Blog do Odir Cunha

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Pobre, desorganizado e violento futebol sul-americano

O futebol sul-americano nunca foi um exemplo de organização e jogo limpo. Destruída pela II Guerra, a Europa demorou para reencontrar seu caminho e, por um período que se estendeu até o começo da década de 1970, os clubes sul-americanos puderam rivalizar com os europeus. Depois, as diferenças foram se tornando cada vez mais evidentes. O que se viu ontem em La Bombonera, em que torcedores do Boca Juniors aspergiram spray de pimenta nos jogadores do River Plate que voltavam para o segundo tempo, paralisando a partida por duas horas e provocando o eu adiamento, foi retrato da falência de um esporte, de uma confederação e de uma civilização.

Em qualquer país decente do mundo, do primeiro mundo do futebol, em que regulamentos esportivos e regras de convivência humana são respeitadas, o Boca Juniors deveria perder os pontos, mas a Conmebol é uma entidade política, com dirigentes mais interessados em aproveitar as benesses dos cargos do que criar competições justas e seguras.

Além do mais, lá, como aqui, o Boca é o time “da massa”, o que dá votos, ao qual tudo é permitido. A Conmebol não terá coragem de aplicar suas próprias regras e o segundo tempo deverá ser jogado amanhã, no campo do Racing. Vergonha para um país e para um continente que gosta de trapaças.

“Trampas” era como se chamavam essas tramóias dos times da casa para ganhar os jogos na Libertadores. Se ontem, com transmissão para o mundo todo, os jogadores do River foram agredidos impunemente e se a polícia não interferiu para evitar as ameaças e o vandalismo que durou horas, é fácil imaginar o que passavam os visitantes nos jogos da Libertadores nos anos 60 e 70, quando não havia tevê direta e todo o tipo de sujeira era utilizada para trazer a vitória.

O grande líder Zito me disse que em La Bombonra, com o pretexto de arrumar a fila de jogadores, antes de entrarem em campo, a polícia batia com os cassetetes nas pernas dos santistas, dando uma amostra do que viria. Havia um time, o Estudiantes, que estudava até detalhes íntimos dos adversários para usá-los em campo. Assim, na disputa do Mundial, um jogador da Internazionale que tinha acabado de se separar a mulher, foi chamado de corno o jogo todo, até que perdeu a cabeça.

Em Montevidéu, o Peñarol tinha um jogador, o atacante Sasía, especializado em jogar terra nos olhos dos goleiros na hora de um escanteio, ou uma cobrança de falta. Fez isso na final do Mundial de 1961, contra o Benfica, e voltou a fazer contra o Santos, na final da Libertadores de 1962. Um dos gols uruguaios na Vila Belmiro foi assim.

Mas o Santos também não era nada bonzinho. Nesse jogo de 1962 o juiz Carlos Robles quis paralisar a partida por falta de segurança, mas no vestiário um dirigente do Santos encostou um revólver no peito dele e fez com que terminasse o jogo. Na sequência, o Santos empatou em 3 a 3 e deu a volta olímpica como campeão, mas na súmula Robles já tinha escrito que dera sequência à partida para salvar sua vida.

O que se viu ontem em La Bombonera foi uma imagem que, infelizmente, retrata o pobre, desorganizado e violento futebol sul-americano, em que o time da casa ainda tenta ganhar no grito, com a subserviência das autoridades. Algo próprio dos países sem uma verdadeira democracia, liderados por caudilhos demagogos que usam as crenças e as paixões mais rasteiras do povo a seu favor.

E o pior é que ao olhar a torcida que fez questão de permanecer no estádio, ameaçando os jogadores do River e atirando garrafas em campo, percebia-se que eram pessoas da classe média argentina, senhores, idosos, que deveriam ter um senso de civilidade um pouco mais desenvolvido.

Em pensar que nesta mesma semana vimos as semifinais da Liga dos Campeões da Europa, com os times de casa – Bayern e Real Madrid – eliminados diante de suas torcidas, sem que ninguém fosse ferido e não houvesse nenhuma destruição. Infelizmente, não se trata apenas de futebol. Além de uma confederação, eles têm uma civilização melhor.

O nosso Santos, trapaceando em 1962, na Vila:

O título, contra tudo e contra todos, em La Bombonera:

E pra você, por que o futebol sul-americano ficou tão pra trás do europeu?


River Plate pode ser rebaixado. Pobre futebol sul-americano…

Ontem o River Plate, que seus torcedores chamam de “Milionário”, jogou em casa e perdeu para o humilde Lanús por 2 a 1. Agora, pela primeira vez em 110 anos de história, o River terá de disputar uma repescagem – que lá chamam de “la promoción” – para se livrar do rebaixamento. A amargura foi demais para um torcedor de 68 anos, que morreu de infarto no imenso e triste Monumental de Nuñez.

