Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Tag: Rivalidade

Eu vi o que vocês fizeram em 1978

O Campeonato Brasileiro vai recomeçar e está na hora de voltarmos às nossas paixões particulares. Antes, uma palavra sobre a ensaiada decepção argentina pela euforia brasileira com a vitória alemã. Ora, que reação esperavam nossos vizinhos?

De apoio, carinho, afeto? Sim, seria ideal. Vivemos lado a lado, compartilhamos parte de nossas histórias, dividimos o mesmo pedaço do mundo. Eu, particularmente, adoraria ter motivos para preferir a Argentina, no futebol, a qualquer nação européia.

Mas o amor, para ser sincero e duradouro, exige reciprocidade. Quando a brincadeira, mais do que ironia, se torna um desrespeito crônico apoiado por seus principais jornais esportivos; quando os costumes, o povo e os ídolos brasileiros são insultados regularmente e boa parte dos argentinos confunde rivalidade com desprezo e ódio, fica muito difícil dar a outra face.

No meu caso, é mais difícil, pois ainda me lembro bem do que fizeram na Copa de 1978, uma Copa armada para que os donos da casa vencessem, burlando as regras do jogo e a ética, destratando os visitantes com o único objetivo da vitória a todo custo, como se isso fosse transformar a Argentina em um país melhor.

Agora, no Brasil tivemos, sim, contato com povos, com civilizações melhores. Nada mais justo e alentador, para o futebol, do que apreciar uma dessas nações vencer a Copa.

Alegrar-se com o título da Alemanha, mesma equipe que goleou o Brasil, mostra, simplesmente, que o brasileiro começa a colocar o mérito esportivo acima do rancor, da inveja e do jogo sujo que sempre caracterizou o futebol sul-americano.

A Copa ficou com os que praticaram o futebol mais vistoso e eficiente e, além disso, se mostraram mais amigáveis, educados e respeitosos. Os jogadores alemães demonstraram carinho com a gente simples do Brasil e seus torcedores não deixaram um rastro de destruição por onde passaram.

O Brasil já tinha provado, por cinco vezes, que sabe ganhar uma Copa. Agora, repetindo 1950, prova que também sabe perde-la; que apesar de amar tanto o futebol, não comete a estupidez de colocar a vitória ou a derrota no mesmo patamar da vida e da morte. Vejo isso como um mérito, uma qualidade que o vizinho sul-americano ainda não tem.

E você, acha que havia motivo para torcer para a Argentina?


Rivalidade X Intolerância

Em um de seus últimos programas no Sportv, Armando Nogueira me entrevistou sobre o livro “Heróis da América”, que escrevi e a Editora Planeta lançou pouco antes dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Era para o Paulo César Vasconcelos participar do bate-papo, mas ele não pôde e ficamos, Armando e eu, conversando por uma hora sobre o Pan e as perspectivas dos atletas brasileiros. O grande cronista estava um tanto deprimido, percebi, e logo soube as razões.

Eu já sabia que ele andava meio adoentado, e que a coisa era grave. Três anos depois ele morreria, vítima de câncer no cérebro, diagnosticado naquele mesmo ano de 2007, pouco antes do nosso encontro. Mas no dia do nosso bate-papo ele continuava espirituoso, aos 80 anos. No intervalo das gravações conversamos sobre o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, nossos times do coração, protagonistas de duelos inesquecíveis, nos quais preponderava a arte e o respeito.

Levei uns livros para ele autografar. Para quem trabalhou na equipe de esportes do Jornal da Tarde, Armando Nogueira era indubitavelmente o melhor texto do jornalismo esportivo brasileiro. Sensível, artístico, amante do futebol e de seus personagens, um cronista de verdade. Em determinado momento, porém, revelou-me algo que o magoava:

“Hoje os leitores reagem muito agressivamente. Você não pode escrever nada que eles xingam. Está ficando chato escrever sobre futebol…”.

Entendi perfeitamente o que ele queria dizer. Antes as respostas dos leitores vinham através de cartas, de quem, presumivelmente, apreciava ler e escrever e tinha o mínimo conhecimento das palavras e dos efeitos que elas provocam. Hoje as reações chegam pelo mundo difuso da Internet, que tanto pode abranger pessoas educadas e esclarecidas, como sórdidos bandos abrutalhados sedentos de ódio.

