Blog do Odir Cunha

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A Europa foi um atraso para as carreiras de Zico e Sócrates


Zico e Sócrates: dois exemplos de ídolos brasileiros desvalorizados no futebol europeu.

Ontem o presidente do Santos, Luis Álvaro Ribeiro, enviou nota à imprensa reafirmando que, para o clube, Neymar é inegociável. A atitude de Luis Álvaro foi oportuna, já que alguns clubes europeus acham que é só chegar aqui, na feira livre da América Latina, e levar quem quiser.

Para variar, um jornal paulistano tinha anunciado que o Real Madrid vinha “buscar” Neymar, como se fosse apenas chegar e pegar. A imprensa espanhola noticiava que lá Neymar teria de cortar o “ridículo” cabelo moicano. Ou seja, nem contrataram e já querem pasteurizar o ídolo santista, cujo estilo de cabelo inspira a tantos garotos.

Já disse e repito que a ida de Neymar para a Europa, agora, às vésperas de um Mundial de Clubes da Fifa e a três anos da Copa do Mundo no Brasil, seria um erro estratégico tremendo. O Santos perderia demais, mas a perda também seria grande para o futebol brasileiro e, principalmente, para o próprio Neymar.

Mas como Neymar perderia?, perguntariam os dinheiristas. E eu teria de explicar que nem todas as perdas são materiais. Um sujeito que se perceba no fim da vida e analise tudo o que fez de importante, não vai se gabar – a não ser que seja um idiota – de ter juntado uma fortuna incalculável.

Ele vai querer se lembrar das coisas efetivamente relevantes que fez, que deixou para as novas gerações; vai se lembrar das pessoas que cativou e o amam de verdade; vai se lembrar, enfim, do que foi e é realmente essencial e do que não acabará quando ele for para o caixão.

Zico marcou passo na pequena Udinese

Com exceção de Pelé, Zico foi o maior ídolo do futebol brasileiro. Se ele fosse tirado da história do Flamengo – como alguns energúmenos gostam de sugerir que se faça com Pelé no Santos – o grande rubro-negro perderia 80% de seus títulos importantes. Sim, com Zico e devido a ele, o Flamengo ganhou um título mundial, uma libertadores, quatro brasileiros, sete campeonatos cariocas, nove taças Guanabara, além de inúmeros torneios.

Quem gosta de futebol, torcedor de que time for, tem de tirar o chapéu para o Galinho de Quintino. Eu tiro. Ótimo, mas o que aconteceu com Zico quando saiu do Flamengo para ir para a Udinese, da Itália, em 1983, aos 30 anos?

Nada. Na verdade, tirou leite de pedra de um time pequeno que ele carregava nas costas e que nos três anos em que esteve lá ganhou apenas um torneio quadrangular em Udine. Ao voltar para o Flamengo, em 1985, Zico ainda teve de responder a acusações de sonegação de imposto de renda na Itália.

Como se cuidava, o Galinho acabou jogando até os 41 anos, cumprindo suas últimas cinco temporadas no Kashima Antlers, do Japão. Como não conseguiu ser campeão do mundo pela Seleção Brasileira, apesar de participar das Copas de 1978, 82 e 86, suas melhores lembranças como jogador são do tempo do Flamengo. No total, marcou 826 gols na carreira.

O dinheiro de sua negociação com a Udinese sumiu. Como se sabe, o Flamengo é o clube com a maior dívida da América do Sul e só não fecha porque o país é controlado pelo populismo, o que faz dele e de outro clube paulista considerado “de massa” os protegidos do poder político.

Hoje um técnico de prestígio internacional, dono de um centro de treinamento, Zico deve estar montado na grana. Porém, se pudesse voltar atrás, jamais teria saído do Flamengo para a obscura Udinese. Chega a ser constrangedor lembrar que um dos maiores ídolos do futebol brasileiro saiu daqui para jogar em um time de terceira categoria na Itália, mesmo país que causou a maior tristeza a este mesmo Zico ao eliminar o Brasil na Copa de 1982.

Sócrates perdeu tempo e prestígio na Fiorentina

Sócrates, torcedor do Santos desde criancinha, divide com Rivelino a condição de melhor jogador da história do Corinthians. Ganhou apenas três títulos paulistas nos seis anos que ficou no Parque São Jorge (menos do que o Pará e Zé Love ganharam em um ano e meio de Vila Belmiro), mas, para os padrões corintianos, foi um verdadeiro deus. Pois bem. Em 1984, com 30 anos, transferiu-se para a Fiorentina, um time médio da Itália, e fracassou rotundamente.

O estilo do doutor não casou com o sistema tático da equipe, lá seus discursos pseudo-filosóficos não tinham efeito, como na imprensa baba-ovo que o decantava no Brasil. Resultado: em pouco tempo, brigava para ser titular. Em 25 jogos fez apenas seis gols e após um ano estava de volta, desvalorizado.

