Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Tag: Suborno

Quer três anos de casa e comida por conta do governo? É só brigar no estádio.

Imagine todos esses caras vestindo pijamas listrados.

Lembra daqueles tempos românticos em que você podia descontar, em um estádio de futebol, as frustrações da vida? Problemas em casa ou no trabalho, o time mal das pernas e você esquecia de tudo soltando sonoros palavrões contra o árbitro, os jogadores e os torcedores adversários. Ah, e se um inimigo estivesse por perto, indefeso e desacompanhado, você podia ir até lá, dar uns cascudos nele e ficava tudo por isso mesmo. Que delícia de tempos, não?! Pois nunca mais faça isso, ou pegará três anos de cadeia!

Não sei se você já sabe, mas leis mais rigorosas contra a violência nas praças esportivas foram aprovadas no Senado na quarta-feira passada. Agora, um estádio de futebol deixou de ser um território sem lei. Todos com capacidade superior a 10 mil espectadores terão de ter câmeras de vigilância para captar e gravar o comportamento dos torcedores.

Cânticos ofensivos, discriminatórios e racistas também serão punidos com detenção e proibição de assistir aos jogos por até três anos. As punições se estenderão a torcedores que praticarem ou incentivarem a violência não só no interior dos estádios, mas nas suas proximidades e em pontos de ônibus, trem ou estações de metrô que levem passageiros para os jogos.

As torcidas organizadas serão obrigadas a manter um cadastro de seus associados, com fotos e endereços, e serão responsabilizadas caso algum deles cometa infrações. As autoridades e os administradores de estádios e ginásios deverão colocar nas entradas e na internet a relação dos torcedores infratores.

Acabou também a mamata dos cambistas. Passou a ser ilegal vender ingressos por preço superior ao estampado no bilhete. A pena é de um a dois anos de prisão, além de multa. Se o cambista for servidor público, dirigente ou funcionário de entidade de prática desportiva, a pena será aumentada em 50%.

Mas jogadores, técnicos, árbitros e dirigentes do futebol não foram esquecidos. Caso se envolvam em suborno ou façam acordos para a fabricação de resultados, serão punidos com multa e pena de dois a seis anos de prisão.

A medida é providencial, pois mesmo nos países mais desenvolvidos o povo só assimilou as regras da boa conduta social depois de leis severas. Não seria o brasileiro que se transformaria em um ser humano melhor naturalmente.

Por outro lado, a ênfase à ordem e disciplina nos estádios já é uma conseqüência das necessidades da próxima Copa do Mundo, a ser disputada no país. Chegou, finalmente, o momento em que um estádio de futebol no Brasil deixou de ser o meio ambiente propício paras marginais e arruaceiros de toda espécie.


Matéria histórica reforça a tese de que o Brasil subornou árbitros para ganhar a Copa de 1962

Em 20 de fevereiro publicamos neste blog a matéria que fiz para a revista FourFourTwo na qual o ex-árbitro Olten Ayres de Abreu declara que o bandeirinha uruguaio Esteban Marino foi subornado para não comparecer ao julgamento de Garrincha, o que permitiu ao essencial jogador brasileiro – expulso na semifinal, contra o Chile – jogar a final contra a Tchecoslováquia.

Hoje, em mais uma preciosidade saída dos arquivos de Marcelo Fernandes, de Luxemburgo, trago uma reportagem do jornal espanhol “Barça”, publicado em 14 de junho de 1963, na Espanha, que reproduz matéria bombástica do periódico brasileiro Mundo Esportivo, dirigido pelo jornalista Geraldo Bretas, muito popular na época.

Nesta matéria, publicada no Mundo Esportivo em 24 de maio de 1963, Bretas denuncia e dá os nomes de quatro árbitros que teriam sido subornados para facilitar as coisas para a Seleção Brasileira no Chile: Sérgio Bustamente, chileno, juiz da polêmica partida Brasil e Chile, a última da fase de classificação; Pierre Schwinte, da França, árbitro de Brasil 4, Inglaterra 2, pelas quartas-de-final; Nokolai Latichev, da Rússia, que atuou na final Brasil 3, Tchecoslováquia 1, e Esteban Marino, do Uruguai, que foi bandeirinha dos jogos Brasil 2, Espanha 1, e Brasil 4, Chile 2.

