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Comodidade é tudo o que o futebol brasileiro não precisa

comodismo

O técnico Oswaldo de Oliveira disse que o Santos vai jogar na Vila Belmiro contra a Chapecoense, em vez do Pacaembu, como estava previsto, porque, entre outros motivos, é mais cômodo. Ora, a última coisa da qual o Santos e o futebol brasileiro precisam no momento é de comodidade.

O clube necessita de maior visibilidade – para conseguir um patrocinador máster – e de mais dinheiro em caixa, já que as despesas crescem mais do que o faturamento. E o futebol brasileiro carece de mais trabalho para sair dessa mesmice.

Nem vou comentar a indicação de Dunga para técnico da Seleção. Trata-se de uma apologia ao retrocesso. O ideal era trazer um bom técnico estrangeiro. O jogador brasileiro precisa de disciplina, preparação física, apuro tático e humildade para treinar fundamento. E não é só treinar, é treinar muiiiito.

Lembro-me de um jogo na Inglaterra, entre a Seleção Brasileira e o English Team, em que o público aplaudiu uma matada perfeita de um jogador brasileiro. A bola viajou de um lado a outro do campo e morreu no pé do lateral do Brasil. Admirados, os ingleses festejaram o lance.

Nesta malfadada Copa vi jogadores brasileiros matando de canela, errando passes de três metros, pecando em fundamentos que antes eram obrigatórios para quem se atrevesse a vestir a sagrada camisa canarinho.

Trabalho, trabalho, trabalho… É só a velha e boa labuta, embaixo de sol e chuva, que pode tirar o Santos e a Seleção Brasileira do buraco. Quem podia pensar em comodidade é a Alemanha, a legítima campeã do mundo. Mas aposto que lá o título motivou ainda mais técnicos e jogadores. Aqui, como se dizia há algum tempo, querem que o mundo acabe em barranco para morrerem encostados.

E você, o que achou da opção de Oswaldo Oliveira pela cômoda Vila Belmiro?

O Hipnotizador

Olha que ideia legal. Eu aprovo. E você?
Arquitetos sugerem que estádios elefantes brancos se tornem casas para sem teto

hipnose
Olhe fixamente para o centro dessa figura. Sinta um sono suave chegando mansamente…

Vendo os jogadores do Santos passarem por eles, sujos, amarfanhados, exaustos, mas tranqüilos, expressão de dever cumprido no rosto, dois seguranças do clube confessam seu espanto à meia voz, na porta do vestiário do estádio de Volta Redonda:

- O que deu nesses caras hoje, hein?

- Sei lá, parecia que estavam tomados. Nunca vi jogando tanto assim.

- Viu aquele gol do Gabriel? E aquele do Lucas Lima? E o do Diogo? E parece que queriam mais. Em vez de segurar a bola, o time ia pra cima… Caramba…

- É, meter 5 a 1 no Fluminense aqui em Volta Redonda e ainda terminar buscando o sexto…

- Parecia que estavam com o diabo no corpo.

- É, uma coisa estranha mesmo. O que será que o novo técnico falou pra turma, hein?

- Sei lá. O cara é muito estranho. Se fechou só com os jogadores no vestiário e proibiu que dessem entrevistas antes e depois do jogo.

- E agora vai se fechar de novo com os caras. Quer ficar sozinho com o time. Nem o presidente pode entrar. Ninguém.

- Estranho, nunca vi um técnico fazer isso.

- É, mas deu certo, não deu? O Santos sempre fazia um jogo modorrento fora de casa, parecia ter medo até da sombra, mas hoje foi pra cima, mandou na partida, fez os gols e podia fazer mais. Só pode ser coisa desse técnico novo.

O bate-papo é interrompido quando os seguranças pressentem a aproximação de um homem alto, de ombros largos, pisando firme em sua direção. O homem pálido se aproxima, volta o olhar penetrante para eles e ordena:

- Todos os jogadores já estão no vestiário. Falarei com eles agora. Não deixem que ninguém entre. Obrigado.

Os seguranças obedecem sem titubear. Um deles ainda cochicha:

- Como ele sabia que todos os jogadores já tinham chegado?

A porta é trancada por dentro. O homem, que veste um sobretudo preto, se coloca no centro do ambiente, rodeado pelos bancos, onde os jogadores esperam, sentados e quietos.

- Atenção – diz ele em tom alto e grave.

Quando se certifica de que todos os olhares estão voltados para ele, ergue as duas mãos e bate duas palmas bem alto.

Os jogadores reagem com um arrepio, como se tivessem despertado de um longo sono, ou sonho.

- Parabéns pela bela vitória – diz o homem, com voz soturna.

Os jogadores se olham. Arouca, um dos mais velhos, cria coragem e pergunta:

- Ãhhhh… Nós… nós ganhamos, professor? De quanto?

