melhores neste quesito serão regiamente premiados por isso.

Melhores ganharão bem mais, piores ainda ganharão bem

Por esta fórmula que sugiro, mesmo os clubes mais populares, como Corinthians e Flamengo, receberão ainda mais do que promete a Rede Globo, desde que tenham boas performances. E mesmo a equipes de pios campanha ainda terão assegurado uma bolsa bem maior do que recebem hoje.

Se Flamengo ou Corinthians vencerem o campeonato e, o que acaba sendo uma consequência do título, tiverem também a maior audiência de tevê, ou a melhor media de público (este critério, repito, deve ser avaliado e definido pelos clubes), receberão um total de R$ 168 milhões, mais de 50% a mais do que se assinarem em separado com a Globo (R$ 24 milhões pela participação, mais R$ 96 milhões pelo título e outros R$ 48 milhões pela visibilidade).

E mesmo que uma delas fique em segundo na classificação final e em segundo em visibilidade, ainda assim terá abiscoitado R$ 96 milhões, um valor bem próximo do máximo que poderá conseguir nessas negociações individuais.

Do lado de baixo da tabela, até os quatro rabeiras, mesmo rebaixados, terão assegurado, ao menos, uma bolsa de R$ 38,4 milhões.

Uma fórmula justa, que estimulará o bom espetáculo

Há uma diferença enorme entre um time iniciar uma competição já sabendo que vai ganhar uma fortuna, qualquer que seja o seu desempenho, e ter a consciência de que dependerá de uma ótima performance para obter tal prêmio.

Haverá um esforço maior dos clubes pela vitória e isso acabará premiando o espectador, que terá espetáculos de melhor nível para assistir.

Sem a valorização do mérito esportivo haverá a consolidação de um nociva reserva de mercado para alguns clubes privilegiados, que não ajudará em nada o desenvolvimento do futebol brasileiro.

Esta fórmula que premia a participação dos clubes, seu desempenho e também sua visibilidade, acredito ser a mais equilibrada e a que seria recebida com mais entusiasmo pelos amantes do futebol.

Ela obrigará os clubes a terem uma administração eficiente, planejarem melhor a temporada, montarem bons elencos e contratarem bons profissionais. Nenhum poderá baixar a guarda, pois quando mais destaque tiverem no campeonato, mais receberão por isso.

Ofereço esta fórmula para a análise dos leitores deste blog e espero que alcance a cabeça dos homens que dirigem o futebol brasileiro, antes que medidas elitistas eliminem uma das vantagens do nosso futebol, que é a grande e saudável competitividade que existe entre seus grandes clubes.

Você gostou desta fórmula? Tem outra sugestão para um Campeonato Brasileiro mais justo e atraente?


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