“O pessoal não dormiu, muitos vieram aqui a passeio”.

Na gravação do programa “Bola da Vez”, da ESPN Brasil, que será exibido no sábado, o lateral-direito Roberto Carlos tratou como “Mundialito” o Mundial de Clubes ganho pelo Corinthians em 2000 e disse que os clubes europeus não levaram a competição a sério.

“Muitos jogadores do nosso time ficavam acordados até as cinco, seis da manhã. O pessoal não dormiu, muitos vieram aqui a passeio. Além do mais, os times europeus enfrentaram um calor enorme. O pessoal do Manchester United, lá no Rio, ficava só na piscina”, debochou o lateral, que na época jogava no Real Madrid, um dos times que participou da competição.

Na verdade, a competição que a Fifa realizou em 2000 não foi muito bem organizada. O Corinthians entrou por ser o campeão brasileiro de 1999, mas o Palmeiras, campeão da Copa Libertadores de 1999, inexplicavelmente foi substituído pelo Vasco, campeão da Libertadores em 1998.

Os jogos realmente tiveram nível técnico sofrível, as arbitragens foram ruins e no final o Corinthians se tornou campeão em uma disputa de pênaltis com o Vasco. A segunda edição do Mundial, marcada para o ano seguinte, na Espanha, que teria o Palmeiras como representante brasileiro, jamais foi realizada.

O Mundial da Fifa só voltou a ser disputado em 2005, depois de um intervalo de cinco anos, o que acabou por dar à primeira competição, em 2000, o caráter de torneio experimental.

O projeto inicial de se realizar o evento a cada ano em um país diferente também foi abandonado e a Fifa acabou recorrendo ao mesmo país – Japão – e ao mesmo patrocinador – Toyota – que já realizavam o Mundial Interclubes antes, decidido em apenas uma partida, entre os campeões da América do Sul e da Europa.

Desde 2005 foram incorporados campeões de outros continentes, mas na prática nada mudou, já que os representantes de América do Sul e Europa são obrigados apenas a fazer uma preliminar contra um adversário mais fraco antes de decidir o título entre si.

Todos os campeões

São considerados campeões mundiais os vencedores da disputa intercontinental desde 1960, quando o Real Madrid, de Puskas e Di Stefano ficou com o título ao bater o Penharol, do Uruguai.

Não se deve duvidar do mérito desportivo destas conquistas, que tornou o Santos o primeiro bicampeão mundial, após disputas diretas, em jogos de ida e volta, contra o campeão europeu.

Outros brasileiros campeões foram Grêmio, Flamengo, São Paulo (três vezes) e Internacional. Há porém, competições em litígio.

O Palmeiras reclama o título da Copa Rio de 1951 como um título mundial chancelado pela Fifa. Acompanhei o trabalho de pesquisa sobre a Copa Rio e ele é realmente bem substancioso. Não ficou qualquer dúvida de que o nível técnico da competição era bastante elevado e teve o tratamento de campeonato mundial pela imprensa da época.

A imprensa tratou o Palmeiras como “campeão do mundo”

Da mesma forma que o Mundial experimental da Fifa de 2000 tornou-se oficial depois de anos de incertezas, por que a Copa Rio, desde que seja provada sua relevância e oficialidade, não possa dar aos seus vencedores o mesmo título?

E a Recopa Mundial?

Toninho pega o rebote e faz o gol do terceiro título mundial do Santos

Realizada com mais critério e rigor, a Recopa Mundial, disputada em 1969, também foi um torneio experimental de alto nível, que reuniu os campeões da Recopa Sul-americana e da Recopa Européia de 1968.

O Santos venceu a fase sul-americana, depois de bater os outros times do continente que já tinha sido campeões da Libertadores, e fez a final contra a Internazionale de Milão.

O jogo único que decidiu o título foi realizado em 24 de junho de 1969 no estádio de San Siro, em Milão, e o Santos venceu por 1 a 0, gol de Toninho Guerreiro aos 12 minutos do segundo tempo, aproveitando uma rebatida do goleiro em uma cobrança de falta.

Internazionale: Ivano Bordon; Tarcisio Burgnich, Cesare Poli; Gianfranco Bedin, Aristide Guarnieri, Giancarlo Cella; Jair da Costa, Sandro Mazzola, Angelo Domenghini, Mario Corso, Giovanni Vastola. Técnico: Maino Neri.

Santos: Claudio (Laércio 14′); Carlos Alberto, Ramos Delgado, Djalma Dias, Rildo; Clodoaldo, Negreiros; Pelé; Edú, Toninho, Abel. Técnico: Antoninho.

Árbitro: José Mario Ortiz de Mendibil (Espanha).
Público: 44.774.

Conclusão

É difícil aceitar que um torneio de critérios nebulosos, como o de 2000, feito claramente para angariar a simpatia do torcedor brasileiro, seja considerado oficial, e a Copa Rio e a Recopa Mundial não sejam.

Porém, se a Fifa é a entidade que comanda o futebol e afirma isso, então não há o que discutir. O que se pode contestar é a relevância das competições. E neste caso não há dúvida de que ao menos a conquista do Palmeiras na Copa Rio teve um impacto e um significado maior para a história do futebol do que o torneio que Roberto Carlos chama de “Mundialito”.

Por outro lado, a Recopa ganha pelo Santos em 1968/1969, já teve a sua fase sul-americana reconhecida pela Conmebol e agora e está perto de obter também da Fifa o reconhecimento do título intercontinental.

Assim como o Vaticano estuda com cuidado a possibilidade de canonização de novos santos, a Fifa deveria ter uma comissão especializada e altamente gabaritada para levantar dados e analisar cada competição que pleiteia reconhecimento. Só assim o futebol e a entidade que o administra teriam a tão esperada credibilidade.

Você acha que o Mundial de 2000 valeu? E a Copa Rio? E a Recopa Mundial ganha pelo Santos? Que critérios deveriam prevalecer?