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Carlos Miguel Aidar deve liderar a luta contra a espanholização

Carlos Miguel Aidar 2carlos miguel aidar
Carlos Miguel Aidar como eu o conheci, e como está hoje, novamente presidente do São Paulo. Um dirigente que pode liderar a luta contra o monopólio da Globo e a espanholização do nosso futebol.

Conheci Carlos Miguel Aidar na casa de um amigo comum, o Nelson Blanco, há muitos anos. Discreto, simpático, Aidar mal falou sobre seus planos para a presidência do São Paulo, cargo que ocuparia de 1984 a 1988. Agora ele volta a dirigir o clube do Morumbi e já anunciou que uma de suas metas é unir os clubes descontentes com a divisão de cotas da tevê, lutando contra a espanholização que a Rede Globo quer impor ao futebol brasileiro.

Imaginei que o Santos é que fosse encampar essa luta, como um dos mais prejudicados por essa divisão que não leva em conta o currículo dos clubes, nem sua importância para a história do futebol. Cheguei a prevenir Luis Álvaro Ribeiro sobre isso durante um café que ele ofereceu aos blogueiros santistas logo que assumiu o cargo, em uma época em que nossas relações ainda eram cordiais. Porém, animado com o aumento da cota que o Santos receberia, Laor não me deu ouvidos. Ele não percebeu que de nada adiantaria o Santos receber mais se a diferença para os dois privilegiados aumentaria a cada ano, até escavar um abismo enorme e insuperável.

A partir de 2016 o Santos receberá 80 milhões de reais por contrato com a Globo, exatamente metade do valor que será destinado a Flamengo e Corinthians. O São Paulo ficará com 110 e os demais grandes do Brasil com 60 milhões. A espanholização, como um cavaleiro do apocalipse, vem a galope para ceifar a competitividade que ainda embala nosso futebol.

Nos próximos dias o novo presidente do São Paulo e o seu vice de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, deverão iniciar os contatos com Santos, Palmeiras, Fluminense, Cruzeiro, Botafogo, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro e Bahia, todos integrantes do dissolvido Clube dos Treze, para traçar uma estratégia de negociação com a Rede Globo.

O monopólio que a Globo exerce no futebol acabou lhe dando o poder de estabelecer que time será realmente grande e qual deverá se conformar com uma posição subalterna. A Espanha é o maior exemplo do que a preferência por dois times pode fazer com os clubes de futebol de um país.

Até meados dos anos 60, Barcelona e Atlético de Madrid se equivaliam em títulos e visibilidade. Hoje o Barça, assim como o Real Madrid, recebe 120 milhões de euros da tevê, enquanto o Atlético apenas 42 milhões. É quase impossível ser competitivo assim. A exceção pode ocorrer em uma ou outra temporada, mas não se iluda: a capacidade de investimento do time catalão é infinitamente maior.

No Brasil, que vive fase de grande populismo e péssima administração de recursos – não me venha dizer que um país que prefere gastar bilhões em uma Copa e esquece saúde e educação tem preocupações sociais sinceras –, os times considerados mais populares já são beneficiados com patrocínio de estatais, auxílio-estádio e rolagem infinita da dívida. A preferência da tevê é a cereja do bolo que faltava para perpetuar a desigualdade.

Meritocracia já!

Hoje na divisão de cotas da tevê não há lugar para o mérito esportivo. O dinheiro é dividido de acordo com a quantidade de torcedores dos clubes. Se um dia a Fifa fizer isso, um time chinês provavelmente receberá mais dinheiro do que os grandes europeus. Por esse critério, times que tiveram mais relevância técnica em sua existência são preteridos por outros “mais populares”. O “critério econômico” prepondera.

O que Aidar e Gil Ferreiro propõem é exatamente o que este blog sugere há anos: que a divisão de cotas siga os modelos bem-sucedidos da Inglaterra ou Alemanha, pelos quais metade da verba total é dividida entre todos os participantes da divisão principal do campeonato nacional (no nosso caso, a Série A) e o restante é distribuído entre as equipes mais bem classificadas na competição, as de maior ibope na tevê e as das outras séries.

Com isso, a audiência da tevê deixaria de ser o único critério para a distribuição das cotas. Obviamente, seria uma fórmula mais justa, a que daria aos clubes uma possibilidade maior de brigar pelos títulos, aumentando o interesse do público e melhorando a qualidade do espetáculo futebol.