- 5 a 1. E poderia ter sido mais…

- Jo-jogamos na Vila, professor? – pergunta Geuvânio.

- Não, em Volta Redonda, mando de jogo do Fluminense.

Os jogadores se olham, incrédulos. O técnico arremata:

- Mas jogaram como se estivessem na Vila, porque eu pedi.

Do lado de fora do vestiário, dois dirigentes santistas, felizes com a goleada, mas aborrecidos por não poderem entrar, comentam:

- Bem que me disseram que esse técnico ia fazer milagres.

- De onde ele veio?

- Romênia, região da Transilvânia.

- Ah, e como é que o Santos chegou até ele?

- Indicação. Uma fonte segura me disse que só ele faria esse time jogar como o Santos de Pelé, tanto dentro como fora de casa.

- Você já conhecia ele?

- Não, mas na Transilvânia é muito conhecido. Mora num castelo. Trabalha no futebol por prazer. Por isso aceitou ganhar um terço do Oswaldinho.

- Ah, que louco… E o que falam dele lá?

- Que pode tirar o máximo de cada jogador, que com ele os jogadores não têm preguiça nem medo… E, como vimos hoje, sempre jogam pela vitória, dentro ou fora de casa.

- Caramba, então o sujeito é um mágico?

- Quase isso. Lá ele é conhecido como O Hipnotizador.

O futebol, como a vida, é sonho

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Personagens vivos dos nossos melhores sonhos

Hoje assisti a um documentário sobre o poeta baiano Waly Salomão, guru da contracultura e do tropicalismo, falecido em maio de 2003, aos 59 anos. Chamou-me atenção um verso seu – curto, direto, mas incisivo – que exprime muito do sentimento do torcedor santista. Reproduzo-o no vídeo abaixo.

Torcer pelo Santos, reconheço, não é simples. Nosso time já foi o melhor do planeta, já ostentou os melhores jogadores e, entre eles, o Rei Pelé. Sentimo-nos, às vezes, como se tivéssemos perdido um grande amor – que se foi para longe, ou morreu, o que dá no mesmo.

Sentimo-nos viúvas não só de Pelé, mas do Santos que aprendemos a amar. O Santos com o líder dos líderes Zito, o guerreiro dos guerreiros Clodoaldo, o lateral dos laterais Carlos Alberto Torres, o centroavante dos centroavantes Coutinho, o zagueiro dos zagueiros Mauro Ramos de Oliveira, o goleiro dos goleiros Gylmar, o ponta artilheiro dos pontas artilheiros Pepe…

Sim, entendo a dor e a revolta de alguns santistas – que, na sua raiva, voltam-se até contra mim. E por que contra mim? Porque, malgrado toda a dificuldade do momento, toda a incerteza que cerca o futuro do Alvinegro Praiano, eu continuo sonhando. Continuo e sonharei até o último segundo de minha vida.

Pois, meus amigos, como exprimiu, e exprime o admirável Waly Salomão, o sonho jamais poderá morrer enquanto houver vida. Uma coisa está umbilicalmente ligada à outra.

Mas, este é o grande detalhe, não sonho o sonho estático, contemplativo, estritamente onírico. Sonho o sonho que se busca, que se constrói, que nos move pela vida afora. Este é o sonho vital que nos tira da cama todos os dias, o oxigênio que respiramos.

Neste sábado, o humílimo Chapecoense enfrentou aquele que o locutor Luiz Roberto chama de “time das estrelas” e, diante de 40 mil pessoas, no Morumbi, enfiou-lhe um estrondoso 1 a 0. Enquanto isso, em Minas Gerais, o não menos limitado Bahia arrancou um empate diante do Atlético Mineiro. O que isso significa?

Que o futebol vive tempos áridos, em que nomes famosos e jogadas vistosas pouco ou nada valem diante de equipes determinadas a usar seus músculos e fôlegos em busca de um melhor resultado. Assim como Costa Rica e Argélia mostraram na Copa, a aplicação tática e o espírito de luta podem produzir milagres.

É evidente que nossos sonhos de santistas são mais exigentes do que isso. Queremos ver essa mesma entrega que costarriquenhos e argelinos mostraram no Mundial, mas também queremos arte, beleza, refinamento. Por enquanto, assim como os outros torcedores brasileiros, não temos. Mas nada impede que continuemos a sonhar. Ao menos enquanto estamos vivos…

Feche os olhos e me diga qual é o Santos dos seus sonhos

O momento é dos jovens, não de astros decadentes

mena e Diogo
Mena e Diogo mergulham na bola (Divulgação Santos FC)

Com gols dos jovens Bruno Univi e Alison, cada um em um tempo, o Santos ganhou com justiça do Palmeiras por 2 a 0, ontem, na Vila Belmiro, e saltou para a quinta posição no Campeonato Brasileiro. Mas o que interessa mesmo é que com essa garotada o que não falta é vontade. Na defesa e no ataque.

