Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Tag: Romário

Hoje o campo de batalha é pra quem sabe jogar. Força Santos!

Faltou fôlego. E categoria. Mas domingo tem mais

40 minutos do segundo tempo. No primeiro contra-ataque que sai redondo, Renato Abreu faz um lançamento longo que pega Thiago Ribeiro na corrida. O atacante penetra livre e na saída do goleiro bate cruzado, fraco, para longe do gol. Era a chance do empate. Depois o jogo seguiu enrolado e o Santos perdeu por 2 a 1 uma partida que poderia ter vencido se errasse menos e fosse mais decidido.

O primeiro gol do Flamengo, no primeiro tempo, surgiu depois de um passe errado de Alison e de um toque de Mena que atrapalhou a marcação. Leonardo Moura surgiu livre para empurrar para as redes.

Aos 31 minutos a arbitragem marcou errado um impedimento de Thiago Ribeiro, que tinha condição. Aos 33 André Santos matou um contra-ataque com falta, mas não recebeu amarelo.

O Santos terminou o primeiro tempo com mais tempo de bola, mas sem criar chances efetivas de gol. O panorama prosseguiu igual na segunda etapa, mas aos oito minutos Mena errou em um cruzamento e permitiu o contra-ataque do adversário, que acabou chegando ao segundo gol.

Um minuto depois e, decidido, Alison foi à frente e serviu Everton Costa, que penetrou na área e sofreu pênalti. Cícero bateu rasteiro no canto e tornou a partida novamente indefinida.

Pouco depois do gol, Claudinei tirou Alison e colocou Gabriel. Teoricamente o time ficaria mais ofensivo. Mas por que tirar Alison e não Renê Junior? Gabriel não entrou bem. Levou um cartão amarelo por simular falta e pouco pegou na bola. Por outro lado, sem Alison o Santos perdeu o meio-campo.

Renê Junior, Renato Abreu e Cícero são lentos. Mesmo precisando atacar, o time passou a tocar a bola de lado e recuar para trás, até o indefectível chutão de Durval. Cícero tem categoria, sabe segurar a bola, mas às vezes segura demais, até ser desarmado. Não pode ser o único armador do Santos.

Renato Abreu terminou o jogo sem fôlego, assim como Renê Junior. Pelo mesmo motivo Mena teve de ser substituído aos 31 minutos, por Émerson Palmieri, que também não se saiu muito melhor. Pela direita, Cicinho teve muitos problemas na marcação e também não conseguiu apoiar. Foi a mais fraca partida dele no Santos.

Aos 22 minutos Claudinei tinha substituído Everton Costa por Willian José, mas também não deu resultado. Por incrível que pareça, Everton Costa estava menos ruim. Do ataque, só mesmo Thiago Ribeiro se salvou, apesar de ter perdido o gol de empate já comentado.

No meio de campo, apesar do erro de passe que resultou no primeiro gol, Alison estava bem. O mais técnico é mesmo Cícero, mas precisa tocar a bola mais rapidamente, ou de nada adiantará sua categoria. Perdeu no mínimo três bons contra-ataques pela lentidão de raciocínio.

Na defesa, Aranha não foi o mesmo milagroso de Novo Hamburgo. Aos 20 minutos do segundo tempo espalmou uma bola bem para o centro da área, por pouco dando o terceiro gol ao adversário. Os laterais, como já disse, deixaram a desejar. O miolo de zaga fez o que pôde, com destaque para Gustavo Henrique. Não fosse ele e a derrota seria um pouco mais dolorida.

O Zé Peixe comentou que se Claudinei reclamava do cansaço por fazer dois jogos em dois dias, por que não utilizou mais garotos vindos da base? Eles ao menos correriam mais em busca da vitória. Porém, enquanto o Flamengo jogava seus meninos corredores pra cima do Santos, o Alvinegro Praiano apresentava um time lento, cansado, sem forças para buscar o empate.

Infelizmente um jogo como esse mostra as limitações ofensivas do Santos, que não são poucas. Mesmo precisando empatar, o time só deu três chutes a gol no segundo tempo e não conseguiu acertar um único na direção das traves.

De qualquer forma, não dá tempo para chorar. Domingo, às 18h30, há um jogão na Vila Belmiro contra o Botafogo. Mais descansado e talvez com Montillo, o Santos terá grande possibilidade de fazer o que não conseguiu no Maracanã, e assim continuar na briga por uma vaga no G4.