A decadência do River, maior vencedor de campeonatos nacionais (34), assim como a do Boca Juniors, que este ano sequer participou da Copa Libertadores, e a do Racing, que de grande virou apenas um time mediano, não são apenas um problema do futebol argentino, mas de todo o continente.

As razões do fracasso lá são as mesmas que, em menor escala, persistem aqui. A má administração dos clubes, a corrupção de dirigentes e árbitros, a politicagem, o jogo de interesses, enfim, a falta de credibilidade que afasta do negócio as empresas e as pessoas sérias.

Tudo isso agravado por um esquema de exploração do talento infanto-juvenil, que consiste em descobrir e revelar jogadores para fornece-los, ainda imberbes, para o rico mercado internacional – em um sistema amparado por uma imprensa que, no geral, tem se revelado parcial e conivente, defensora de interesses particulares e clubísticos.

No Brasil, populismo e injustiças

A economia mais forte diminui no Brasil a crise que já se alastra pelos grandes, ou ex-grandes, do falido futebol argentino. Mas não há motivo para comemorações. Aqui o futebol se baseia em uma injusta divisão de castas, que premia a quantidade e pune a qualidade.

Falando assim, parece brincadeira. Mas, analise comigo: o maior dinheiro que os clubes podem receber, que é o das cotas de televisão, é distribuído, prioritariamente, para aqueles que têm mais torcida, independentemente de seu desempenho em campo.

Enquanto isso, as equipes mais vitoriosas, com jogadores de maior destaque, são obrigadas a se desfalcar para participar de mais de uma competição ao mesmo tempo e para ceder boa parte de seus jogadores às várias seleções nacionais convocadas pela CBF.

Ao invés de estimular a competência e a competitividade, esta reserva de mercado aos grandes clubes, determinada pela tevê, gera a acomodação e o desleixo, que, invariavelmente, levam à decadência que se vê hoje no futebol argentino.

Para complicar, boa parte dos formadores de opinião são para-quedistas que se valeram da não obrigatoriedade do diploma de jornalista para invadir a profissão. Sem serem repórteres e não terem o mínimo comprometimento com a ética, são marqueteiros de terceira categoria e contatos de publicidade que se valem da fachada de jornalista para defender interesses e obter vantagens pessoais.

Dívida dos grandes, um assunto que é tabu…

No Brasil, o torcedor só vai saber o tamanho exato da dívida de seu clube quando este for obrigado a decretar falência. Porém, como isso só acontecerá quando o país tiver um governo sério e viver sob um regime de respeito às leis, por enquanto não há o que temer.

Há alguns anos, no programa Arena Sportv, o ex-jogador Leonardo, ex-técnico da Internazionale que está indo para o PSG, disse que a dívida do Flamengo era “impagável” (no sentido de não se poder pagar). Pouco depois, uma fonte que conhece bem os bastidores do clube carioca, me confidenciou que a dívida do rubro-negro chegava a um bilhão de reais. Uma dívida dessas seria realmente “impagável”, pois só de juros teria um acréscimo mensal de quase 100 milhões de reais.

Pois bem. Há dois meses soube de uma cena diante do caixa do Flamengo, onde Ronaldinho Gaúcho e seu irmão, Assis, brigavam em altos brados pelo não recebimento dos salários do ex-número um do mundo. Todo funcionário do Flamengo sabe disso. Porém, nada se lê sobre caso tão grave.

E é como se ninguém soubesse de nada, mesmo, pois o clube continua contratando jogadores caros e até consegue a primazia de ter vultosos contratos de patrocínio com empresas estatais. Ou seja, eu, você, o contribuinte brasileiro torcedor de outros clubes está ajudando a alimentar uma instituição caótica que virou uma imensa devoradora de dinheiro.

Enquanto isso, a imprensa esportiva prefere gastar mares de tinta para descobrir se Neymar simula faltas ou não. Ora, se o interesse nesse permanente desvio de foco é acobertar esses assuntos “desagradáveis” e não se indispor com os milhões de flamenguistas, o tiro pode sair pela culatra.

As sujeiras, mesmo as escondidas sob os mais grossos tapetes, um dia aparecem. Se a imprensa esportiva carioca, ao longo do tempo, tivesse sido mais crítica e menos conivente com os desmandos da maioria dos dirigentes de futebol do Estado, certamente as administrações teriam se aprimorado e hoje os torcedores dos grandes do Rio não sofreriam tanto.

