“O Individual e o Coletivo” – Minha coluna de hoje no jornal Metro. Leia

65 mil pessoas na final de um Paulista. 90% santistas. Veja:

Ontem recebi o conselho de um amigo que é jornalista e trabalha em uma equipe esportiva de tevê. Pediu para que eu parasse com essa história de dizer que a torcida do Santos é grande, porque não é. Até me elogiou. Disse que sou um jornalista premiado, sério e competente, mas que estou me expondo ao falar que a torcida do Santos é grande. Que meus companheiros de profissão estão comentando…

Fiquei preocupado. Não com o que um ou outro possa estar pensando de mim, ou fofocando, isso realmente não tem a mínima importância. Teria se fossem estudiosos de futebol, tivessem a sensibilidade de perceber a evolução ou a decadência das massas torcedoras de cada time. Aí sim, eu poderia parar e pensar onde posso estar errado. Mas sei que, infelizmente, a maioria dos meus colegas vive de achismos e opiniões sem fundamento. Debati com muitos deles durante o trabalho pela Unificação dos títulos brasileiros. Debati não, falei sozinho, pois não vinham com informações concretas para o debate.

Mas digo que estou preocupado porque mesmo pessoas inteligentes, como este meu amigo, não conseguem se livrar da lavagem cerebral que ocorre nas redações paulistanas, em que prepondera uma maioria de jornalistas-torcedores adeptos de outras agremiações. Mas, como só bater boca não vale, trago números para justificar essa minha “história” de que o Santos tem uma grande torcida.

Não, não repetirei informações que já incluí em vários posts deste blog. Não falarei da Timemania, nem no Movimento por um Futebol Melhor, nem das comunidades de torcedores do Facebook, nem da TV do Santos no Youtube. Como querem, falarei apenas de pesquisa de torcidas de futebol.

Já disse mil vezes que ainda não foi feita nenhuma pesquisa de torcidas realmente abrangente, mas uma das menos restritas foi aquela feita pela Pluri Stochos Consultoria de novembro de 2012 a fevereiro de 2013, na qual foram entrevistadas 21.049 pessoas de 146 municípios, em todos os 26 Estados e mais o Distrito Federal. Só foram ouvidas pessoas acima de 16 anos. Margem de erro anunciada: 0,68%.

Muito bem, isso exposto, vamos apresentar a analisar os resultados da pesquisa Pluri Stochos em todas as regiões do Brasil. Sabendo-se que os clubes considerados grandes no País são apenas 12 – os quatro grandes de São Paulo, os quatro do Rio, dois de Minas e dois do Rio Grande do Sul – vejamos como o Santos se sai no ranking das torcidas segundo essa pesquisa.

No Norte, Santos tem a décima torcida

Comecemos por Norte e Nordeste, regiões que desde a década de 1940 foram influenciadas pelas transmissões do futebol carioca – antes pelo rádio, agora pela tevê – e são as que apresentam os maiores percentuais de torcedores de times do Rio de Janeiro.

No Norte, o Santos aparece em décimo lugar, com 1,5%. Dos nove times que estão à sua frente, dois são da região – Paysandu, com 6,9% e Remo, com 5,0% – e não aparecerão mais em nenhuma outra pesquisa. Logo à frente do Santos estão Fluminense e Botafogo, ambos com 1,9%. Como a margem de erro é 0,68%, o que poderia elevar o resultado do Santos para 2,18%, no mínimo o Alvinegro Praiano está em um empate técnico com Fluminense e Botafogo na oitava posição, ou sexta se forem contados apenas os times considerados grandes.

Então, na região Norte, ficaria assim: Flamengo, Corinthians, Vasco, São Paulo, Palmeiras e Santos. Note que as torcidas de Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio e Internacional nem aparecem na pesquisa.

No Nordeste já começam a surgir as torcidas locais

Vamos para o Nordeste e já percebemos um grande número de clubes da região aparecendo entre os mais bem classificados. O Sport aparece em quinto, Bahia em sexto, Santa Cruz em oitavo, Vitória em nono, Náutico em décimo e Ceará em décimo-primeiro. O Santos surge em décimo-terceiro, com 1,4% empatado com Fortaleza e Botafogo e apenas 0,2% atrás do Fluminense, o que novamente caracterizaria um empate técnico.

À frente do Santos, no Nordeste, selecionando-se só os 12 times considerados grandes, estariam, pela ordem, Flamengo, Corinthians, Vasco, São Paulo e Palmeiras. Perceba que novamente Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Atlético Mineiro nem aparecem na pesquisa.