Ainda jogou dois anos no Flamengo (25 jogos, seis gols) e decidiu abandonar a carreira. Depois, mudou de idéia e jogou mais um ano no Santos, marcando sete gols em 23 partidas. Saiu da Vila Belmiro demitido por indisciplina.

Magro, com bom condicionamento físico, Sócrates poderia ter prolongado sua carreira e hoje seria muito mais respeitado caso não tivesse seguido o senso comum e trocado o Corinthians pela Fiorentina.

Rivelino foi se esconder na Arábia Saudita

Em 1978 Rivelino trocou o Fluminense pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita. Após ter sido o maior craque da história do Corinthians – que defendeu de 1965 a 1974, sem ganhar nenhum título – e de sair escorraçado para o Fluminense, pelo qual conquistou dois cariocas, ele resolveu ganhar dinheiro no Oriente Médio.

Lá ficou três longos anos. Acabou não se adaptando ao país e voltou correndo quando percebeu que o príncipe local, um tipo que não gostava de ser contrariado, estava dando em cima de sua mulher.

Do tempo em que esteve lá não se soube nada sobre Rivelino no Brasil. Diziam até que estava jogando tão bem, que poderia jogar tranqüilamente na Seleção Brasileira. Mas nunca mais foi convocado.

Resumo da ópera

Nos anos 80 os melhores jogadores brasileiros passaram a ser vendidos para o exterior por qualquer dinheiro e para qualquer time. Qualquer coisa que ofereciam era muito superior aos salários no Brasil.

Titulares da Seleção Brasileira aceitavam jogar em equipes de segunda e terceira categorias. Tudo pela grana. E o pior é que o dinheiro dessas transações quase sempre sumia, desviado por dirigentes corruptos, e o clube ficava ainda mais pobre do que antes, já que perdia o atrativo do ídolo.

Os exemplos são incontáveis. Mesmo quando a mudança era boa para o jogador, era péssima para o seu clube no Brasil, que nunca mais voltava a ter o mesmo prestígio – caso de Falcão, por exemplo, que se tornou campeão pela Roma, enquanto o seu Internacional entrava em decadência.

Assim, como bem respondeu o presidente Luis Álvaro ao comentarista Caio Ribeiro, no programa Arena Sportv, o Santos não está deixando passar nenhuma oportunidade de ouro de receber caminhões de dinheiro por Neymar e Ganso, porque, em primeiro lugar, o Santos não é um banco, não é uma instituição financeira cujo maior objetivo é ter lucro.

O Santos é um time que, ad eternun, quer ter bons jogadores e ganhar títulos. O dinheiro serve para que? Para contratar bons jogadores e ganhar títulos? Ora, se o Santos já tem os bons jogadores e com eles está conquistando títulos importantes, por que trocar isso por dinheiro?

Se o Flamengo de Zico, o Corinthians de Sócrates, o Fluminense de Rivelino e o Internacional de Falcão fossem dirigidos por pessoas que enxergassem o óbvio, certamente não teriam se desfeito de seus maiores ídolos. Pois os jogadores excepcionais não podem ser resumidos em números, mesmo aqueles cheios de zeros. Eles são astros, anjos, dádivas dos deuses, e como tal devem ser tratados.

O que você achou da nota oficial do Santos dizendo que Neymar é inegociável? Será que o garoto terá sensibilidade para entender que ele é bem mais útil aqui?


Uma final heróica contra o Corinthians. Que poucos conhecem…

Quanto se fala nos jogos entre Santos e Corinthians que decidiram títulos, todos se lembram dos Paulistas de 1935 e 1984, vencidos pelos Santos; do Paulista de 2009, que ficou com o Corinthians; do histórico Brasileiro de 2002, conquistado pelo Alvinegro Praiano e – depois de lembrado por Celso Unzelte no livro “O Grande Jogo” – também do Paulista de 1930, arrancado pelo alvinegro da capital em plena Vila Belmiro. Mas ninguém se recorda daquele que, para mim, foi o mais dramático de todos.

Estou me referindo ao Rio-São Paulo de 1966, decidido, na última rodada, com um confronto entre Corinthians e Santos, no Pacaembu. Naquele domingo, 27 de março de 1966, dois clássicos alvinegros definiriam a competição: aquele do Pacaembu, à tarde, e depois, à noite, Vasco e Botafogo, no Maracanã.

A situação do torneio era a seguinte: o Vasco era o líder, com um ponto ganho a mais do que Santos e Corinthians e dois pontos à frente do Botafogo. Não me pergunte porque os dois jogos não foram realizados no mesmo horário, como a ética mandaria. O certo é que se vencesse, o Vasco seria campeão. Mas, se perdesse, ficaria atrás de Santos ou Corinthians, caso um dos dois saísse vitorioso no clássico paulistano.

