Antes de mais nada, vamos combinar: este Al-Saad é o pior time que já disputou um Mundial. Acho até que chamá-lo de time é um elogio. Qualquer equipe da Série C do Campeonato Paulista golearia este campeão do Oriente Médio. Portanto, estes 4 a 0 obtidos pelo Barcelona, hoje, nada significam como parâmetro para a decisão de domingo, contra o Santos.

Não fossem dois erros grosseiros de sua defesa e o time do Catar provavelmente terminaria o primeiro tempo empatado com aquele que é considerado o melhor do mundo. Fosse uma equipe brasileira, mesmo sem expressão, mas com a técnica e a malícia dos jogadores brasileiros, e o Al-Saad certamente teria complicado a vida do Barcelona, da mesma forma que o bom Kashiwa Reysol complicou para o Santos.

Por falar em brasileiros, foram eles, com sua eterna fome de gol, que resolveram as coisas para a equipe catalã, que às vezes toca, toca, toca, mas não define. Adriano, duas vezes, e Maxwell marcaram três dos quatro gols do jogo e simplificaram algo que os companheiros estavam complicando.

Este não é o melhor time de todos os tempos

Mesmo com a equipe recheada de reservas, foi possível, mais uma vez, perceber como o Barcelona impõe sua filosofia de jogo, que é manter a posse da bola a maior parte do tempo. É eficiente? Sim. Mas não se pode comparar este estilo com o do grande Santos dos anos 60, ainda hoje considerado o melhor time de futebol que já existiu.

Há um quê de covarde e excessivamente pragmático ao se recuar uma bola do meio-campo ao goleiro, a fim de se recomeçar a jogada do zero (ainda mais contra o inofensivo Al-Saad). Pode ser eficiente do ponto de vista tático, mas burla a expectativa do público, que não gosta de ver times refugando uma possibilidade de ataque. O grande Santos não fazia isso. Podia correr mais riscos, mas os enfrentava sem medo e essa coragem, às vezes temerária, cativava o público.

Por mais que os técnicos criem táticas para aumentar as chances de vitória e diminuir sua possibilidade de perder o emprego, o povo gosta dos campeões destemidos, tipo Cassius Clay, que baixava a guarda e ia para cima do rival com o rosto descoberto. Este Barcelona escancara suas qualidades e mascara seus defeitos, mas está longe de ser uma equipe apaixonante, como o Santos de Pelé, Pagão, Coutinho, Pepe, Dorval Mengálvio, Carlos Alberto, Zito, Mauro, Gylmar, Lima, Clodoaldo, Joel, Edu e tantos outros craques.

Posse de bola gera efeito mais psicológico do que prático

Assim como há jogadores que preferem as firulas do que as jogadas objetivas, este Barcelona parece gostar demais de ter a bola sob seu controle. Gosta tanto, que reluta em se desfazer dela, mesmo para chutar a gol.

A questão é que a posse de bola, mesmo quando não muito objetiva, acaba quebrando a moral do adversário. O anseio do jogador de futebol é tocar na bola, é tentar jogadas, é, enfim, jogar. Ficar correndo de um lado para o outro atrás do adversário é frustrante, principalmente para quem está acostumado a ser o centro das atenções.

Ao impedir que o adversário jogue, o Barcelona vai, aos poucos, minando sua resistência, fazendo com que o inimigo, humilhado, se conforme com a derrota diante de um rival potencialmente superior.

Muricy prepara o antídoto

Percebi que o técnico Muricy Ramalho está preocupado com a sensação de abatimento que pode tomar conta dos santistas se forem colocados na roda pelo time espanhol. Ele tem dito que posse de bola é importante, mas não é ela que ganha jogo. Concordo.

Na Libertadores, o Santos ganhou jogos nos quais também não teve o controle da bola. O importante é, mesmo que tenha de tomar uma posição defensiva, manter a mentalidade ofensiva, ou seja, estar sempre preparado para dar o bote e ir pra dentro do adversário.