E você, o que achou do desempenho do Santos contra o Flamengo?

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Pepe e Lima dão depoimentos para o Museu Pelé

Museu - PepeMuseu - Lima
O ponta-esquerda Pepe, segundo maior artilheiro da história do Santos, bicampeão mundial pelo Santos e pela Seleção Brasileira, e o curinga Lima, titular da Seleção Brasileira na Copa da Inglaterra, deram depoimentos para o Museu Pelé, que será inaugurado no primeiro semestre de 2014. Nas fotos, os craques são focalizados por Aline Floriz, editora de imagens da equipe de captação de conteúdo do Museu Pelé.

Como já escrevi antes do jogo contra o Fluminense, o Maracanã é um campo neutro e privilegia os times que tocam melhor a bola e têm mais disposição de lutar pela vitória. Por isso, mesmo sabendo que o Flamengo é um adversário que merece profundo respeito, que precisa da vitória para distanciar-se da zona de rebaixamento e que jogará diante de sua torcida, acho que se o Santos mantiver a mente quieta e a espinha ereta, pode até vencer a partida desta quinta-feira, às 21 horas, com transmissão pelo Sportv.

Digo que pode vencer – se tiver calma e determinação – porque sei dos problemas do técnico Claudinei Oliveira para escalar o time. Edu Dracena, suspenso; Alan Santos, com lesão muscular, e Giva, com uma luxação no ombro, desfalcam a equipe. O volante Alison, que tem se revelado um dos melhores do campeonato, e o meia Leandrinho terão de passar por uma avaliação antes de entrar em campo. Se não puderem jogar, Claudinei provavelmente escalará Renato Abreu e Pedro Castro para os seus lugares.

O chileno Eugenio Mena, que defendeu a seleção de seu país na terça-feira, contra a Espanha, viajou para o Rio e talvez possa jogar esta noite. Se não puder, Émerson Palmieri continuará na lateral esquerda. As outras posições da defesa serão ocupadas por Aranha – um dos maiores responsáveis pelo triunfo no Sul –, o energético Cicinho, o bom garoto Gustavo Henrique e o sizudo Durval.

O meio-campo deverá ser formado por voluntarioso Renê Júnior, o espantoso Alison (ou o sortudo Renato Abreu), o técnico Cícero e o clássico Leandrinho (ou o aplicado Pedro Castro). No ataque, Claudinei deverá escalar o eficiente Thiago Ribeiro e o esforçado Everton Costa (ou o promissor Gabriel)

O Flamengo, do técnico Mano Menezes, que se valerá da vontade para buscar a vitória, deverá formar com Paulo Victor, Leonardo Moura, Wallace, Chicão e André Santos (ou João Paulo); Luiz Antonio, Víctor Cáceres, Elias e Gabriel; Rafinha e Hernane (ou Marcelo Moreno).

Time por time, o Santos é um pouco melhor e também está jogando um pouco melhor do que o Flamengo. Se o Alvinegro Praiano tiver tranquilidade, precisão nos passes e arremates e motivação, poderá até sair do Maracanã com nova vitória. Mas não deve esperar um adversário desanimado. O Flamengo vive aquele momento em que o perigo do rebaixamento faz o time correr mais.

Outro detalhe, sempre preocupante, quando se enfrenta um time “de massa”, é que, em dúvida, a arbitragem tende a favorecer a equipe de mais torcida, ainda mais quando esta joga em casa. Mas isso não pode ser uma preocupação dos jogadores. Se o árbitro anular um gol, que façam outro. Não haverá outro remédio. A propósito, a arbitragem será de Sandro Meira Ricci (PE), auxiliado por Alessandro Rocha de Matos (BA) e Rafael da Silva Alves (RS).

Montillo poderá voltar domingo

Conversei com Montillo ontem e ele me garantiu que já está quase bom e talvez possa jogar domingo.

Em 1995 o rubro-negro carioca montou o que chamavam de “o ataque dos sonhos”, com Romário, Sávio e Edmundo. Bastante badalado, esse time recebeu o Santos, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro de 1995. Veja o que deu:

O que você tem a dizer de Santos e Flamengo?