Quanto ao Botafogo, sua única possibilidade de chegar ao título seria vencer o Vasco e torcer para o empate em São Paulo, pois isso deixaria os quatro times empatados na primeira posição e obrigaria a realização de um quadrangular final para a definir o torneio.

Vivia-se o auge do tabu

Naquela época, o Corinthians não ganhava do Santos de jeito nenhum. Sabe-se que por 11 anos, de 1957 a 1968, o Santos não perdeu para o rival no Campeonato Paulista. Mas houve um período, de junho de 1962 até março de 1968, que a invencibilidade se estendeu por todas as competições. Só nesse período foram 19 jogos, com 11 vitórias santistas e oito empates.

Pelé, maior algoz do Corinthians, naquele domingo não jogou. O técnico Lula escalou a equipe com Laércio, Carlos Alberto Torres, Oberdan, Haroldo e Zé Carlos; Zito e Mengálvio; Dorval (Lima), Coutinho, Toninho e Edu (Joel).

Oswaldo Brandão armou o Corinthians com Heitor, Jair Marinho, Ditão, Galhardo e Édson; Nair e Rivelino; Garrincha, Flávio (Nei), Tales e Gílson Porto.

O jogo começou e seguiu equilibrado, com tentativas de ambos os lados. Mas, por jogo violento, seguido de reclamação, o árbitro Ethel Rodrigues cismou de expulsar Coutinho e Mengálvio de uma vez só. E aos 30 minutos, ao driblar Zito dentro da área, Garrincha sofreu pênalti.

Eu, com os meus 13 anos e meio, acompanhava a partida pelo rádio e percebi que a situação estava critica. Um pênalti contra e dois jogadores a menos, em um Pacaembu repleto de torcedores contrários… Como o Santos faria para manter o tabu? Mas, lembro-me bem, não desisti. Continuei torcendo pelo improvável.

O primeiro estágio da torcida deu certo. Laércio Milani, tão bom goleiro que chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira mesmo sendo reserva de Gylmar, espalmou o pênalti cobrado por Flávio no canto direito. A bola voltou para a pequena área e Flávio jogou por cima.

Lula substituiu os pontas Dorval e Edu por Lima e Joel e o Santos passou a jogar na defesa. Mas, faltavam, ainda, 15 minutos para terminar o primeiro tempo, além da segunda etapa inteirinha.

Mesmo quando tinha de me distanciar do grande rádio, que ficava na cozinha, torcia para não ouvir o grito de gol, pois isso, inevitavelmente, significaria que o adversário tinha vencido a retranca santista. E assim o tempo passou.

Um título heróico

Nos últimos minutos, já com o coração aos pulos, ouvi quando, em um contra-ataque, Toninho Guerreiro penetrou pela direita e quase fez o gol da vitória santista. De qualquer forma, o empate de 0 a 0, nas circunstâncias em que foi obtido, representou uma grande vitória, que se revelou até mais importante do que a manutenção do tabu.

À noite, o Botafogo venceu o Vasco por 3 a 0, provocando um empate qrádruplo. Sem datas para realizar um quadrangular para definir o campeão, decidiu-se que o título seria dividido entre os quatro.

Assim, se você ainda não sabia, fique sabendo – e não esqueça – que o Santos já foi campeão jogando 60 minutos com dois jogadores a menos do que o Corinthians, em um empate que valeu muito mais do que uma goleada e que deixou no adversário uma sensação terrível de derrota.

Reveja o filme deste jogo no lendário Canal 100:

Corinthians 0, Santos 0

27 de março de 1966, domingo à tarde

Última rodada do Rio-São Paulo de 1966

Pacaembu

Corinthians: Heitor, Jair Marinho, Ditão, Galhardo e Édson; Nair e Rivelino; Garrincha, Flávio (Nei), Tales e Gílson Porto.
Técnico: Oswaldo Brandão.

Santos: Laércio, Carlos Alberto Torres, Oberdan, Haroldo e Zé Carlos; Zito e Mengálvio; Dorval (Lima), Coutinho, Toninho e Edu (Joel).
Técnico: Lula.

Árbitro: Ethel Rodrigues (SP).

Cartões Vermelhos: Mengálvio e Coutinho.

Renda: Cr$ 64.517.500,00

Veja matéria sobre os títulos ganhos pelo Santos no Pacaemnbu no blog Santistas Loucos

Acreditar, sempre

Por ter vivido situações como esta, é que nunca deixei de acreditar no Santos, mesmo nos momentos mais difíceis de sua história. Por isso, vencer o Corinthians, domingo, na Vila, e comemorar mais um título Paulista, é fichinha perto das dificuldades que o time já passou diante de seu tradicional rival.

Você conhecia esta história? Acha que um time que já manteve um tabu jogando com dois jogadores a menos por 60 minutos, no campo do adversário e com torcida contra, pode ter algum receio ao jogar completo e em sua casa?


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