Santos é o sétimo no Centro-Oeste

Passemos agora para a região Centro-Oeste, em que o Santos surge com a sétima torcida, com 3,2%. Das equipes à frente do Santos, há o Goiás, com 4,4%, outro fenômeno regional. Em quinto está o Vasco, com 4,9% e em quarto o Palmeiras, com 5,4%. Percebe-se que a diferença entre Santos e Palmeiras é de apenas 2,2%, o que a margem de erro poderia abaixar para menos de 1%.

No Centro-Oeste, computando-se só os grandes, a classificação até o décimo lugar será Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Vasco, Santos, Botafogo, Atlético, Fluminense e Cruzeiro. Até a décima-segunda posição não aparecem nem Grêmio, nem Internacional.

Oitavo no Sul, com o dobro da torcida do Vasco

Vamos agora para o Sul do País, única região que não é dominada pela dupla Flamengo e Corinthians. No Sul, o Grêmio lidera, com 18,9% e o Internacional surge logo atrás, com 16,4%. Depois aparecem Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras empatado com Atlético/PR, Santos, Coritiba e Vasco.

O Santos está em oitavo, com 2,9%, ou sétimo sem o Atlético/PR, outra torcida que só aparece bem colocada no Sul. O Vasco aparece em décimo lugar com 1,5%, praticamente metade da torcida do Santos. Só com a margem de erro duplicada (0,68% menos para o Santos e 0,68% mais para o Vasco), o time carioca alcançaria o Santos.

No Sudeste e no geral está empatado em sexto. E pode ser quarto…

Por fim, a região Sudeste, a mais populosa e a mais rica do País, onde vivem 82,1 milhões de pessoas, ou 42% da população brasileira. No Sudeste, o Santos aparece na sétima posição, com 5,3% da torcida total, em um empate técnico com o Atlético Mineiro, o sexto (5,6%) e mesmo com o Palmeiras, o quinto (6,2%). Isso porque se o Santos tiver 0,68% a mais vai para 5,98% e se o Palmeiras tiver 0,68% a menos cairá para 5,52%.

Somando-se todas as cinco regiões do Brasil, a Pluri Consultoria chegou à seguinte classificação final: 1 – Flamengo, 16,8%; 2 – Corinthians, 14,6%; 3 – São Paulo, 8,1%; 4 – Vasco, 5,0; 5 – Palmeiras, 4,9%; 6 – Cruzeiro, 3,8%; 7 – Santos, 3,4%; 8 – Grêmio, 3,0; 9 – Atlético Mineiro, 2,6; 10 – Internacional, 2,5%; 11- Fluminense, 1,8%; 12 – Botafogo, 1,6%.

Note que o Santos é um time nacional, que aparece nas pesquisas em todas as regiões do País, ao contrário dos grandes de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mais regionalizados. E note ainda que esta à frente do Vasco nas duas regiões mais ricas do País – Sudeste e Sul –, que, somadas, abrangem 110 milhões de pessoas, mais da metade da população brasileira.

Perceba ainda que nesta classificação final o Santos se encontra em condição de empate técnico com o Cruzeiro e bem próximo de Palmeiras e Vasco. Lembre-se que a pesquisa, de um ano atrás, não ouviu torcedores com menos de 16 anos, justamente crianças e adolescentes, faixa na qual o Santos provavelmente angariou muitos torcedores nos últimos anos.

Bem, mas para não dar minha opinião de santista, o que pode ser olhado com desconfiança por meus colegas, cito Émerson Gonçalves, estudioso do marketing esportivo e dono do blog “Olhar Crônico Esportivo”, que ao analisar os resultados desta pesquisa, escreveu:

“Muito provavelmente, a presença da torcida do Santos na sexta colocação é um dos primeiros sinais da fase Robinho/Diego. Ainda é prematuro falar em efeito Neymar, uma vez que o universo pesquisado foi o de brasileiros com 16 anos e mais de idade. O crescimento da torcida provocado pelo atleta começará a aparecer nas pesquisas em 2015 ou 2016, sempre considerando o mesmo universo etário dessa pesquisa. Caso o Ibope realize nova pesquisa nacional considerando o público de 10 anos e mais de idade, acredito que o resultado de Neymar já seria visível nesse ano mesmo.”

Veja, então, que apesar de já estar em um empate técnico com o sexto colocado, a torcida do Santos estava em crescimento, ao mesmo tempo em que as de Palmeiras e Vasco, times que passam por péssima fase, provavelmente estagnaram ou não cresceram no mesmo ritmo.