A real dimensão de Ronaldo. E o Pacaembu na final da Libertadores

Logo mais Ronaldo faz sua despedida da Seleção em uma partida contra a Romênia, no Pacaembu, em que os torcedores santistas também estarão torcendo… para que Neymar e Elano não se machuquem, claro, pois uma final da Libertadores, ao contrário do que pensa o técnico Mano Menezes, é muito mais importante do que esse joguinho caça-níquel contra a seleção da terra do Conde Drácula.

Em um jogo em homenagem a Garrincha, no Maracanã, Pelé roubou a cena, com um golaço. Espero que Neymar faça o mesmo hoje. Mas eu queria falar um pouco mais sobre o “Fenômeno”…

Jogador que se despede é como defunto fresco: todo mundo fala bem. Já ouvi os elogios mais desmedidos a Ronaldo. Um locutor o colocou entre os cinco melhores de todos os tempos. Opa, devagar com o andor…

Craque foi, sem dúvida – pelo drible, pelo arranque, pelo arremate e visão de gol – e mereceu ser escolhido o melhor do mundo ao menos em duas das três vezes em que isso aconteceu. Agora, existe futebol de bom nível há mais de 90 anos e cada ano teve um melhor do mundo, escolhido ou não pela Fifa. Então, vamos lá…

No Brasil, de onde saiu aos 19 anos e voltou apenas com 32, Ronaldo figuraria atrás de Pelé, Garrincha, Zizinho, Leônidas da Silva, Friedenreich, Romário, Rivelino e Zico. Para mim, viria, portanto, em nono, à frente de Sócrates e Falcão. Não conto Neymar e Paulo Henrique Ganso porque ainda estão escrevendo a sua história. E não sei dizer, ao certo, se Jairzinho, Gérson, Didi, Tostão, Pagão, Canhoteiro,Coutinho e Ademir da Guia foram menos craques do que Ronaldo.

No mundo, além dos brasileiros citados, eu diria que Maradona, Di Stéfano, Cruiff, Zidane, Eusébio e Beckenbauer foram mais completos do que o recém-aposentado. Messi também caminha para superá-lo.

Só foi decisivo em uma Copa, e ao lado de Rivaldo

Tem gente enchendo a boca para dizer que Ronaldo foi duas vezes campeão do mundo e uma vez vice. Ora, ele não jogou em 1994. Naquele Mundial, Viola, que entrou nos últimos 15 minutos, fez mais do que ele. Na final de 1998 ele teve aquele piripaque e em 2002 dividiu com Rivaldo a condição de melhor jogador brasileiro (se bem que pouco fez no jogo contra a Inglaterra, o mais difícil que o Brasil fez).

Aliciador de jogadores para a Europa

Não vejo nobreza alguma na nova profissão de Ronaldo, que na prática está atuando como agente de clubes europeus interessados em surrupiar os talentos do nosso futebol. Seria bem mais digno de sua parte se usasse sua empresa de representações para tentar algo inédito, que o faria bem mais respeitado, ou seja: usar sua imagem e seus contatos para manter no Brasil jogadores como Neymar, Ganso, Lucas…

Daria mais trabalho, pois estaria remando contra a corrente, mas seria bem mais digno. O que o futebol brasileiro ganha de ter muitos jogadores de destaque na Europa? Isso, qualquer país tem. Lá está cheio de atletas da África, Ásia, Caribe, América do Sul… O grande mérito seria criar condições para segurar nossos craques por aqui. O torcedor brasileiro merece…

E a diretoria do Santos escolheu o Pacaembu…

O Santos pode ser campeão da Libertadores em qualquer campo e estádio. Na Rua Javari ou no Maracanã. Só que o Morumbi comporta mais santistas. Não acredito que o Santos não jogará lá por superstição. Seria uma bobagem absoluta. Se o motivo foi político, a bobagem foi ainda maior. De qualquer forma, talvez nunca saibamos ao certo os motivos reais…

Se a maioria dos torcedores queria o Morumbi, acho que é o caso de a diretoria explicar porque escolheu o Pacaembu, que deixará de fora milhares de sócios que gostariam de ver esta final. Parece que o São Paulo não reduziu muito a taxa de aluguel (só baixou de 15% para 12%) e não abriu mão das cadeiras cativas. Azar do Juvenal. Ficará mais um ano sem ver uma final de Libertadores no Morumbi.

