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Nadal, um exemplo de determinação para o futebol

Nós, brasileiros, desconfiamos que nossos craques do futebol, ao se tornarem famosos e milionários, não jogam mais com amor à camisa, não se dedicam como deveriam ao esporte que praticam. É só o ídolo fraquejar em uma ou outra partida que, invariavelmente, surgem as suspeitas de que, feita a fama, ele deitou na cama.

Talvez sejamos cruéis ou mal perdedores, destes que acham desculpas para toda derrota. Mas talvez tenhamos razão e os craques brasileiros merecem as críticas porque deixam de se empenhar como devem à medida que vão conquistando a chamada independência financeira.

Qualquer que seja a verdade, o certo é que nos falta cultura esportiva e, talvez, caráter. Cultura para entender o real significado do esporte, que não é só dividir os competidores em vencidos e vencedores; e caráter para assumir com vontade o papel de ser um desportista, com as alegrias, mas também com os dissabores que ele traz.

Sei que muitos que lêem este blog não acompanham, ou não gostam do tênis. Porém, convido-os a prestarem atenção nos exemplos que o tênis pode dar ao esporte – especificamente no exemplo deste jovem espanhol chamado Rafael Nadal, que hoje venceu o russo Mikhail Youzhny por inquestionáveis 6-2, 6-3 e 6-4 e domingo jogará a sua primeira final do Aberto dos Estados Unidos, um dos quatro torneios mais importante do mundo, com o sérvio Novak Djokovic, que derrotou Roger Federer em cinco sets.

Nadal é um operário dedicado. O sucesso é consequência.

O canhoto Nadal, que pela garra foi batizado de El Toro, nasceu em Manacor, Espanha, em 3 de junho de 1986. Tem, portanto, 24 anos, e já acumulou uma fortuna avaliada em 100 milhões de dólares.

Profissional desde 2001, ele é o número um do ranking mundial e se vencer amanhã completará o seu décimo título de Grand Slam – nome dado aos quatro torneios maiores: os abertos da Austrália (Austrália Open), França (Roland Garros), Inglaterra (Wimbledon) e Estados Unidos (US Open).

O rapaz é mesmo um fenômeno. Mesmo assim não é, entretanto, considerado o melhor do mundo, status que pela técnica apuradíssima é dado ao suíço Roger Federer, 29 anos, que já ganhou 16 torneios de Grand Slam. MasNadal, sem dúvida, é o mais determinado, aquele para quem não há bola perdida.

E veja, caro leitor e leitora, que no tênis não há favorecimentos. A regra é realmente igual para todos, não há arbitragem tendenciosa, dirigente protegendo um ou outro, torcida ameaçando invadir o campo, pressão nos bastidores. É tudo resolvido na quadra, como uma rena moderna em que os gladiadores usam raquetes ao invés de espadas.

E neste mundo, justo, em que vence realmente o melhor, é que Rafael Nadal, mais ídolo, mais famoso e mais rico que qualquer jogador brasileiro, dá o máximo de suas energias em busca da vitória, com uma determinação e um espírito de luta que fazem corar outros atletas menos comprometidos com a profissão.

Assim, para que fique bem claro que nada pode acomodar ou esmorecer aquele que é, realmente, um grande desportista, selecionei alguns lances de Rafael Nadal. Já pensou se todos os jogadores de futebol jogassem com a mesma vontade?


Rafael Nadal, o humilde campeão de Wimbledon, exemplo para muito jogador e ex-jogador de futebol

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Imagens do jogo mais difícil de Rafael Nadal em sua caminhada para o título de Wimbledom: a vitória nas quartas de final sobre o sueco Robin Soderling (seu adversário na recente final de Roland Garros) por 3/6, 6/3, 7/6 e 6/1.

Com a vitória sobre o tcheco Tomas Berdich, neste domingo, por 6/3, 7/5 e 6/4, o espanhol Rafael Nadal não só ganhou seu segundo torneio de Wimbledon, como repetiu a proeza de 2008 – quando conquistou Roland Garros e Wimbledon na sequência – e se firmou na primeira posição do ranking mundial. Aos 24 anos recém-completados (3 de junho), será que o espanhol ainda poderá ter mais títulos de Grand Slam do que o suíço Roger Federer, que angariou a marca incrível de 16 troféus de simples?