Lembrei-me num relance dos tempos em que comecei a ser encantado pelo futebol. Tempos em que a TV Record, a mais poderosa da época, transmitia jogos do Santos quase todos os finais de semana. Era o melhor time, o campeão, o que tinha muitos craques e entre eles o Rei Pelé. Como transmitir outra partida?

Não me lembro de nenhum outro torcedor ter reclamado da preferência da TV Record. Pois era óbvia e condizia com a cultura da época, que valorizava o espetáculo mais bonito e interessante. Ponto. Ninguém citava pesquisas de torcida, mesmo porque elas não significariam nada. A qualidade, o mérito, suplantavam tudo.

Havia rivalidade, mas não intolerância. Era possível assistir a um jogo no estádio sentado ao lado do torcedor contrário. Ambos podiam comemorar os gols de seus times diferentes sem correr risco de vida. Ainda não se sabia o que era torcida organizada, agrupamentos que só surgiram no final dos anos 60.

Os jornalistas, alguns tão parciais como os de hoje, eram, entretanto, mais respeitados. Ninguém seria maluco ou selvagem a ponto de ameaçar fisicamente um homem da comunicação. Estes, por sua vez, costumavam tratar os times com a devida consideração. Se a Portuguesa ganhasse um clássico, ela seria a capa do jornal, e não uma outra equipe que apenas contasse com um número maior de torcedores.

Enfim, a mensagem que chegava ao público era a de que o mérito servia de parâmetro para a cobertura da imprensa, e os torcedores aceitavam essa premissa numa boa. Hoje, ao contrário, os veículos de comunicação tentam empurrar goela abaixo a filosofia de que ter mais torcida é mais relevante do que ter um time melhor. É claro que uma imposição tão antinatural não pode provocar boas reações…

Escrevo sobre isso porque no trágico episódio do garoto boliviano morto, os torcedores do Corinthians querem apenas que o time se safe da punição da Conmebol, os que torcem para outros times querem que a punição seja a mais dura possível, e só mesmo os familiares e amigos choram a morte de Kevin, a única vítima real dessa história. Ficou faltando empatia e humanismo, propriedades que distinguem o homem dos animais; ficou faltando aquele espírito dos bons tempos do jornalismo esportivo brasileiro; ficou faltando um cronista como Armando Nogueira para contar esse caso para a história.

E para você, por que a intolerância superou a rivalidade no futebol?


Quem gosta de futebol bonito torcerá pelo Santos

Tem gente que diz que já nasceu torcendo por um time, como se fosse questão de herança ou doença genética. Eu não. Nasci para gostar da arte, do belo, mas também da disputa esportiva, da luta incansável pela vitória. Um guerreiro com alma de artista, ou vice-versa. E por isso escolhi o Santos, um time que expressa o meu caráter, minha forma de viver e ver a vida.

Que time fez mais gols? Que time revelou tantos craques e tantos artilheiros? Que time ganhou mais títulos importantes no campo do adversário, com torcida contrária? Que time saiu de uma cidade menor para reinar nas capitais do mundo? Tudo isso forma a personalidade estética e corajosa do Santos, com a qual eu e milhões de brasileiros se identificam.

Sei que outros torcedores tiveram outros motivos, ou “programação”, para escolher um time. Eu os respeito, claro. Todo time de futebol tem uma marca, um estilo que começa na sua fundação e segue pela vida, como um fio condutor. Esse jeito de ser acaba sendo compartilhado por torcedores de todos os gostos. Alguns anseiam os títulos, mesmo com futebol feio, outros adoram a garra, a luta; há os que vivem à espera de triunfos dramáticos e, por incrível que pareça, existem os que parecem gostar de sofrer.

Fiz um post na semana passada para o meu blog só para santistas, mas, ao ser publicado no site do Milton Neves, teve uma repercussão desmesurada. Ao comentar o alto índice de rejeição do alvinegro da capital, recebi críticas por usar as palavras “inimigo” e “ódio”. Ora, utilizar uma palavra não quer dizer que aprovemos a ação ligada ao seu significado. A referida palavra apenas existe e é a melhor, no contexto, para explicar o que se está dizendo.

As pessoas que prestaram atenção ao texto devem ter percebido que não fui eu quem considerou meu colega de ginásio “inimigo”. Ao contrário. Sempre o considerei amigo e por perceber o quanto comparar o meu time com o dele o deixava transtornado, simplesmente nunca mais conversei sobre isso com ele.

Por outro lado, a palavra “inimigo” parece pior do que realmente é. Uma pesquisa no pai dos burros, o velho Dicionário Aurélio, nos mostrará que “inimigo” quer dizer: 1. Hostil, adverso, contrário. 2. De, ou pertencente a grupo, facão ou partido oposto.