Assim como, apesar do domínio do jogo, foram duas falhas graves da defesa do Al-Saad que proporcionaram os primeiros gols do Barcelona, domingo o Santos estará esperto para roubar bolas que poderão definir o Mundial.

Por outro lado, dar espaço ao Barcelona pode ser um péssimo negócio. Com tranqüilidade para trabalhar a jogada, até seus bons reservas se destacam e criam a falsa impressão de que a equipe é coalhada de craques. Mas, se forem apertados ocasionalmente, principalmente na saída de bola, duvido que seus jogadores mantenham o ar blasé de quem entra em campo apenas para cumprir obrigação.

A única batalha realmente dura que o Barcelona tem tido é contra o Real Madrid, que, com todo o respeito ao ex-time de Robinho, não tem a mesma capacidade competitiva do Santos. Com um ataque que depende dos arranques de Cristiano Ronaldo, o Real positivamente não tem o poderio ofensivo do Santos.

Então, só pra resumir: acho que Muricy preparará os jogadores do Santos para não se abaterem com a maior posse de bola do adversário, mas para irem pra cima com vontade logo que a recuperarem. E estou quase certo de que o Alvinegro apertará a saída de bola do time catalão.

A perda de Villa e o ponto fraco do Barça

Mais do que a perda de David Villa, que fraturou a perna esquerda, a contusão de Aléxis Sánchez, que saiu de campo com dores no músculo da coxa, pode representar uma perda importante para o técnico Pep Guardiola, já que Aléxis seria o reserva de Villa no jogo contra o Santos.

Porém, como poderá contar com Messi, Xavi, Iniesta, Fábregas & Cia, não creio que o Barcelona perderá muito com a ausência desses jogadores. Perderia mais se um zagueiro titular ficasse de fora da decisão. Algo me diz que, se apertados, esses becões do Barça confessam.

Acostumados a jogos em que não são atacados, em que o adversário se junta lá atrás e lhes oferece três quartos do campo para manobrar, esse Barcelona não sabe o que é passar aperto e sua zaga só joga na sobra, pegando os chutões da defesa adversária. Gostaria de ver o Santos partindo com a bola dominada pra cima dos grandalhões Puyol e Piqué e do errático Daniel Alves.

Algo me diz, ainda, que o Barcelona jamais enfrentou um adversário com tantos recursos ofensivos como o Santos. Um adversário, na verdade, que é sua antítese, pois não faz questão de ficar muito termpo com a bola, mas faz questão de fazer gols.

Santos tem de querer mais este título do que o Barça

Como já foi dito aqui e sempre é bom repetir: o que fará o campeão, domingo, é a vontade. Por mais que a imprensa esportiva brasileira babe ovo para o Barcelona, os jogadores dos times que farão a final se equivalem. Se há uma diferença, e há, ela é tática, mas não é decisiva.

O jogador do Santos não pode entrar em campo apenas para fazer um bom jogo. Tem de entrar em campo para ser campeão. O time não abriu mão de todo o segundo semestre apenas para ser o coadjuvante da final. O Santos só pensou no título mundial desde que conquistou a Copa Libertadores, e a hora chegou. Não há mais nada entre o Santos e o seu sonho realizado, a não ser uma partida.

Querer, querer mais fará ganhar as divididas, chegar primeiro na bola, chutar com precisão, ligar todos os sentidos, o tempo todo, em busca da vitória. Por isso, acima de tudo, é preciso querer muito, do primeiro segundo aos acréscimos. E continuar querendo se o time estiver ganhando ou perdendo.

É preciso gostar do ataque e da defesa, gostar de estar ali, jogando uma partida que todos os jogadores do mundo queriam jogar. E jogando com alegria, sem medo, só com vontade, muita vontade de vencer e ser campeão. Nesta hora, não importa quem está do outro lado. É preciso fazer valer a sua vontade. Que se estrepe o que o Barcelona quer. O Santos tem de querer mais. Isso é o que faz um campeão do mundo!

E você, o que achou do Barcelona hoje? Dá pra encarar?