Telão na Praça Charles Miller

O leitor Pedro Rodrigues Gomes Simão dá uma ótima ideia: como o Pacaembu não comportará todos os santistas que quererão ver a final, o Santos poderia colocar um telão na Praça Charles Miller, o que estenderia o clima de decisão para fora do estádio, daria a mais torcedores a sensação de acompanhar o jogo histórico e passaria mais energia aos jogadores. Que tal?

O que Ronaldo representou para o futebol? E o que você achou da escolha do Pacaembu para a final da Copa Libertadores?


Quebra de hierarquia é desculpa de líderes medíocres para se livrarem de subordinados talentosos

Esse negócio de quebra de hierarquia é uma balela criada pelo mundo corporativo para, com raras exceções, perpetuar os medíocres no poder. Se você percebe que tem um chefe limitado, que está levando o barco pra naufrágio certo, o que você faz? Cruza os braços, e afunda quietinho, com todo mundo, ou toma as rédeas da embarcação?

Se trabalhasse em uma grande empresa, Paulo Henrique Ganso teria sido demitido por se recusar a sair de campo na final do Paulista, contra o Santo André. Porém, com uma visão do esporte bem acima da média, superior mesmo ao do técnico Dorival Junior, o rapaz insistiu em ficar em campo, segurar a bola e garantir o justo título ao Santos.

Como o precedente havia sido criado, Neymar talvez tenha achado que era só espernear e faria tudo o que quisesse em campo. Estava errado, claro – até porque, no seu caso, a porcentagem de pênaltis errados era muito grande, 50%. Porém, o assunto exigia uma conversa prévia do líder com o subordinado.

E o que Dorival fez? Passou um recado para Léo, que se esqueceu de dar ao garoto, só o fazendo no instante em que a penalidade seria cobrada. Neymar se sentiu traído. Ele sofreu o pênalti, assim como uma falta anterior, quase na risca da área, e nas duas vezes o bicão Marcel foi escolhido como o cobrador.

Acho que eu não reagiria com a mesma raiva, mas também ficaria cabreiro de criar as oportunidades e depois ver um profissional mediano ficar com as glórias. Quem mais errou, enfim, não foram Neymar ou Marcel, mas aquele que deveria ser o mentor do time e deixar tudo bem definido antes.

Que profissional competente já não quebrou a hierarquia?

Hierarquia é artifício criado pelas forças armadas e a igreja para manter a ordem, e por isso incorporada pelo mundo corporativo. Seria ideal se a sociedade fosse perfeita e as pessoas justificassem o poder que lhes é dado. Mas, infelizmente, não é assim. Quantos não ocupam cargos por parentesco com os superiores, por conveniência, por tempo de casa ou pelo velho e bom puxa-saquismo?

Segundo Peter Harazim, um dos maiores especialistas de Recursos Humanos do Brasil, a equipe ideal não tem um líder, pois todos sabem tão bem qual é o seu papel, que não é preciso alguém para dar ordens.

Reconheço que talvez eu me identifique tanto com o temperamento de Paulo Henrique Ganso e Neymar, porque, mesmo sem ser craque como eles, também já fui vítima dessa m… de “quebra de hierarquia”.

No meu último período de Jornal da Tarde, em 2002, quando era um dos editores do Esporte, fui demitido porque passei por cima do editor-chefe, Murilo Felisberto, e tentei direto com o Fernão Mesquita aumentar a ridícula verba de viagem do subeditor Dagoberto Azzoni, que iria para a África do Sul.

Vi o Dagoberto resmungando pelos cantos e tendei ajudar. Felisberto, com quem eu já tinha cometido a heresia de discutir antes, descobriu minha tentativa e resolveu me demitir. Quem me deu a notícia de que, após dez anos de casa e alguns prêmios, entre eles dois Esso, eu estava demitido, foi um editor que nem sabia desenhar páginas, era mal de títulos e copidescava sofrivelmente. Foi duro ter de engolir…

Um mês depois fizeram uma auditoria no jornal e Felisberto, que Deus o tenha, foi defenestrado por incompetência e por inchar a redação com a contratação de amigos. O mesmo editor incompetente que me deu a notícia de demissão também foi demitido, claro. Mas aí o mal já estava feito e a mediocridade tinha vencido.