Alternativas para acabar com o monopólio

Como disse bem o jogador Alex, do Coritiba, hoje o futuro do futebol brasileiro está nas mãos de uma emissora de tevê. A Globo detém os direitos da tevê aberta, da tevê por assinatura e do pay per view. Isso quer dizer que, além da distribuição do dinheiro, ela pode decidir que times terão mais visibilidade, detalhe fundamental para a captação de patrocinadores.

Mas há muitas alternativas viáveis que podem substituir, com vantagem, o sistema vigente. Esse monopólio poderia ser evitado, por exemplo, com a liberalização para que outras emissoras transmitam jogos que não interessam à emissora vencedora da concorrência. Poderíamos ter um jogo na Globo, outro da Record, outro no SBT, outro na RedeTV, Rede Vida, Canal Interativo etc. Poderia-se, ainda, dar aos clubes a possibilidade de criar a sua própria tevê pela Internet, ao menos para satisfazer aos seus sócios.

Hoje o torcedor brasileiro vive uma situação bizarra. Ele pode escolher entre uma dezena de jogos internacionais, mas só tem uma opção quando se trata do Campeonato Brasileiro. Essa prática está cerceando o direito de clubes brasileiros tradicionais se manterem competitivos.

O sistema também estabelece uma ditadura nas relações da Globo com os clubes, pois os que reclamarem poderão ser ainda mais prejudicados, já que a emissora faz sua escala de transmissões sem dar satisfação a ninguém. Com a extinção do Clube dos Treze, os grandes clubes perderam a voz e o poder de negociação. E, como muitos já adiantaram suas cotas, estão quietinhos, sem dar um pio.

Com a abertura para que outros canais de tevê dividam o bolo, os outros clubes, hoje marginalizados, teriam ao menos uma visibilidade maior e, com isso, maior possibilidade de conseguir patrocínios. Do jeito que está, todos dependem da boa vontade da Globo, que define que clube brasileiro ficará rico e qual será apenas um coadjuvante no País da Copa, assim como já decidiu que os jogos noturnos só podem começar depois do último beijo na novela.

E você, acha que o Santos deve apoiar a luta contra a espanholização?

Estreia preocupante

O desabafo de Ruy Cabeção: “O futebol brasileiro está decadente… Os times estão nas mãos de empresários… Os investidores estão c… e andando para o torcedor”.

Dos times paulistas na Série A, o Santos foi aquele que teve o pior resultado. Empatar em casa, com o Sport, significa perder dois pontos. E na Vila Belmiro, pra acabar com essa mania de que o Santos ganha todas quando joga no Urbano Caldeira. Bobagem. E poderia ser até pior se Gabriel não marcasse aos 34 minutos do segundo tempo, resvalando de cabeça um chute de Geuvânio. Os jogadores do Sport reclamaram impedimento, mas o bandeirinha julgou que Renê, do Sport, que recuava da linha de fundo, dava condição ao santista.

Vi e revi o lance com cuidado e acho que o auxiliar agiu certo. Em dúvida, não se pode punir o atacante. E, mesmo não tendo feito uma grande exibição, o Santos procurou mais o gol. Criou 12 chances para marcar, contra apenas três do Sport; teve oito escanteios, contra apenas um do adversário; fez oito jogadas de linha de fundo, contra uma do Sport, e finalizou 21 vezes, contra nove. Seria injusto perder.

Ouvi o segundo tempo pela rádio Jovem Pan, pois estava escrevendo textos para o Museu Pelé, e gostaria de dar um humilde conselho ao narrador José Manuel, daquela emissora: Meu caro, evite falar tantas vezes que o jogador “vai marcar”. Só use essa expressão se ele realmente for marcar o gol. Só no segundo tempo você repetiu “vai marcar” umas dez vezes em ataques do Santos.

Assim você mata seus ouvintes do coração. Ou, pior, ninguém acreditará quando você afirmar isso. Diga “pode marcar”, ou qualquer coisa que deixe no ar a possibilidade de marcar, ou não. Se “vai marcar”, porque não marca nunca, ou quase nunca? Bem, foi só um conselho de quem trabalhou alguns anos com Osmar Santos, o Pai da Matéria. Abraço!

Quanto ao jogo, a má sorte da contusão de Neto também tem de ser levada em conta. Jubal entrou gelado e logo recebeu uma bola nas costas. Não dá para culpar o garoto. O que dá para pedir é mais capricho no passe e no arremate. Faltou de novo a precisão final. Infelizmente, sou obrigado a dizer que se Leandro Damião ao menos tentasse bater de esquerda de vez em quando, teria feito o gol aos 2 minutos do segundo tempo, quando perdeu centésimos de segundo para tocar de direita e jogou para fora.