Agora, eu pergunto: o que dizem todos os indícios citados neste blog com relação à torcida do Santos? Timemania, Facebook, Movimento por um futebol melhor, visualizações no Youtube (hoje a tevê mais assistida no Brasil)… Dizem que a torcida do Santos está brigando pela quarta posição. Perceba que a pesquisa científica da Pluri Stochos Consultoria chegou à mesmíssima conclusão.

torcidas do brasil - pluri consultoria

A ilusão dos gatos pingados na Vila Belmiro

Propalar que o Santos tem uma torcida pequena porque na Vila Belmiro os públicos são pequenos é, só para continuar no adjetivo, pensar bastante pequeno. Na região da Baixada Santista, que reúne nove cidades e mais de 1,6 milhão de pessoas, o Santos lidera com alguma folga, com 30,8% das preferências, contra 24,0% do Corinthians; 12,5% do São Paulo e 9,2% do Palmeiras. Quer conferir com um blogueiro neutro? Tá bom. Clica aí e leia o blog Teoria dos Jogos, de Vinicius Paiva:

Divisão das torcidas na Baixada Santista

Então, como explicar as testemunhas da Vila? Não sei. Talvez pelo poder aquisitivo mais baixo da população da região, talvez pelo comodismo (o santista prefere ver pela tevê, em casa ou no bar), talvez por estar acostumado a ver grandes times e não se animar com o medíocre futebol atual…

O que posso dizer é que mesmo o Barcelona, se jogasse toda semana na Vila Belmiro, não conseguiria encher o estádio todas as vezes. Pelé, Coutinho, Pepe & Cia também já se cansaram de jogar para 5 mil pessoas.

Agora, se o Santos se exibir mais no Pacaembu, no Interior de São Paulo, no Norte do Paraná ou no Sul de Mato Grosso (a Arena Pantanal), por exemplo, pode crer que os estádios estarão sempre cheios.

É que a torcida do Santos não está indo mais em todos os jogos. Está esperando o grande momento. No Campeonato Paulista foi assim. Ela aguardou até o jogo decisivo e aí bateu o recorde de público do Campeonato, com 34.964 pagantes (Santos 1, Ituano 0, em 13 de abril de 2014). No mesmo estádio tinham jogado Corinthians e São Paulo, e tiveram 29.119 pagantes.

Pintou agora a idéia de convocarmos todos os blogueiros do Santos para divulgar o jogo que o time fará no Pacaembu, dia 6 de setembro, sábado, às 18h30, contra o Vitória. A partida encerrará o turno. Não vale nada em especial, mas seria legal se os santistas lotarem o estádio, ou comparecerem em grande número ao Pacaembu mais uma vez. Para incentivar o time e calar a boca de alguns gênios do achismo.

Surpreende-me um jornalista especializado em futebol dizer que a torcida do Santos é pequena. Se ainda fosse um fofoqueiro de celebridades, ou crítico de gastronomia, vá lá. Mas cronista esportivo?! Se não quer acreditar nas evidências que publico aqui no blog, que ao menos respeite essa pesquisa nacional da Pluri Stochos, que mostra os santistas na sexta posição e subindo…

Santos, o fenômeno de público no Rio-São Paulo

Só para refrescar a memória, segue a lista dos cinco maiores públicos do Torneio Rio-São Paulo, o de melhor nível técnico já disputado no Brasil. Repare que o Santos aparece 4 vezes; o Vasco 3; Botafogo, Flamengo e Corinthians, uma. Esse quadro mostra um outro lado da questão que também precisa ser analisado: será que para o futebol, é mais importante um time que tem torcida, ou que joga bonito e dá bons espetáculos? Note que o Santos lotava o Maracanã porque era um grande time. E também porque sempre teve carisma (repare que um dos jogos é de 1999, em que o Santos não tinha nenhum grande astro). Ou seja, o Santos já mostrou o caminho da meritocracia ao futebol brasileiro. É só seguir a fórmula.

Mandante Placar Visitante Público Estádio Data
1. Botafogo 3–1 Santos 102.260 Maracanã 31/03/1963
2. Flamengo 1–7 Santos 87.868 Maracanã 11/03/1961
3. Vasco 3–1 Santos 81.421 Maracanã 28/02/1999
4. Vasco 1–0 Corinthians 77.881 Maracanã 31/05/1953
5. Vasco 2–1 Santos 74.155 Maracanã 13/04/1961

Imagens da torcida do Santos em 2007, centradas na Torcida Jovem. Note que o entusiasmo e a paixão podem ser comparados, mas não superados. E se lembre que ainda não havia Neymar, Ganso, André, Wesley, Arouca e nem a volta de Robinho. E ainda viriam, nos seis anos seguintes, mais seis títulos: uma Libertadores, uma Copa do Brasil, três Paulistas e uma Supercopa. Além de um vice-mundial, três vices paulistas e mais uma semi de Libertadores. Será que essa torcida aumentou? E será que a de outros times que só perderam nesse período, estagnaram ou diminuíram? Será que é preciso ser um gênio para chegar a essa conclusão lógica? Veja:

Show da torcida do Santos na final da Libertadores de 2011:

E você, também acha que a torcida do Santos é pequena?