Agora eu pergunto: Ora, torcidas opostas de times de futebol rivais são o quê, além de adversas, contrárias, adversárias, opositoras, inimigas?

A pesquisa analisada no post anunciava os “índices de rejeição” dos clubes brasileiros. E o que quer dizer “rejeição”? Ainda segundo o Aurélio é o mesmo que “desprezo”, que por sua vez é uma das definições de “ódio”. E que quer dizer, realmente, “ódio”, segundo este dicionário que todo mundo deveria ter?

Ódio: 1. Paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém; execração, rancor, raiva, ira. 2. Aversão a pessoa, atitude, coisa, etc; repugnância, antipatia, desprezo, repulsão.

Temos exemplo desse ódio, desse “desejar mal a alguém”, quando um torcedor expressa sua vontade de que o jogador adversário se machuque. Já ouvi várias histórias de que nos tempos do tabu era comum ouvir, no meio da torcida do alvinegro da capital, votos de que Pelé quebrasse a perna. Isso é ódio. Há coisa mais vil e repugnante do que torcer para o ferimento, a dor física de alguém?

Um leitor deste blog nos trouxe um comentário lido estes dias no UOL, assinado por um leitor denominado “Corin7x1ans”. Ele diz: “Escrevam o que eu digo. O Ganso vai para a 5ª cirurgia e acaba a carreira (o Garrincha foi mais longe). O Arouca não passa de 15 minutos, volta o estiramento e para por 90 dias (depois vira chinelinho para sempre).” Eu pergunto: que sentimento esse torcedor expressou, com um comentário aprovado no site mais lido do Brasil?

Ódio, todos devem saber, é o contrário do amor. Quem é fanático e ama o seu time, tem a tendência de sentir aversão pelo maior rival. Todo mundo que acompanha o futebol sabe disso. É hipocrisia fingir o contrário. Por isso, no final do post, levando-se em conta o alto índice de rejeição do adversário, eu perguntava – e não afirmava – se o leitor do blog estava entre aqueles que tinham esse sentimento. Como já disse um personagem da tevê, “perguntar não ofende”. Em uma democracia – regime para o a qual ainda estamos nos adaptando –, dar opiniões sobre quaisquer assuntos é um direito do cidadão.

O sujeito pode dizer se é a favor ou contra o casamento gay, o aborto, o uso da maconha, mas não pode responder se odeia ou não um time de futebol rival? Ah, parem com isso. Nem os puritanos são tão puritanos. A paz não pode depender do silêncio medroso das pessoas. Ela deve coexistir com a livre expressão do pensamento. Do contrário, será falsa e frágil.

Por que os times são amados ou odiados?

Este blog parte do princípio de que todos os assuntos podem e devem ser discutidos, desde que isso contribua, de alguma forma, para o desenvolvimento do futebol e das pessoas envolvidas com ele. Descartes já afirmou, há séculos, que “não há nenhuma coisa existente da qual não se possa perguntar qual é a causa”. E se um time é o mais rejeitado do País, é pertinente querer saber por que.

Em 35 anos de imprensa esportiva e 50 como torcedor, sei muito sobre a índole de torcedores de diversos clubes. Conheço muito melhor os santistas, é evidente, mas também convivi e convivo de perto com aficionados de várias outras agremiações. Dos outros, posso dizer que conheci pouquíssimos palmeirenses desagradáveis, na verdade me parecem os mais simpáticos, depois dos santistas. Já os são-paulinos, percebo que muitos são vaidosos demais, tendendo para a arrogância. Agora, os corintianos, ao menos para mim, em grande parte são insuperáveis na arte de se fazer antipáticos.

Provavelmente convencidos pela propaganda de que seu time é todo-poderoso, uma nação, uma república, timão, a torcida mais fiel e outras ideias plantadas na mídia, a maioria dos seguidores do alvinegro da capital consideram-se, mesmo, superiores. É comum ouvir deles que “corintiano não gosta de futebol, corintiano gosta do Corinthians”. Esta é uma clara diferença entre torcedores dos dois alvinegros, pois o santista ama demais o seu time, mas também gosta muito de futebol, e futebol bonito, ofensivo.

