Hoje não vou falar de futebol. É um dia especial pra mim, como escritor. Vou a Taubaté falar sobre meu livro “O Barqueiro de Paraty” um um evento organizado pelo GEMA – Grupo de Estudos Mascarenhas.

O livro – que já distribui algumas vezes a ganhadores do Bolão – prega a vida simples e divulga a filosofia de Epicteto, fisólofo romano do início da Era Cristã.

Convido aos que moram em Taubaté e vizinhança para comparecerem ao evento. Querem saber do que se trata o livro? Bem, deixo-os com o primeiro capítulo: 

O barqueiro de Paraty

Esperava ansioso, até que à direita surgiu, encravada na Serra do Mar, a pequena cidade de Paraibuna. Não a conheço, jamais a visitei, mas muitas vezes me imaginei vivendo em um lugar assim, quase um mundo à parte, uma espécie de Shangri-lá dos trópicos. Encostei a testa na janela do ônibus e divaguei. Impossível não recordar as muitas vezes em que passei por ali, descendo a Rodovia dos Tamoios com a família, em busca de uns dias de praia e sonho no Litoral Norte.

A fita rodava incansavelmente, enquanto eu, Vera, as crianças e dona Lúcia, a sogra, cantávamos bem alto: “Be-i, ce-i, cê, ele, é, tê, á, sou sua amiga bicicleta!”. Eu dirigia o Fiatzinho com um sorriso interior. Adorava estarmos juntos, apesar dos pequenos conflitos. Meu parâmetro de família era aquele: unidos, apesar das diferenças. Certamente àquela altura eu não imaginava que pudesse ficar sozinho.

A separação fez desmoronar um mundo que eu havia construído tijolo por tijolo. Quando ela aconteceu, senti-me o mais próximo que alguém pode se sentir da morte. Não há outra palavra. Naquele momento parecia, realmente, que eu tinha morrido. Aos 48 anos, não tinha forças para recomeçar.

Passei dias prostrado. Era comum deitar e ficar olhando o teto, sonhando acordado com o tempo que passou, remexendo as gavetas em busca de cartões, bilhetes e fotos de uma época em que eu era o orgulhoso provedor de uma família feliz.

“Papai, é assim que eu te vejo. Você é um cara engraçado. Amo muito você. Feliz dia dos pais!” – dizia o cartão de Diego. Acima de irregulares letras de forma, próprias de uma criança de oito anos, via-se uma colagem com o meu rosto sobre o corpo de um guitarrista de uma banda de rock. Não me cansava de contemplar esse cartão. Ele me lembrava que eu já tinha sido um pai que inspirava alegria e camaradagem.

Também assistia a vídeos antigos de viagens, da primeira comunhão de Diego e Natália, das festas de aniversário, das noites de Natal em família… Assistia e reassistia até altas horas da noite, chorava muito e ia pra cama de madrugada, extenuado pelas lembranças de um tempo que eu imaginava perdido para sempre.

Mas, se foi tão bom, por que esse tempo se perdeu? Bem, é uma pergunta que ainda não sei responder. Acho que o casamento começou a ruir com as pequenas desatenções, que descambam para a negligência, a indiferença, até que atingem o grau irreversível do desrespeito.

Eu e Vera entramos em um jogo masoquista em que nos agredíamos constantemente, mas, creio, sem perder a esperança de um final feliz. Porém, em determinado momento um dos lados perdeu essa esperança e percebeu que não valia a pena viver em permanente estado de angústia e desarmonia. Some a esta constatação orgulhos feridos e a sensação de que sempre é possível recomeçar, e terá as circunstâncias ideais para o divórcio.

Enquanto eu me recusava a admitir algum problema mais grave entre nós, Vera percebia imediatamente quando nosso casamento corria riscos. Nas duas vezes em que engravidou, por exemplo, ela me sentiu distante e falou sobre isso em longas cartas que deixava na cama antes de sair para o trabalho.

Não me lembro exatamente quais eram minhas atitudes àquela época, mas creio que no íntimo nunca tive qualquer dúvida de que as prioridades de minha vida eram ela e as crianças. Entretanto, eu deveria ter alguma dificuldade em expressar isso, pois se ela só conseguia abrir seu coração através de cartas, é evidente que tínhamos sérios problemas de comunicação.

Fico até constrangido de lembrar, mas a verdade é que aos 23 anos, idade em que fui pai pela primeira vez, imaginava que, se fizesse sexo na gravidez, poderia machucar o bebê. Assim, não transei com a Vera desde que soube que ela estava esperando o Diego, até o momento em que ela se recuperou do parto. Repeti o mesmo procedimento dois anos depois, quando Natália nasceu. Mas não era falta de carinho. Era apenas excesso de zelo. Ou ignorância mesmo.

Acredito, porém, que esse descuido foi superado, pois tenho ótimas lembranças das crianças nos acompanhando em viagens; em tardes alegres de piscina, tênis, corpos queimados e almoços no clube. Amigos daqueles tempos dizem que éramos o protótipo de uma família perfeita.

Paraibuna tinha ficado para trás. O ônibus que havia deixado a Rodoviária do Tietê, em São Paulo, às 12h15m, já se aproximava de Ubatuba, no pé da serra. Dali a três horas estaria em Paraty, onde Mauro, um amigo do colégio, prometeu me ensinar a “nascer de novo”. Poderia estar imaginando como seria esse renascimento, mas minha cabeça ainda se conservava no passado…

Há 20 anos, depois de trabalhar muito tempo como jornalista esportivo, o que comprometia meus fins de semana e me afastava dos filhos, a abertura do escritório de assessoria de imprensa tinha dado à minha vida uma qualidade inimaginável. Como era gratificante ser dono do próprio nariz, receber por apenas uma conta o equivalente ao salário mensal de um redator de jornal diário!