Marino também era o bandeirinha do pênalti não marcado contra a Espanha

Se a denúncia de Olten, publicada na última FourFourTwo, já foi gravíssima – pois dá nomes e valores do suborno –, a ligação da matéria da FFT com a de 47 anos atrás, publicada pelo Mundo Esportivo e divulgada na Europa pelo jornal Barça, para mim não deixa qualquer dúvida de que o Brasil – alguém da delegação, da CBD ou do próprio governo – agiu para subornar árbitros e garantir o título na Copa do Chile.

Olten me disse que ouviu a história dos próprios Esteban Marino, bandeirinha uruguaio, e de João Etzel, húngaro radicado no Brasil e escolhido pela CBD para ser o juiz brasileiro na Copa. Marino e Etzel confirmaram a Olten que, Etzel conseguiu tirar Marino do Chile – e, conseqüentemente, do julgamento de Garrincha – oferecendo-lhe, a mando de não se sabe quem, a quantia de 15 mil dólares. Anos depois Marino reclamou a Olten que Etzel só lhe pagou cinco mil dos 15 mil dólares prometidos…

Nesta matéria que publicamos hoje, o jornalista Geraldo Bretas – que não divulga sua fonte mas deixa claro que se trata de pessoa ligada à delegação brasileira no Chile – dá o nome dos quatro árbitros que receberam propinas para não prejudicar o Brasil e anuncia os valores pagos ao trio de arbitragem de Brasil 2, Espanha 1: 2.500 dólares (186 mil pesetas) ao árbitro Sérgio Bustamante, do Chile; 300 dólares ao auxiliar Jose Antonio Sundheim, da Colômbia, e mais 300 dólares a Esteban Marino, do Uruguai.

Sim, o senhor Esteban Marino, o mesmo que era testemunha-chave e não compareceu ao julgamento de Garrincha, já teria sido subornado na partida vital contra a Espanha, que o Brasil, se perdesse, estaria fora da Copa. E a Espanha já vencia por 1 a 0 quando, no segundo tempo, na ponta-direita, do lado que Marino atuava, houve o pênalti de Nilton Santos que Bustamante, com o auxilio relutante de Marino, marcou fora da área. Na seqüência da jogada, a Espanha fez um gol legal (e lindo, de bicicleta), também anulado por Marino e Bustamante.

Veja neste filme sobre o jogo que o narrador diz que o jogador espanhol que faz o gol estava “fora de jogo”, mas é só parar a imagem para perceber que marcar impedimento neste lance seria absurdo, assim como não houve jogo perigoso na bicicleta, já que os jogadores brasileiro estavam distantes do espanhol.

A Espanha foi roubada duas vezes no mesmo lance

Em sua matéria, Bretas chega a citar o detalhe de que o árbitro Sergio Bustamante passou uma descompostura em Marino por ele, pressionado pelos espanhóis, ter demorado em afirmar que a falta tinha sido fora da área.

Jornalista polêmico, comentarista famoso da Rádio Tupi, Geraldo Bretas fundou o Mundo Esportivo em 1946 e sua publicação – que falava a linguagem do torcedor da arquibancada – chegou a uma tiragem de 150 mil exemplares. Porém, estas suas denúncias de suborno a árbitros na Copa do Chile lhe custaram caro. Passou a ser ameaçado de agressão nas ruas e nos estádios e por muitos anos foi taxado de antipatriota (Bretas faleceu em 6 de janeiro de 1981).

História totalmente plausível

Mesmo definida como sensacionalista, a verdade é que lida hoje, tantos anos depois, a matéria publicada no Mundo Esportivo não parece nem um pouco inverossímil. Bretas ressalta que apesar do francês Schwinte ter sido subornado, ele não precisou fazer nada errado para ajudar o Brasil, pois a Seleção venceu a Inglaterra por 3 a 1, limpamente.

Mas Bustamante, Marino e o russo Latichev fizeram jus ao “prêmio” que receberam. Bustamente pela atuação em Brasil e Espanha; Marino por Brasil e Espanha e por ter fugido do Chile antes do julgamento de Garrincha, e Latichev, que atuou na final, o que teria feito de errado?