O pior é que o torcedor olha para Damião e lembra que ele foi comprado por 42 milhões em uma época em que as finanças do clube já estavam depauperadas. Não sei o que esta diretoria pensou ao fechar o negócio. Se o objetivo foi jogar essa dívida imensa para a gestão que assumir o clube nas próximas eleições, então foi dos piores crimes já cometidos contra o clube. Se foi imaginando que Damião seria valorizado, mostrou um desconhecimento profundo do futebol.

A complicada situação financeira do Santos

A propósito, recebi hoje um e-mail do amigo Marcelo Fernandes, com mensagem recebida por ele dos santistas Marcelo Mello e Roberto Rabelato, que estão liderando um movimento para cobrar dos conselheiros do Santos uma posição mais firme com relação a atos da diretoria que têm agravado a situação financeira do clube. Diz a mensagem de Mello e Rabelato enviada aos conselheiros:

Senhores conselheiros:
Em vista dos números apresentados como resultado do último exercício social, da continuidade de ações executadas no primeiro trimestre de 2014 (e corretamente ainda não agregada ao balanço patrimonial) e de projeções para o final do corrente exercício, mas principalmente para o triênio 2015/2017, chamamos sua atenção para o que expomos:
1- Uma aplicação de analise técnica contábil chamada de indice de liquidez corrente, que aponta a capacidade de pagamento de uma instituição aponta que no sfc temos apenas r$ 0,18 (dezoito centavos de real) para cada r$ 1,00 (hum real) de dívida.
Não é necessário ser um expert em contabilidade ou finanças para ver que isso por si só é alarmante!
2 – uma conta simples efetuada com os mesmo dados nos mostra:
Em 2012 vendemos cerca de 27 milhões em jogadores e em 2013 cerca de 71 milhões.
Um aumento de 44 milhões.
Em 2012 tínhamos um passivo circulante (isso é de curto prazo de vencimento) de 117 milhões e em 2013 temos esse mesmo passivo de 174 milhões.
Um aumento de 50 milhões.
Em 2012 tínhamos um déficit acumulado de 134 milhões e em 2013 temos um total de 157 milhões.
Um aumento de 20 milhões.
Esses números (apenas em ordem de grandeza) nos apontam para a seguinte e inevitável conclusão: o sfc necessita buscar no mercado no mínimo mais 100 milhões de reais seja em novos empréstimos e financiamento seja em venda de jogadores, em 2014 somente para manter o nível atual das contas.
E o grupo se fez essa pergunta: quem temos disponível para venda que nos dê esse aporte de capital?
Essa resposta deixamos a cargo do foro íntimo e da consciência de cada um dos senhores, assim como a reflexão do que isso representaria para o time.
outra opção, e essa já apontada e aprovada por seus pares, é a antecipação dos recebíveis, o que a nosso ver compromete sobremaneira a administração futura, seja ela qual for e pouco interessa, pois aqui, nos preocupamos somente com a governabilidade do clube e não com o poder.
Outro simples exercício de lógica nos faz ver o seguinte:
Se em 2013 com o nível de receita que tivemos, fomos obrigados a buscar mais de r$ 110 milhões em recursos outros; se em 2014 somos abrigados a vender jogadores e antecipar r$ 53 milhões em cotas de tv para continuarmos a continuar sobrevivendo, o que ocorrerá em 2015 e nos anos seguintes em que as cotas já foram adiantadas e comprometidas, portanto diminuindo sobremaneira a entrada de recursos?
Essas, senhores, são nossas preocupações e o motivo de virmos a sua ilustre presença solicitar que em nome de toda nação santista, consulte seu coração e pese nosso futuro na hora dar seu voto nas coisas do glorioso alvinegro praiano.
Ficamos a inteira disposição para saudável e produtivo debate sobre o assunto sempre que seja necessário.
atenciosamente:

Grupo independente de sócios, torcedores e simpatizantes do glorioso SFC!
Por um Santos forte, sólido, sustentável; transparente e digno.

É claro que eu concordo que essas ações da diretoria precisam ser devidamente investigadas pelo conselho. Aliás, se o impeachment se concretizasse depois do vexame dos 8 a 0 contra o Barcelona, e novas eleições fossem marcadas, a compra nebulosa de Leandro Damião não teria se perpetrado, com incalculáveis prejuízos para o clube.