A defesa continua sem sofrer gols – mesmo sem Edu Dracena, Gustavo Henrique e Jubal – e o ataque continua criando oportunidades e fazendo seus golzinhos. Mesmo desfalcado, o Palmeiras sempre merecerá respeito. Afinal, dizem, costumava ganhar do Santos na Vila. Costumava… Desta vez, nem a estreia do técnico Gareca impediu o triunfo do Alvinegro.

Depois do vexame da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, o cão negro do óbvio ululante uiva nos nossos ouvidos que o momento é de renovação. Talvez não surja nenhum grande craque desse bando de garotos, mas ao menos o torcedor santista terá alguma esperança.

Contra o Palmeiras, Lucas Lima e Arouca foram os melhores do jogo. O estreante Victor Ferraz não impressionou e ainda saiu machucado. Bruno Uvini fez seu primeiro gol pelo Santos e mostrou bom espírito e caráter. Gostei do garoto. Lá atrás, Aranha garantiu a vitória.

Na quarta-feira, o locutor Luiz Roberto, tão bonzinho que parece animador de festa infantil, repetiu que o São Paulo é um time “cheio de estrelas” e por isso será favorito ao título brasileiro, no que foi apoiado, com entusiasmo, pelos comentaristas Caio e Casagrande.

Não tenho bola de cristal para dizer quem será o campeão, mas será ruim para o futebol brasileiro se uma equipe recheada de veteranos ficar com o título. Lembro-me que há 12 anos, quando os Meninos da Vila Robinho, Diego & Cia foram campeões brasileiros, o tricolor do Morumbi já contava com Rogério Ceni, Kaká e Luís Fabiano. Hoje eles estão bem mais velhos e menos eficientes.

Dos novos contratados, Pato parece ter vindo para ficar na reserva e só Alan Kardec parece acrescentar alguma coisa, mesmo sem ser um craque. Quanto ao Ganso, vive de altos e baixos. Não creio que uma vitória sobre o indigente Bahia seja motivo para grande entusiasmo. Vamos ver esse São Paulo contra um time ao menos competitivo.

Ganhar um clássico é outra coisa e fico imaginando que barulho não se faria caso o Palmeiras fosse vencido com tamanha propriedade pelos outros times da capital. Não se pode esquecer que até antes do jogo o alviverde estava a apenas um ponto do Santos. Com a vitória, o Alvinegro Praiano vai para 17 e só não entra no G4 por ter uma vitória a menos do que o Sport.

Nosso grande Zito sofreu um AVC

Às 22h30m recebi a notícia de que o grande, o enorme Zito, o jogador mais importante da história do Santos depois de Pelé, sofreu um AVC e está internado em estado grave. Não tenho mais informações.

Gilmar Rinaldi não!!!

O empresário de jogadores Gilmar Rinaldi é o novo coordenador da Seleção Brasileira e já disse que o próximo técnico continuará sendo brasileiro. Ou seja: as coisas não só não mudarão, como poderão piorar. Pressinto que o ex-goleiro de Internacional e São Paulo não terá vida longa no cargo.

Santos 2 x 0 Palmeiras, às 19h30m, na Vila Belmiro

Santos: Aranha; Victor Ferraz (Zeca aos 11’2ºT), David Braz, Bruno Uvini (Paulo Ricardo aos 46’2ºT) e Mena; Alison, Arouca (Souza aos 42’2ºT) e Lucas Lima; Geuvânio, Rildo e Gabriel. Técnico: Oswaldo de Oliveira
Palmeiras: Fábio; Wendel, Tobio, Wellington e Marcelo Oliveira; Josimar (Mendieta aos 14′/2ºT), Renato, Wesley e Bruno César (Érik aos 20′/2ºT); Diogo e Leandro (Eduardo Júnior aos 33’2ºT). Técnico: Ricardo Gareca.
Gols: Bruno Uvini aos 23 minutos do primeiro, Alison aos 23 do segundo.
Arbitragem: Raphael Claus, auxiliado por Rogério Pablos Zanardo e Marcio Luiz Augusto, todos de São Paulo.
Cartões amarelos: Gabriel (Santos); Wellington e Marcelo Oliveira (Palmeiras).

E você, acha que o momento é dos jovens, ou não?

O mau marketing está matando o futebol brasileiro

Teoricamente, marketing é uma coisa boa. Divulga, gera interesse por assuntos ou pessoas. Mas o marketing utilizado no futebol brasileiro tem mais atrapalhado do que ajudado. Tornou os melhores jogadores individualistas, narcisistas, e resolveu que apenas um ou dois clubes merecem atenção especial da mídia.