Bretas afirma que na final o árbitro não teria dado um pênalti de Djalma Santos e que o gol de Zito teria sido marcado em posição irregular. Assisti de novo a vídeos do jogo e posso afirmar que, mesmo levando-se em conta que naquela época “mesma linha” era impedimento, Zito veio de trás e fez um gol legal, virando o marcador para 2 a 1. O que se pode alegar é que Zózimo cometeu falta no início da jogada, ao roubar a bola no campo do Brasil, e que Vavá também cometeu falta no zagueiro tcheco, derrubando-o e facilitando a cabeçada de Zito, na segunda trave.

Com relação ao pênalti de Djalma Santos, realmente ele deveria ter sido marcado. O Brasil vencia por 2 a 1 e os tchecos atacavam. A bola foi chutada a gol e interceptada pelo braço direito do lateral direito do Brasil. O toque foi visível e o braço estava bem afastado do corpo. Era um lance de perigo, pois a bola ia direto para o gol de Gylmar. Com o toque, ela foi amortecida e ficou de posse da zaga brasileira. É o tipo de lance que depende da interpretação do árbitro e ela sempre pende para quem sua senhoria quer ajudar.

Clique na linha abaixo para ver o filme da final e o lance de pênalti não marcado para os tchecos:

Pênalti claro de Djalma Santos não marcado na final

Com relação aos valores pagos no suborno, podem parecer pequenos hoje, mas à época o dólar valia muito mais com relação às moedas sul-americanas e os árbitros eram amadores, não ganhavam absolutamente nada para trabalhar. Comprá-los era bem mais barato do que contratar um grande jogador.

Verdade histórica, o único objetivo

Muitos leitores se incomodam com este tipo de matéria. É bem mais agradável, obviamente, criticar os argentinos por terem ganho duas Copas roubadas (a escandalosa de 1978 e o gol de mão de Maradona em 1986). Não é fácil admitir que o Brasil, mesmo tendo uma grande equipe – que talvez fosse campeã sem precisar de auxílios inescrupulosos –, agiu nos bastidores para assegurar que o bicampeonato mundial seria conquistado no Chile.

Que houve suborno a árbitros em 1962, creio não restar mais qualquer dúvida. Leia a matéria reproduzida neste post, leia novamente a reportagem da FourFourTwo, publicada neste blog em 20 de fevereiro, veja os vídeos anexados e chegue à sua conclusão.

As perguntas que ficam no ar são: Quem teria ordenado o surborno? De onde veio o dinheiro para os bolsos dos árbitros? João Havelange, o presidente da CBD, estaria por trás disso? Olten Ayres de Abreu garante que não. Então, foi o “Marechal da Vitória”, Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record e um dos homens mais poderosos do Brasil à época? Ou o próprio governo federal entrou na história?

Não podemos nos esquecer de que vivíamos o auge do “jeitinho brasileiro”, em que ser “esperto” e “levar vantagem” não eram atitudes condenadas. Ao contrário. Eram estimuladas por boa parte da sociedade. Bretas escreveu em sua matéria: “Claro que as pessoas imorais da embaixada futebolística brasileira no Chile (não foram todas) fizeram seu trabalho com todo sigilo. Alguns se deixaram levar pela língua, contando sua atuação com um certo orgulho”.

Estes, que bateram com a língua nos dentes, foram as fontes de Geraldo Bretas e Olten Ayres de Abreu. Graças à essa estranha vaidade, ao orgulho de passar os outros para trás, é que a verdade parece ter surgido, após tanto tempo. Quanto a mim, não tenho a menor dúvida de que jogo sujo dos bastidores beneficiou o Brasil em 1962, como beneficiou outros países em outras Copas. Aliás, quase todos os Mundiais tiveram suas sujeiras. E mais cedo ou mais tarde elas acabam saindo debaixo do tapete.

E você, meu caro leitor e leitora, ficou convencido(a) de o Brasil subornou árbitros para garantir o título da Copa de 1962? Que outras Copas, na sua opinião, teriam sido roubadas?


Suborno que beneficiou o Brasil na Copa de 1962, um furo da revista FourFourTwo, foi matéria no programa Esporte Espetacular, da TV Globo

Veja a reportagem que a TV Globo levou ao ar ontem pela manhã e depois confira a matéria na íntegra na edição da FourFourTwo que está nas bancas. 

Clique aqui: Furo da FourFourTwo foi matéria no Esporte Espetacular, da TV Globo


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