E pra não dizer que falo sobre isso apenas agora, copio um post que escrevi neste mesmo blog em 29 de setembro de 2010, portanto há três anos e sete meses, cobrando mais transparência da diretoria do Santos. Este foi um dos posts que fez com que o presidente Luis Álvaro Ribeiro me tirasse da coordenação do Centenário e me excluísse do filme do qual eu era roteirista:

http://blogdoodir.com.br/wp-admin/post.php?post=2668&action=edit

Reveja os melhores momentos de Santos 1 x 1 Sport:

Santos 1 x 1 Sport
Vila Belmiro, Santos, 18h30m
Santos: Aranha; Cicinho, Neto (Jubal), David Braz e Mena; Arouca (Alan Santos), Geuvânio e Cícero; Thiago Ribeiro (Lucas Lima), Gabriel e Leandro Damião. Técnico: Oswaldo de Oliveira.
Sport: Magrão; Patric, Ferron, Durval e Renê; Ewerton Páscoa (Rithelly), Rodrigo Mancha, Renan Oliveira (Augusto) e Wendel (Ananias); Felipe Azevedo e Neto Baiano. Técnico: Eduardo Baptista.
Gols: Neto Baiano, aos 27 minutos e Gabriel, aos 34 minutos do segundo tempo.
Arbitragem: Arilson Bispo da Anunciação (BA), auxiliado por
Rodrigo Pereira Joia (RJ) e Silbert Faria Sisquim (RJ).
Cartões amarelos: Jubal (Santos); Rodrigo Mancha e Ferron (Sport).

E pra você, como foi a estreia do Santos no Brasileiro?

Por que a imprensa esportiva brasileira bajula tanto certos times

Nesses dias sem blog estive mergulhado em algumas pesquisas para o Museu Pelé e ao voltar ao passado para checar momentos marcantes do Rei do Futebol, da Seleção Brasileira e do Santos, constatei uma tendência que agora compartilho com você.

Como se sabe, dificilmente a imprensa esportiva brasileira supervalorizou os feitos do Santos – algo que ocorre até hoje, por sinal. Sempre deu a eles no máximo a dimensão que merecem. Não raro os diminuiu de importância. Por outro lado, ao menos nos jornais em que pesquisei, esta mesma imprensa sempre superestimou os feitos dos times considerados mais populares. Quer exemplos?

No mesmo dia em que o Santos, em uma exibição que a imprensa chilena definiu como “o jogo do século”, venceu a Seleção da Tchecoslováquia por 6 a 4, em uma reedição da final da Copa de 1962, o jornal Folha de São Paulo preferiu dar como manchete do caderno de esportes a vitória de um determinado time contra o Náutico, por um torneio em Recife, destacando o fato de que esse time era “líder e invicto”, e isso depois de apenas duas rodadas.

Em outro instante de minhas pesquisas, encontrei o que precisava dos jogos de Pelé e deparei-me com outro título de primeira página que evocava certo time considerado bom vendedor de jornais. O título dizia algo como “Agora vai!”. Li o lead da matéria e falava de uma vitória desse time contra o Noroeste, último colocado do Campeonato Paulista. Naquele ano, a propósito, o tal time não foi e o Santos, novamente, sagrou-se campeão paulista.

Há algum tempo vimos aqui mesmo, neste blog, que no dia em que os jornais anunciavam mais um título do Santos na Taça Brasil, equivalente a mais um Campeonato Brasileiro, no início dos anos 60, A Gazeta Esportiva dava matéria de primeira página para falar de um plano hipotético que envolvia empresários interessados em contratar Pelé e cedê-lo ao mesmo determinado time “de massa”… Como se sabe, Pelé só foi jogar em outro time, o Cosmos de Nova York, em 1975.

Se um time que costuma vender jornais está indo mal das pernas, não está fazendo nada positivo que justifique uma manchete, então invente uma. Como uma contratação bombástica, por exemplo. Obedecendo a esta reprovável técnica sensacionalista, a mídia esportiva brasileira cansou de assoprar balões e tentar mantê-los no ar, às custas de muita mentira, obviamente.

Pois bem: o que se apreende desse comportamento repetitivo da imprensa esportiva brasileira? Que ela sempre quis vender jornais, ou revistas, e para isso usou recursos questionáveis, como a adaptação da realidade à preferência da camada de leitores que queria conquistar. Hoje, com a desimportância econômica dos veículos impressos, certamente essa imprensa quer mais ibope, mais acessos, mais alguma coisa qualquer que, no entanto, está longe da ética jornalística que deveria cultivar.