Essa coisa de DNA ofensivo, conclusão a que eu cheguei ao pesquisar e escrever o livro Time dos Sonhos (Códex, 2003), não é balela. Mesmo quando viveu suas vacas magras, o Santos fazia mais gols do que muitos campeões. Veja você que de 1924 a 1939 o Corinthians foi sete vezes campeão paulista, enquanto o Santos foi apenas uma, em 1935. Mesmo assim, se contarmos os gols que os dois times fizeram nesses 19 campeonatos estaduais, o Santos marcou 23 a mais.

O leitor Serjão nos envia uma preciosa crônica escrita pelo lendário Nelson Rodrigues para a revista Manchete Esportiva de 23 de maio de 1959, na qual o incomparável cronista fala do título Rio-São Paulo conquistado pelo Santos com uma vitória de 3 a 0 sobre o Vasco, no Pacaembu, maravilha-se com Coutinho, 15 anos, autor de dois gols na partida, e, por fim, descreve o espanto de um vascaíno diante do poder ofensivo do Santos. Reveja:

Mas o povo, com o seu instinto agudo, sua vidência terrível, reconhece e aponta os jogadores que “comem” a bola, como se a estraçalhassem nos dentes, fazendo esguichar o sangue da redonda. E se, na verdade, existem “tarados” da pelota, Pelé ou Coutinho há de ser um deles. Com o doce nome de Coutinho, o meu personagem fez, ontem, contra o Vasco, barbaridades sem conta. A um confrade que veio de avião do Pacaembu, eu perguntei: “Que tal o Coutinho?” O colega baixa a voz: “Bárbaro!” Insisti: “E o Pelé?” Resposta: “Bárbaro!” Fui adiante: “E Dorval? Pepe?” A tudo, o sujeito respondia, de olho rútilo: “Bárbaro!” Então, eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que não respeitam e, pelo contrário, brutalizam a bola e cravam, nela, os seus caninos de vampiro.

Na verdade, todos os estudiosos do futebol reconhecem que o Santos sempre teve essa afinidade para o gol e sempre contou com grandes atacantes. Mas, para muitos corintianos, ele só era “um time pequeno que tinha Pelé”. E, quando Pelé parou, “o Santos acabou”. A mesma mensagem foi repetida na era Robinho e ocorre agora com Neymar. Para tirar o mérito do clube, do time, da instituição, isolam um jogador e imputam a ele o motivo de toda a desigualdade entre as equipes.

Por outro lado, esses mesmos torcedores comemoram todos os anos um título paulista conquistado sobre um time pequeno, com um jogador a mais, favorecido por uma arbitragem tendenciosa, em um Morumbi tomado pela sua torcida, em uma vitória magérrima de 1 a 0, com um gol chorado feito por um reserva…

Esse hábito de seus torcedores de supervalorizar os seus feitos e diminuir os dos adversários não será um dos motivos que faz o Corinthians liderar o ranking dos mais rejeitados do País? Veja bem, não estou afirmando, estou apenas colocando uma questão no ar que merece reflexão. O ideal seria que os méritos alheios fossem reconhecidos, pois isso iniciaria um círculo virtuoso que faria com que a atitude de todos os torcedores mudasse.

A visão de torcedores brasileiros e argentinos sentados lado a lado para ver o jogo entre as suas seleções, em New Jersey, mostrou uma realidade que vivemos no Brasil até a década de 1970, mas hoje parece cada vez mais distante. Creio que o primeiro passo para se voltar a usufruir dessa harmonia começa na cabeça e na atitude de cada torcedor. Reconhecer o mérito do rival, a ponto de ao final do jogo apertar-lhe a mão, como se faz no tênis e em tantos esportes civilizados, é o primeiro passo.

Se eu não acreditasse que pode haver paz entre santistas e corintianos, apesar da aversão que podem sentir um pelo outro, não teria convidado o amigo Celso Unzelte para fazermos, juntos, o livro “o Grande Jogo”, falando do “maior duelo alvinegro do futebol”. Livro que termina com a seguinte frase, minha:

“De qualquer forma, esta é uma boa rivalidade, por ser apaixonante, por motivar os dois clubes, mexer com o mundo do futebol e produzir espetáculos de muita emoção. Uma rivalidade que, como todas, se alimenta da paixão e do ódio, mas que admite o respeito e a admiração pelo inimigo. Há um quê de dramático nestes times, nestas torcidas e no universo que gravita ao redor quando eles se encontram. Provavelmente por isso Pelé tenha dito que o maior jogo do mundo é um Santos e Corinthians. E é mesmo!”

E para você, o que faz um time ser amado?


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