Por essas e outras, que não aconteceram só comigo, mas com muitos outros colegas do Jornal da Tarde, é que o jornal virou essa coisa que é hoje, em que a hierarquia provavelmente é muito respeitada, mas as regras do bom texto e do bom jornalismo são violentadas diariamente.

Por isso não levo tão a sério esta “disciplina” que falsos moralistas pregam por aí. Da mesma forma que “se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perderia de ninguém”; eu afirmo que se disciplina fosse essencial, o Brasil jogaria a Copa com a Seleção do Exército.

O que decide mesmo é o talento, o dom de fugir da mesmice, de vislumbrar novos caminhos e ter a coragem de segui-los. O futebol brasileiro só é o que é pela irreverência de Friedenreich, Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé, Romário, Ronaldo, Robinho, Ganso, Neymar… O talento associado à irreverência faz o homem ir além do limite imposto por uma sociedade comandada por pessoas disciplinadas e… medíocres.

E você, também já quebrou hierarquias, ou está no time dos disciplinadores?


Neymar entrou para a história, assim como meu amigo Afonsinho há 40 anos

Afonsinho, da música do Gil, o jogador-doutor que mudou a Lei do Passe em 1970.

E este, bem, este é o Príncipe Neymar, dizendo não ao imperialismo do futebol europeu.

Ao recusar a proposta milionária do Chelsea, o garoto Neymar da Silva Santos Júnior fez história no futebol brasileiro com um gesto que pode ser comparado ao de Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, que há 40 anos se tornou o primeiro jogador de futebol a conquistar o direito de decidir sobre sua própria carreira.

Nascido em Jaú em 3 de setembro de 1947, o rebelde Afonsinho, cabeludo como os hippies da época, mas muito mais instruído do que os outros jogadores de futebol – já que era formado em medicina –, foi à Justiça contra a Lei do Passe que o prendia ao Botafogo do Rio, onde se sentia escravizado.

“Tive desentendimentos com Zagalo, o futebol estava deixando de ser uma coisa prazerosa e, nessa época entrei na Justiça reivindicando o direito de exercer minha profissão em outra equipe, uma vez que os cartolas do Botafogo não se dispunham a liberar meu passe. Não aceito interferência em minha vida, eles alegavam que eu tinha que cortar a barba e o cabelo, que era indisciplinado e coisa e tal. Mas o que estava por detrás disso era que eles queriam me aprisionar ao clube”, disse-me Afonsinho em um debate na PUC de São Paulo do qual participávamos.

Encontrei novamente Afonsinho no salão nobre do Fluminense, quando eu e José Carlos Peres fomos apresentar um painel para a imprensa carioca sobre a ratificação dos títulos brasileiros da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Além de ter sido um grande meia – que atuou em todos os times grandes do Rio e no Santos, ao lado de Pelé, em 1972 – Afonsinho deixou o nome na história por enfrentar e vencer a então escravizante Lei do Passe.

Ídolos comprados a preços de banana

Com a Lei Pelé, sancionada em 24 de março de 1998, o jogador não é mais escravo dos clubes – ao contrário –, porém outro tipo de escravidão cresceu e acorrentou nosso futebol às limitações econômicas e morais do País.

Depois de ganhar três Copas do Mundo – 1958, 62 e 70 – com todos os jogadores, titulares e reservas, em atividade no Brasil, a Seleção nacional se tornou uma verdadeira legião estrangeira e o torcedor passou a amargar seguidamente a frustração de ver seus maiores ídolos partindo para o exterior ainda imberbes.

Ídolos incomensuráveis foram embora por preços de banana. No início dos anos 80, Paulo Roberto Falcão, maior jogador do Internacional em todos os tempos, foi vendido à mediana Roma por 2,5 milhão de dólares; Zico, o Pelé do Flamengo, aquele que divide a história do clube da Gávea em antes e depois dele, abandonou o time mais popular do Brasil para jogar na pequena Udinese por 3,5 milhões de dólares, e Sócrates, o maior craque do Corinthians de todos os tempos, ao lado de Rivelino, transferiu-se para a Fiorentina por 3 milhões de dólares.

Quando Romário, aos 22 anos, foi vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, em 1988, por meros 5 milhões de dólares, esta foi, até aquele momento, as mais cara contratação de um jogador brasileiro.