Ao colocar o aspecto comercial à frente do jornalístico por tantos anos seguidos, essa imprensa criou um comportamento típico nos torcedores dos times considerados mais populares. Acostumados a verem os feitos de suas equipes, mesmo os mais modestos, serem tratados como extraordinários, esses torcedores passaram a ter uma visão distorcida da realidade do futebol e a se julgarem especiais.

“Todas as histórias são iguais, todos os clubes têm torcedores apaixonados da mesma forma”, me disse ainda ontem Marco Piovan, editor da Magma Cultural que prepara, com carinho, o livro do Centenário do Palmeiras. Piovan também editou os livros dos centenários de Santos e Corinthians e se deparou com casos idênticos de amor ao clube.

Nunca tive dúvidas de que entre os aficionados de equipes consideradas menores – como Ponte Preta, Guarani, Juventus, XV de Piracicaba, Ituano, e tantos outras – também há alguns mais malucos por sua agremiação do que torcedores de times considerados grandes. Acho até que seguir um clube menor exige mais fidelidade e personalidade do que ser mais um a adorar um grande.

Outra convicção que tenho: a divisão de torcidas no Brasil é muito mais fragmentada do que alguns gerentes de marketing querem nos fazer acreditar. Se somarmos os números de torcedores que cada clube diz que tem, o Brasil teria mais habitantes do que a China. Quer ter uma ideia real das divisões de torcida no País? Consulte as porcentagens de apostas no “time do coração” da Timemania e constatará que nenhum time chega a 5% (cinco por cento) de preferência no País.

Não podemos culpar, entretanto, os torcedores desses times bajulados por tanto tempo. Foram e são vítimas de uma longa e constante lavagem cerebral. Se uma mulher, ou um homem, feios, ouvem o tempo todo que são lindos, vão acabar acreditando. A mídia os seduziu e os continua seduzindo porque, simplesmente, quer tirar deles o engordamento de seus ganhos. Puro interesse.

Creio que se os santistas também fossem vítimas de tal estratégia, fatalmente teriam a mesma tendência para a arrogância. A propaganda sistemática consegue tudo, principalmente quando é dirigida a pessoas sugestionáveis, de baixa instrução, como é a maioria do povo brasileiro.

Felizmente, porém, as conquistas do Santos foram, repito, tratadas na dimensão exata que mereceram. Isso deu ao santista um senso crítico maior do que aquele que se vê em outros torcedores. O santista sabe diferenciar o que realmente é importante do que é pintado de cor de rosa para vender jornal, ou dar ibope.

Um título estadual é um título estadual. Não pode se tornar maior porque um determinado clube o conquistou, e nem menor se o vencedor for outro. Essa imparcialidade, essa orientação pelo mérito esportivo, é que acabaria com as diferenças entre as posturas dos torcedores e tornaria a visão que se tem do futebol brasileiro mais realista, menos passional. Mas para que esta visão prevaleça seria preciso que a imprensa esportiva brasileira fosse essencialmente ética, forte, independente, e não dependesse, ainda, de bajular certos clubes para sobreviver.

E você, acha que a imprensa esportiva ainda será pautada pelo mérito?

Gabriel é melhor, mas Damião tem de ser escalado por ter sido muito caro

gabriel e lucas lima
Lucas Lima acelerou o jogo e Gabriel marcou dois dos três gols do Santos contra o Mixto, ontem, na Vila (Foto: Ivan Storti/ Santos FC)

É triste dizer isso, mas é a pura verdade. O garoto Gabriel não é nenhum craque, ainda, mas tem agilidade, velocidade, senso de oportunismo e bate bem a gol, como ficou claro mais uma vez ontem, nos 3 a 0 frente o Mixto. Porém, Leandro Damião, que é lento, tem dificuldade para dominar a bola, arrematar e cabecear, e por isso marca poucos gols, custou o olho da cara e precisa ser escalado, ou o Santos terá o maior prejuízo de sua história.

Se montar exclusivamente o melhor time à sua disposição, Oswaldo de Oliveira deixará Leandro Damião no banco e terá uma formação com Geuvânio, Gabriel e Thiago Ribeiro na frente. Para os jogos mais complicados, poderá se valer de Arouca e Alan Santos como volantes e Cícero como meia. Será uma formação mais equilibrada do que a de quatro atacantes, com o estático Damião plantado no meio dos beques adversários.

Veja, querido leitor e querida leitora, como uma contratação mal feita pode atrapalhar um time. E um caixa. Com o dinheirão emprestado para pagar o centroavante das antigas, daria para contratar bons zagueiros, um ótimo meia, um lateral-esquerdo eficiente e ainda sobraria muito.