Não duvido mais nada deste espanhol extremamente focado, raçudo e corajoso, que conheci há cinco anos no Brasil Open, na Costa do Sauipe, quando ganhou o torneio e começou a mostrar o seu talento. Tinha uma cara tão de adolescente que me atrevi a perguntar se ainda era virgem. Ele sorriu, tímido, baixou a cabeça e a balançou, para dizer que não.

Um ano mais novo que Thiago, meu filho – que foi um bom jogador de tênis e ajudou seu colégio a ser campeão estadual da Virginia, nos Estados Unidos – Nadal despertou em mim sentimentos paternos. Gostei dele, do seu jeito franco, simples, do seu destemor diante de adversários mais experientes e de repertório variado. Desde então, passei a torcer por ele.

Sei, é claro, que Roger Federer também é um bom cara e tem um talento incomparável. Faz tudo certo numa quadra, sabe tudo de tênis, como diria meu amigo Dácio Campos, comentarista do Sportv. Mas, quando se tem simpatia por alguém, não tem jeito. Sou Nadal, sempre.

Seu jogo não é só baseado na força dos golpes e das pernas, nem só no grande efeito topspin que coloca na bola. Ele tem uma concentração absurda. Se o outro fraqueja um instante – o que é inevitável em longas partidas –, o tourinho está lá para tirar proveito dessas bobeadas e abrir uma frente que depois e´muito difícil tirar.

Nadal também é inteligente e sabe fazer da fraqueza, força. Seu contra-ataque é fantástico. Veja que no math point de hoje ele bateu uma bola curta, aparentemente defeituosa, mas com ela chamou Berdich á rede para depois acertar uma passada incrível.

Um detalhe é que ele é canhoto, mas também tem facilidade com a mão direita, já que escreve com ela. Enfim, Nadal tem quase a versatilidade de um ambidestro e esse controle dos dois lados, aliado à sua velocidade de pernas e de raciocínio, além do físico invejável, o tornam o tenista mais difícil de ser batido, hoje mais ainda do que Federer.

Humilde e determinado

O que mais gosto de Nadal, entretanto, é sua postura diante da fama e da fortuna. Aos 24 anos ele já ganhou, só em prêmios, 33 milhões de dólares. Se somadas as verbas de publicidade e patrocínio, passa dos 100 milhões. No entanto, continua dando 100% em cada partida, como um gladiador.

Enquanto simples mortais de classe média estão nas tribunas, como imperadores romanos, apreciando o espetáculo com um copo de refrigerante na mão, Nadal está se esfolando na quadra, correndo, aguentando a pressão, como um operário. E depois, mesmo que vença de forma incontestável, como hoje, nunca se ouvirá dele frases arrogantes ou de auto-elogio, o que se tornou muito comum nestes últimos dias, na África do Sul.

Nadal já conseguiu mais no tênis do que muito jogador de futebol em toda a carreira (e mesmo depois dela). No entanto, dele nunca se ouvirá coisas do tipo “eu sou o melhor”, “sou melhor do que Pelé”, ou o corriqueiro “eu sou foda”, que os artilheiros costumam dizer quando marcam gols, mesmo quando toda a jogada foi feita por um colega.

Nadal ainda continua dizendo que Federer é o melhor jogador do mundo. E se há alguém que poderia contestar isso, é o próprio garoto espanhol, que vence a maior parte dos jogos que faz contra o suíço. Como tem quatro anos a menos do que Federer, se continuar jogando tão bem como este ano, Nadal poderá se aproximar muito das marcas do adversário e, quem sabe, até superá-lo em número de títulos de Grand Slam.

No entanto, mesmo que consiga, estou certo de que Nadal nunca dirá que foi um jogador melhor do que seu grande rival, ou, muito menos, de que jogou mais bonito. Ele sabe que joga para vencer, é confiante e abnegado, mas está consciente de que não pratica nenhum tênis-arte.

Se o espírito de Nadal prevalecesse também no futebol, sabe o que o técnico Silas diria depois de levar um chocolate do Santos na Vila Belmiro, com o seu bom, eficiente, mas nada artístico Grêmio? Algo como: “Perdemos de um adversário superior, que além de objetivo, joga mais bonito que a gente. Conseguimos superá-los em Porto Alegre, mas aqui fomos dominados e me dou por feliz de meu time não ter sido goleado”.

Seria muito mais bonito do que perder e ainda sair dizendo que seu time é melhor, como se o mundo estivesse errado, e ele, Silas, certo. Pegou muito mal essa falta de desportividade do técnico gremista. Nadal, ao contrário, é capaz de vencer e ainda elogiar o adversário. Palmas pra ele!


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