Ao contrário do que muitos pensam, o oba-oba, a exaltação inconseqüente, leva pra baixo, pois impede a detectação de problemas e atrapalha o aperfeiçoamento. A crítica, exercida com isenção e coragem, se revela bem mais eficiente.

Usados, durante anos, para enriquecer oportunistas, desocupados e desonestos, a maioria dos clubes de futebol do Brasil padece dos mesmos males que estão levando o River Plate a passar a maior vergonha de sua história. Não precisava ser assim. Nenhum torcedor merece isso. Se é para morrer no estádio, que seja por um motivo nobre, em um momento sublime de orgulho e alegria…

Reveja lances do jogo que levou o River para a repescagem:

Você acha que o que está acontecendo com o futebol argentino pode acontecer no Brasil? O que os grandes clubes podem fazer para evitar a tragédia?


O melhor time de todos os tempos – aqui, a enquete histórica da revista El Gráfico (para ler e guardar)

Na imprensa esportiva brasileira há muitos especialistas no Bologna. Sabem de cor os titulares, reservas, comissão técnica e provavelmente até os jogadores da divisão de base do Bologna. Digo Bologna porque é um time médio da Itália. Se fosse um grande da Europa, então, saberiam até a cor da cueca do jogador principal. Mas quando você comprova que o Santos dos anos 60 foi o melhor time que já existiu, muitos duvidam, porque nada sabem, ou porque só acompanham futebol de uns tempos para cá.

Embasbacados pelas equipes européias, não conseguem imaginar que um time brasileiro, aqui, de São Paulo, é considerado o melhor que já pisou em um campo de futebol. Dizem que estou delirando, que sou santista e por isso suspeito. Não gostam de ouvir argumentos e nem de checar informações. Por isso, sou obrigado a trazer a prova que eles certamente verão, entrando enrustidamente neste blog.

Aqui está a matéria histórica da conceituada revista El Gráfico, a mais tradicional publicação de futebol da América do Sul. A matéria, definitiva sobre o assunto, publicada em 1979, traz o resultado de uma longa pesquisa que, por várias edições, consultou especialistas de todo o mundo para saber qual teria sido o melhor time de futebol da história.

Esta matéria, que muito procurei, me foi conseguida pelo grande santista Marcelo Fernandes, que mora na Alemanha, e que por sua vez a conseguiu com Mário, um argentino que tem revistas de todo o mundo. Reproduza essas imagens, quarde estas informações com carinho porque são raras. Obrigado de novo e forte abraço, querido Cello. Sem você esta verdade não seria desvendada.

O texto da reportagem da El Gráfico diz o seguinte:

“Chegamos ao final de nossa enquete. Nela, nos brindaram com sua opinião jornalistas esportivos de todo o mundo, dirigentes, personalidades e futebolistas de ontem e de hoje. Tanto europeus como americanos se inclinaram, preferentemente, pelo Santos do Brasil (década de 60). Aquele dos mágicos jogadores que desenhavam sobre a grama. Para a maioria foi A MELHOR EQUIPE DA HISTÓRIA, um título que sem dúvida merece. O Real Madrid de Espanha (década de 50) teve o constante apoio dos votos chegados da velha Europa, enquanto a Internazionale de Milão (1964/65) e o Ajax da Holanda (19790/74) tiveram a aprovação dos jovens”.

A legenda da foto dizia: “Um dos conjuntos do fabuloso Santos da década de 60. Acima: Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel, Oberdan, Gilmar e Rildo. Abaixo: Amauri, Lima, Toninho, Pelé e Edu. Esta equipe ganhou o Torneio Pentagonal de 1968 disputado em Buenos Aires”.

O resultado final da enquete, anunciado como “El Escrutinio Final”, teve os seguintes classificados:

1 – Santos – década de 60                                193 votos

2 – Real Madrid – década de 50                    103 votos

3 – Internazionale – 1964/65                          49 votos

4 – Ajax – 1970/74                                                    47 votos

5 – River Plate – 1942/45                                    43 votos

6 – Racing – 1966/67                                              32 votos

7 – Independiente – 1972/75                            28 votos

8 – Honved – 1952/54                                           22 votos

9 – Boca Juniors – 1978                                        17 votos

10 – Bayern Munich – 1972/76                        13 votos

        San Lorenzo – 1946                                         13 votos

O único outro time brasileiro a aparecer na pesquisa foi o Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos e muitos outros craques, o maior rival brasileiro nos anos 60. O Alvinegro Carioca apareceu na 31ª posição, com três votos.

Abaixo, a reprodução da matéria publicada na conceituada revista argentina:


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