Dez anos depois, em 1998, um outro recorde seria estabelecido: Denílson, 21 anos, do São Paulo, que se destacava pelos dribles, foi vendido pelo São Paulo ao pequeno Bétis, da Espanha, por 32 milhões de dólares.

Em 2003, duas jovens estrelas do futebol brasileiro seguiram o mesmo caminho: Kaká, aos 20 anos, foi negociado com o Milan por 10,3 milhão de dólares (hoje algumas fontes dizem que o valor foi de 8,5 milhões de euros, enfim…) e Diego saiu do santos para o Porto por 10 milhões de euros.

Em 2005, depois de espernear bastante, o Santos vendeu Robinho, 21 anos, ao Real Madrid, por 30 milhões de dólares, e em 2007 foi a vez de Alexandre pato, 18 anos, maior revelação do Internacional depois de Falcão, ir para o Milan por 20 milhões de dólares.

Tabelinha Neymar-Laor abre novos caminhos

Até ontem, parecia que o enredo seria o mesmo: o clube europeu escolhe quem quer no futebol brasileiro, faz a proposta, aumenta um pouquinho e espera sentado pela aprovação, já que a situação falimentar de boa parte dos nossos clubes nunca permite recusá-la.

Manifestado o interesse, outros acontecimentos, coincidentemente, costumam forçar a saída do craque: o rapaz começa a jogar mal, envolve-se em “escândalos extra-campo” alimentados diariamente pela mídia, a torcida pega no seu pé e no fim sua saída chega a ser pedida pelos torcedores.

Claro que essa crise final era plantada pelos agentes dos jogadores e pelos dirigentes do clube brasileiro, que manipulavam a torcida para iniciar a perseguição ao ídolo. Passional, o torcedor logo entrava na onda e chegava a se dizer aliviado com a evasão do craque.

Como os valores reais nunca eram revelados – numa clara sonegação de imposto de renda – as vendas de jogadores ao exterior sempre serviram a dirigentes desonestos para compensar regiamente a si mesmos o trabalho “voluntário” a favor do clube.

Alguém já acreditou na honestidade de um trabalho não remunerado de diretor de futebol, ou de presidente de um clube de futebol? Pode e deve ter existido, claro, mas não é isso que os bastidores do esporte contam. As histórias são muitas e variadas…

O agente, ou “empresário” Francisco Monteiro, o Todé, responsável por trazer Ronaldo ao Corinthians, deu uma entrevista ao Blog do Cosme Rímoli confirmando que José Eduardo José Mesquita Pimenta, presidente do São Paulo, “quis ganhar dinheiro às custas da venda do Mário Tilico”, caso que acabou provocando a saída de Pimenta da presidência do clube.

Se Luís Álvaro Ribeiro não fosse a pessoa íntegra que é, provavelmente não resistiria tanto à pressão para se desfazer de Neymar. Afinal de contas, até a imprensa já dava como certa a ida do jogador para a Europa. E entre uma dinheirama para lá e para cá, alguma parte jamais seria explicada, como aconteceram tantas vezes antes, em outros clubes e, provavelmente, no próprio Santos.

Parece brincadeira admitir que essa total falta de transparência era normal nas transações dos ídolos brasileiros, mas é assim mesmo que acontecia. Tudo por baixo do pano, sem contratos e valores definidos, tudo para acobertar o “por fora” que invariavelmente rechearia as contas bancárias dos dirigentes envolvidos.

Enfim, mais do que um recado histórico de que é possível manter os craques aqui no Brasil, a bela dupla titio Laor e garoto Neymar deram uma aula de amor ao Santos e ao futebol, de ética e honestidade.

É claro que seria muito mais fácil fechar o negócio. Todos entenderiam e a parte da opinião pública preocupada com o crescimento do Santos ficaria aliviada. Correr atrás de parceiros e acordos de marketing dá trabalho, exige criatividade, disciplina. Mas o Santos assumiu a luta com coragem e mostrou uma grandeza que não se encontra nem em estádios monumentais ou nos mais fulgurantes títulos. Uma grandeza que vem da alma.

Você tem alguma idéia de ações de marketing que o Santos poderia fazer para valorizar ainda mais o Neymar e compensá-lo por ter ficado no Santos?


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