Impossível não se sentir poderoso quando seu trabalho deixa de depender da opinião dos outros, deixa de ser julgado por editores nem sempre tão capazes como você. Uma explosão de entusiasmo e criatividade tomou conta de mim quando eu e o Marcos começamos a trabalhar com a assessoria e percebemos que podíamos atrair grandes clientes e cobrar bem, pois realmente tínhamos muito a oferecer.

Trabalhar deixou de ser um fardo. Meu sócio era também meu amigo e estarmos juntos era sempre divertido. Criávamos estratégias inovadoras para manter nossos clientes na mídia, freqüentávamos almoços e jantares, jogávamos tênis, tínhamos um humor ácido para falar dos outros… Nossas famílias se davam bem.

Pela primeira vez, eu me sentia dono do meu tempo. Além de sábados, domingos e feriados livres, podia almoçar com as crianças, levá-las para a escola e para o clube, chegar mais cedo para o jantar e no fim ainda ler histórias de lobos e princesas para Diego e Natália adormecerem.

O dinheiro dava para tudo que é essencial e bom. Tínhamos uma empregada que também cozinhava e era como uma segunda mãe para as crianças. Apartamento próprio, carros, guarda-roupas repletos e variados, possibilidade de sair à noite, viajar, enfim, viver plenamente. Entrávamos em uma boa rotina e vivíamos harmoniosamente.

É difícil detectar o momento em que surgiu a primeira rachadura na muralha que protegia esse meu castelo. O que me lembro bem é que nossas necessidades materiais ainda não estavam totalmente satisfeitas. Queríamos uma casa maior, pensávamos em uma casa de campo. Será que a pressão que nos colocamos para ganhar mais dinheiro nos estressou?

Será que a sombra da insegurança veio com os primeiros percalços da assessoria de imprensa? De repente, todo garoto recém-formado que ganhava um fax e um computador do pai passou a oferecer trabalhos de assessoria de imprensa. A concorrência aumentou, os valores caíram.

Eu e Marcos vimos que não podíamos mais cobrar tanto. Para complicar, veio o Plano Collor. O pacote de medidas econômicas que bloqueou nosso dinheiro foi anunciado em uma sexta-feira e na segunda perdemos 10 dos 16 clientes. Marcos falou pela primeira vez em abandonar a assessoria. Para salvar a empresa, tive de assumir uma posição de liderança que não tinha sido meu papel até ali. Percebi, frustrado, que nas horas difíceis a corda arrebentaria do meu lado.

A partir daquele momento foi preciso apertar o cinto, repensar os gastos. Nunca tive problemas com isso, mas creio que a queda no padrão de vida tenha afetado Vera e também Marcos e sua família. Vieram as críticas, as culpas, os ressentimentos.

Marcos abandonou o barco e preferiu trabalhar sozinho, em um escritório que montou no fundo do seu quintal. Seu plano era atender exclusivamente a clientes de informática, uma área promissora. Eu continuei acreditando em crescimento. Contratei pessoas, mudei a empresa para a avenida Faria Lima e cheguei a ter 14 clientes, de bistrôs a multinacionais.

Mas era preciso trabalhar muito para atender a clientes que exigiam cada vez mais e pagavam pouco. Um dia, saindo do Jô Soares, um empresário medíocre, que jamais teria seus 15 minutos de fama em rede nacional não fosse meu empenho e criatividade, perguntou-me: “Agora, por que não a Marília Gabriela?”. Naquele momento, decidi que não usaria mais meu talento para dar fama a pessoas que não a mereciam.

Foi só perder o entusiasmo pela assessoria e o trabalho minguou. Os clientes escassearam, e os que me procuravam, animados por trabalhos anteriores, já não encontravam em mim a mesma dedicação. Em pouco tempo eu estava em um beco sem saída.

O mais sensato seria fechar a empresa e voltar ao mercado, mas não quis dar o braço a torcer. Transformei a assessoria em editora e lancei uma revista mensal. Isso só acelerou a falência. Em pouco mais de um ano já tinha comprometido minhas economias e mergulhado no vermelho profundo.

Teriam os primeiros sinais da crise financeira provocado em minha mulher a ambição de ter também o seu negócio e não depender só de mim? Ambição que, por sua vez, a transformou em uma workholic e a afastou da família? Ou foi apenas nosso amor que esfriou, como poderia ter esfriado em qualquer outra circunstância? Não sei dizer.

Provavelmente nossas ações são movidas por detalhes que se avolumam com o tempo. É como diz a música: “E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”. De qualquer forma, nunca pensei que me veria morando sozinho, sem um tostão no bolso, esmagado pela tristeza, sem ânimo para prosseguir.

As últimas curvas da serra foram contornadas sob um sol forte. O ar condicionado do ônibus não impedia que percebêssemos o calor que cercava as crianças que iam para a escola de bicicleta. Entrávamos em Ubatuba. Logo poderia vislumbrar o mar, uma visão que sempre me acalmou e fez bem. Tentei dirigir meus pensamentos para o que me esperava em Paraty, mas o passado ainda martelava na minha cabeça… 

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O Barqueiro de Paraty

Palestra sobre o livro, escrito pelo autor, para um grupo de 80 pessoas do Grupo de Estudos Mascarenhas (GEMA), de Taubaté.

Data: 20 de abril de 2010, a partir das 19h30, no Plaza Hall, em Taubaté

Informações: junqueira@vivax.com.br (com André).