Recebo reclamações dos amigos santistas de que Santos e Palmeiras era um jogão para ser valorizado e transmitido no horário nobre desta quarta-feira. Realmente. Não seria favor algum. Em campo, teremos 16 títulos brasileiros e quatro Libertadores; o clube que recentemente revelou Neymar e aquele que está construindo, com dinheiro e risco próprios, a melhor arena do futebol brasileiro.

Como não há nenhuma pesquisa à mão, dou uma olhada na Timemania de quatro dias atrás e constato que as 988.000 apostas, em todo o Brasil, deixaram o Santos em terceiro lugar na preferência do torcedor, e o Palmeiras em sexto. Inegavelmente trata-se de um clássico nacional, de dois times que têm torcedores em todo o País.

Em vez de promover o espetáculo futebol, fortalecer os grandes clubes igualmente e incrementar a competivididade, a televisão adota o marketing direcionado, político, com o fim específico de dar mais visibilidade aos seus times preferidos e alterar o equilíbrio do futebol brasileiro. A lição da Alemanha terá muita dificuldade de vingar no Brasil, de superar a reserva de mercado que se pratica por aqui.

O individualismo como resultado da necessidade de aparecer

Um pouco antes de sofrer a joelhada, Neymar tinha perdido a bola duas vezes no meio de campo tentando fazer jogadas sem nenhum sentido prático para o time. Em uma delas arriscou um chapéu no meio de campo, atrasando o ataque. Da mesma forma, um pouco antes da avanlanche de gols da Alemanha, o zagueiro David Luiz foi visto parado na área adversária, como se fosse um atacante, deixando um buraco na defesa brasileira.

O lateral-esquerdo Marcelo liberou uma free way pela direita do ataque alemão; Hulk tentou chutar a gol de qualquer ângulo e Oscar só faltou levar a bola para casa. Muitos jogadores brasileiros jogaram apenas para si mesmos. É verdade que a Seleção Brasileira precisa de uma reformulação tática e, por que não, de um técnico estrangeiro que sacuda esse marasmo de Felipões, Parreiras, Manos, Tites e quetais, mas também não se pode negar que a vaidade e a falta de espírito de equipe do jogador brasileiro têm grande parcela de culpa no vexame sofrido nesta Copa.

E por que o jogador do Brasil não fez o jogo de marcação que deveria ser feito, e que tornou mesmo as modestas Costa Rica e Argélia adversários dificílimos para os grandes favoritos? Ora, porque o brilho individual, que vem com o gol ou uma jogada de efeito, é o que dá mais visibilidade e ganha mais espaço na mídia.

Nem digo apenas imprensa, pois o Youtube é, hoje, a mídia eletrônica mais assistida no mundo – e nela os jovens fãs do futebol só querem ver gols, dribles e jogadas vistosas. A eficiência dos zagueiros não interessa à nova geração do futebol, nem aos homens do marketing. Para se destacar e, com isso, atrair patrocinadores e aumentar o faturamento, o jogador precisa ousar, aparecer. A sóbria eficiência dos grandes defensores está em baixa.

A generosidade dos verdadeiros craques

Os gênios do futebol, por enxergarem além, também foram generosos, souberam associar o seu sucesso pessoal ao sucesso do time em que jogavam. Veja Garrincha, indo sempre à linha de fundo para dar gols e glória a companheiros que só tinham de empurrar a bola para as redes. Veja Maradona, driblando vários adversários para servir a Caniggia o gol que eliminou o Brasil na Copa de 1990. E, acima de tudo, veja Pelé.

Os filmes que se fizeram sobre o Rei do Futebol e a admiração que seus 1.282 gols provocam, podem ter deixado em muitos a ideia de que Pelé também era individualista, que a todo momento estava tentando driblar dois, três, quatro jogadores para fazer gols de placa. Não é verdade e, para provar isso, consegui encontrar um vídeo muito interessante que mostra bem o lado solidário e, repito, generoso do Rei.

Como veremos a partir da metade do vídeo abaixo, Pelé era tão preciso no passe como nos outros fundamentos. Ocorre que nem sempre seus companheiros concluiam bem as jogadas, que acabaram esquecidas, já que não terminaram em gols. Mas repare que até no passe Pelé coloca a força e o efeito exatos. Já não se vê mais passes assim no futebol.

Destaco os lances da partida contra Portugal, pela Copa de 1966, em que mesmo com a perna enfaixada e mancando – estava machucado, mas as substituições eram proibidas –, Pelé acerta passes precisos. Esse espírito de equipe, tão comum nos craques brasileiros de outras épocas, faltou a muitos jogadores que representaram o Brasil nesta malfadada Copa.

E você, não acha que o mau uso do marketing está matando nosso futebol?