Quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes e a ponte aérea Rio-São Paulo tinha sido inaugurada naquele mesmo ano. Os clubes de futebol viviam exclusivamente das arrecadações. Não havia nem como pagar passagens de avião. Um campeonato nacional com jogos de ida e volta era uma utopia. Então, como em outros países, fez-se o que era possível para definir um campeão brasileiro que representaria o País na primeira Copa dos Campeões da América, hoje conhecida como Copa Libertadores da América.

Como hoje cada país seleciona seus poucos representantes para a Libertadores, a Taça Brasil era disputada apenas pelo campeão de cada Estado. Todos os participantes dos estaduais tinham, assim, a possibilidade de lutar pelo título brasileiro. Logo na primeira edição, 16 estados foram representados na Taça, quase o dobro dos que hoje disputam a Série A do Brasileiro.

Quando a última das quatro edições do Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi jogada, já com o nome de Taça de Prata, em 1970, o País abrigava 90 milhões de pessoas. Nesse ínterim, graças à massiva cobertura da imprensa, ninguém que acompanhasse o futebol teve qualquer dúvida de que o campeão destas duas competições era também o campeão brasileiro. Hoje, muitos dos brasileiros daquela fase de ouro do nosso futebol já morreram. Felizmente, porém, a história não vive só de testemunhas oculares. Milhares de documentos sobrevivem para comprovar a veracidade eterna dos fatos.

Desde a primeira competição da Taça Brasil a cobertura dos jornais deixou claro que a competição dava ao seu vencedor o título de campeão brasileiro. Os arquivos estão aí, repletos de documentos para quem procura se informar antes de dar opiniões. Devemos acreditar na imprensa da época? Devemos acreditar em jornalistas como Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Thomaz Mazzoni, Mário Filho, Ney Bianchi, Vital Bataglia…?  Se não devemos acreditar nesses profissionais de extrema competência, o que nos faria acreditar na imprensa esportiva atual?

O presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, em uma entrevista exclusiva a Ney Bianchi, já tinha anunciado que a Taça Brasil era o Campeonato Brasileiro de Clubes, nos mesmos moldes do Campeonato Brasileiro de Seleções, que já existia há décadas. Assim, quando a Taça Brasil foi iniciada, não havia um só brasileiro que acompanhasse o futebol que não soubesse que ela daria ao vencedor o título de campeão nacional e o direito de representar o país na primeira competição sul-americana de clubes oficial.

Relembremos algumas matérias publicadas sobre a primeira Taça Brasil e confirmemos o caráter de primeira competição nacional de clubes que ela tinha:  

Taça Brasil na fase decisiva. Santos x Grêmio hoje na Vila. Chega, afinal, à sua fase de maior interesse, a Taça Brasil, destinada a apontar o campeão nacional interclubes. E o Santos, na qualidade de campeão paulista de 1958, terá a responsabilidade de enfrentar o Grêmio Portoalegrense, que é tricampeão do Rio Grande do Sul (A Gazeta Esportiva, chamada de capa, 17 de novembro de 1959). 

Bahia, depois de vencer o Vasco, terá de enfrentar amanhã o Santos. Em plena luta pelo Campeonato Paulista, do qual é líder absoluto, o Santos, amanhã, será obrigado a se empenhar em um compromisso diferente, este valendo pelo título de campeão do Brasil. Para esta noite, com início às 21 horas, está marcada a partida entre o Santos F. C. e o E. C. Bahia, iniciando a série final relativa à Taça Brasil. Trata-se de um choque dos mais sugestivos, desde que reunirá dois esquadrões em situação de singular prestígio (A Gazeta Esportiva, título de página, 8 de novembro de 1959).

Luta pelo título de campeão do Brasil: Santos x Bahia. Hoje à noite, em Salvador, Santos e Bahia estarão lutando pela segunda vez na série final de jogos da Taça Brasil. O objetivo único é tornar-se o primeiro campeão do País. O embate na capital baiana está atraindo a atenção do público esportivo brasileiro (A Gazeta Esportiva, título de página, 30 de dezembro de 1959).

Santos. Bahia. Decisão hoje à noite da Taça Brasil. Será conhecida no Maracanã a equipe campeã brasileira entre clubes (Capa de A Gazeta Esportiva de 29 de março de 1959).

O E. C. Bahia conseguiu esta noite, no Estádio do Maracanã, o título inédito no futebol brasileiro, qual seja o de campeão brasileiro por equipes, garantindo sua participação no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

O futebol do Norte do país voltou a brilhar. Depois da atuação da Seleção de Pernambuco no Campeonato Brasileiro, ficando em segundo lugar, foi a vez do E. C. Bahia vencer a Taça Brasil, o primeiro campeonato brasileiro de clubes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

Bahia é o campeão. O E. C. Bahia sagrou-se ontem à noite campeão da Taça Brasil ao derrotar o Santos, no Maracanã, por 3 a 1. O título, que equivale ao de primeiro campeão brasileiro interclubes, foi obtido em partida acidentada, na qual foram expulsos três jogadores santistas (Folha da Tarde, última página, 30 de março de 1960).

Grande atuação do campeão baiano, sagrando-se campeão brasileiro de futebol por equipes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1960).

E. C. Bahia venceu a Taça Brasil!… O campeão baiano não teve a mínima culpa nos acontecimentos verificados entre o juiz e os jogadores santistas. É o primeiro campeão brasileiro por equipes e será o representante nacional no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Esporte Clube Bahia conseguiu um título inédito no futebol brasileiro. Sagrou-se Campeão Brasileiro por Equipes (A Gazeta Esportiva Ilustrada, legenda de foto de meia página com o time posado do Bahia, abril de 1960).

É possível que não estivesse nos cálculos dos catedráticos. Mas a realidade é que o Esporte Clube Bahia detém o primeiro título máximo brasileiro… Aí está, portanto, o desfecho da Taça Brasil. Todos acreditavam no Santos. Mas o Esporte Clube Bahia contrariou a todas as previsões. Agora, de acordo com o que ficou assentado, caberá ao campeão representar o futebol brasileiro no Campeonato Sul-americano de Campeões que será disputado em maio próximo (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Bahia, campeão do Brasil (A Tarde, de Salvador, título de capa, 1º de abril de 1960)

O que mais ninguém pode negar, é a força técnica do Bahia. É um quadro que joga pra frente mais sabe se portar na defesa. Objetivo, sabe a hora certa de ferir o seu adversário. O Bahia é uma força positiva, soube dar brilho ao futebol do Norte e detém com orgulho, para o resto da vida o título de “primeiro campeão do Brasil”. (Jornal dos Sports, matéria assinada por Luiz Bayer, 1º de abril de 1960).

Todos os mestres na arte de calcular o futebol podem rasgar seus apontamentos, pois o primeiro campeão do Brasil é o Esporte Clube Bahia e não será sem motivos, pois venceu a melhor equipe do país e um das melhores do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

Bahia, primeiro campeão do Brasil de todos os tempos, um título único e inédito de uma importância sem igual. Uma odisséia fantástica do Esporte Clube Bahia, quase desacreditado depois da derrota em Salvador, vitorioso e inconstante no Rio de Janeiro, no templo do futebol, o Maracanã, contra o maior time do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

E você, querido leitor e leitora, considera o Bahia o primeiro campeão do Brasil, ou acha que o Campeonato Brasileiro só começou em 1971?