O futebol tem personagens que não aparecem na mídia, mas são essenciais. Um deles é o observador técnico, popularmente conhecido como olheiro. Em uma simples opinião ele pode fazer o clube ganhar, ou perder, milhões de reais. Como descobrir craques por este Brasil afora é o grande objetivo de muitos clubes, quem tem bons olheiros leva grande vantagem. E o Santos tem a sorte de ter um craque nesta posição. Ele se chama Ricardo Crivelli, mas todos o tratam por Lica.

Sua sala, no Centro de Treinamento Rei Pelé, tem fitas de vídeo até o teto e ele – 48 anos, viúvo prematuro, que mora sozinho – está sempre disposto a ir para qualquer lugar atrás de uma dica quente de bom jogador. Recentemente esteve no Norte e Nordeste do país e voltou empolgado. Em Belém a peneira do Santos atraiu mais garotos do que as de Flamengo e Internacional.

“Todo mundo quer jogar no Santos, é impressionante”, diz ele. “Um garoto já estava certo com o Flamengo, mas preferiu o Santos. Todos querem  ser o novo Menino da Vila”.

Mesmo apaixonado pelo futebol, Lica sabe que não pode se deixar levar pelo coração. Sua análise é fria. Anos de prática fazem com que perceba logo o potencial de cada jogador. Na peneira realizada em Belém, observou mais de mil garotos e só escolheu cinco. “Alguns podem ser bonzinhos, mas para o Santos tem de ser muito bom”, diz ele.

Sentindo-se valorizado pela nova diretoria, Lica é ouvido pelo gerente de base, Luiz Fernando Moraes, e também recebido pelo técnico Dorival Junior, do profissional. Isso evita as chances de que o clube venha a cometer graves erros de julgamento, como acontecia antes.

No ano passado ele foi atrás, observou jogos do atleta e deu opinião favorável para a contratação de Jucilei, que viria sem custo algum para o Santos. Lembro-me bem, porque falamos sobre o jogador em uma viagem para Santos que fizemos no carro de José Carlos Peres, ex-superintendente do Santos na Capital, que indicou Lica para o clube.

No caminho, Lica insistiu que o jogador deveria ser contratado, pois seria titular do Santos e a custo zero. Na época o meio-campo do time era formado por Roberto Brum, Germano… Confiei piamente no que ele falou e hoje confirmo que estava certo. Outra vantagem, segundo Lica, é que Jucilei tem tipo físico e estilo de jogo para se dar bem no futebol europeu, o que o torna um bom “produto” de exportação.

“Um jogador bom, que venha por um valor baixo, nunca dá prejuízo ao clube. Mesmo que não se adapte, pode ser negociado com lucro”, ensina.

Inter lidera o campeonato dos olheiros

Por mais que o Santos tenha aberto o olho para este trabalho de descobrir jogadores jovens e promissores, ele ainda está bem atrás do Internacional de Porto Alegre, que gasta R$ 1,3 milhão com suas divisões de base e mantém 10 olheiros profissionais espalhados pelo Brasil.

Enquanto o Santos consegue analisar, no máximo, quatro mil jogadores por ano, o Internacional analisa mais de 40 mil. Mas isso, segundo Lica, deverá ser corrigido. Logo o seu time deverá ganhar mais reforços e o Santos poderá competir de forma mais equilibrada com o grande time do Sul.

Quem sabe, neste mesmo blog, possamos anunciar brevemente a abertura de vagas para olheiros, ou observadores técnicos, do Santos. E deve ser uma atividade bastante prazerosa contribuir para reforçar a mística de um clube que revela craques como nenhum outro.

Eu mesmo já ajudei o amigo Lica no ano passado, em uma manhã de sábado em que ele deveria observar dois jogadores. Como não poderia estar nos dois lugares ao mesmo tempo, fui à Rua Javari ver um atleta do Pão de Açúcar e depois passar o relatório para o Lica.

O rapaz que fui ver começou muito bem, mas cansou no segundo tempo. Entretanto, um outro entrou na segunda etapa e acabou com o jogo, marcando até gol. Este segundo tinha apenas 20 anos. Falei com ele após o jogo, peguei seu e-mail e dei ao Lica, mas o garoto, considerado problemático, nem foi cogitado pelo Santos. Agora fiquei sabendo que o Corinthians o contratou.

Por conviver com o Lica há mais de um ano – já que ambos fomos trazidos ao clube pelo José Carlos Peres –, sei de muitas histórias de bons jogadores que poderiam ter vindo para o Santos de graça, só pelo prestígio de vestir a sagrada camisa alvinegra. Sei também de outros que vieram mesmo quando já se sabia que não dariam certo, impostos por negociações nebulosas.

Os dois últimos anos do clube foram realmente péssimos nesse quesito. Jogadores acomodados – e medíocres, em sua maioria – ganhavam fortunas, enquanto se fechavam as portas a jovens talentos que hoje brilham em outras equipes. A direção de futebol estava em mãos incompetentes, esta é a dura verdade.

Hoje a coisa mudou. As contratações de jogadores são bem mais transparentes, não há segundos interesses em jogo. Não se ganha nada por fora, como, infelizmente, é comum no futebol. O objetivo é reforçar o elenco do Santos, desde as categorias de base, com o que pode haver de melhor e, se possível, mais barato. Para isso, o trabalho do Lica é essencial. Mas ainda precisa receber mais apoio. Como já dizia minha boa avó, “uma andorinha só não faz verão”.

Receio que este post desperte o interesse de outros clubes pelo passe do Lica, porque é mesmo difícil encontrar alguém que enxergue tanto futebol e seja tão honesto como ele. Pensei muito antes de escrever. Porém, é preciso fazer justiça a este profissional tão relevante e às vezes tão esquecido, que é o olheiro.

E, pelo que sei, Lica nem pensa em sair do Santos. Se quisesse, já teria aceitado a oferta de outros dois clubes que também investem muito em categorias de base e lhe ofereceram um salário maior.

“Gosto do Santos, estou me sentido valorizado por esta diretoria. A coisa melhorou muito no futebol depois que eles assumiram e sei que melhorará ainda mais. Descobrir um garoto para o Santos é diferente. Tem um valor maior”, conclui.