Digo lateral-esquerdo porque o Mena está jogando pedrinha. Parece que está com a cabeça no mundo da luna. Outro que me dá um frio na barriga sempre que sai para proteger a bola é David Braz. Não sei dizer claramente se Jubal é melhor, mas ao menos inspira menos desconfiança. Acho que Jubal e Neto é a melhor dupla de zaga que o Santos pode formar no momento.

Mas ontem ninguém da defesa teve de se preocupar muito. Esse Mixto está menos para sanduíche e mais para sobremesa. Time em que o craque é o Rui Cabeção, só pode ser mamão com açúcar mesmo. Não faz mal a ninguém. Mesmo assim, o Santos só ganhou depois que Lucas Lima entrou e acelerou o jogo. Para mim, é outro que pode muito bem brigar por uma vaga entre os titulares.

Craque, craque, o Santos não tem nenhum, mas no futebol moderno não é preciso ter craques para montar um time bem-sucedido. Se os jogadores demonstrarem inteligência e dedicação, já será mais de meio caminho andado. Só que ontem poucos jogadores do Santos tiveram a sabedoria de tocar rápido, de fazer o mais fácil e jogar de forma mais objetiva.

Dos mais rodados, que tinham a obrigação de colocar a bola no chão e tramar jogadas envolventes, só Arouca se destacou. O que são esses chutões de Thiago Ribeiro, ou essas pisadas na bola do Mena? Não havia porquê se precipitar diante do pobre Mixto…

Enfim, que venha o Campeonato Brasileiro. O elenco do Santos não é dos melhores, mas também não está tão atrás dos times considerados de ponta. Basta que Oswaldo de Oliveira escale quem está rendendo mais, sem pensar no valor de seus passes ou em suas hierarquias salariais. A juventude, mesmo errática, tem o poder de superar a inércia.

Reveja os melhores momentos de Santos 3 x 0 Mixto

E para você, quem deve ser titular: Leandro Damião ou Gabriel?

Planos para a Sobrevivência, planos para a Independência

Tinha um amigo do tênis, o criativo Mitnos Kalil, que defendia a tese de que “devemos ter um plano para a sobrevivência, e um para a independência” – ou seja, um plano para pagar as contas e ir vivendo; outro para tirar o pé da lama definitivamente. Se levarmos essa teoria para um clube de futebol, no caso o nosso Santos, veremos que um título paulista faz parte, apenas, do plano de sobreviência.

Sim, um time grande precisa, no mínimo, chegar às finais do Campeonato Paulista. Se os grandes são quatro, que ao menos alcance as semifinais. Ou as quartas, vá lá. Ser desclassificado antes da fase eliminatória seria inadmissível. Mas ganhar ou não o título não muda muito o status.

Veja o Ituano. Campeão! Ótimo. Tudo bem que em três jogos com o Santos, perdeu dois, e terminou sete pontos atrás. Mas soube usar o regulamento e foi campeão, algo maravilhoso para a história do clube! Porém, o que vai acontecer agora com o Ituano? Nada, ou pouco mais do que isso.

Sem cinco titulares, que já estão conversados com outros clubes, jogará a deficitária Série D, e assim iniciará a escalada de mais uma montanha para, quem sabe um dia, chegar à Série A do Brasileiro – na qual só permanecerá se tiver um bom time, um bom patrocínio e uma boa média de público. Enfim, domingo o Ituano conseguiu algo maravilhoso para sua sobrevivência, mas ainda está muito longe de atingir a independência.

De onde virá a independência

O título, além de nos encher de alegria, também mudaria muito pouco nas perspectivas futuras do Santos. A mesma consolidação que se esperava há quatro anos, quando a Resgate assumiu o clube, ainda se espera agora, e a questão não é ganhar mais um título paulista, mas montar uma estrutura e instituir uma gestão capaz de tornar o Santos mais forte, mais sólido, a ponto de lutar por todos os títulos.

Para isso, os dirigentes do Santos não podem mais prevaricar. Chega! Dirigir esse clube é de uma responsabilidade atroz e duvido que não saibam que o que se espera deles é austeridade, competência e, acima de tudo, honestidade absoluta. Que não sejam vaidosos, pois não são nada, já que o poder que momentaneamente têm lhes foi outorgado pelos mesmos santistas que agora não querem ouvir.

Cito Leandro Damião como o último grande exemplo de incompetência dessa diretoria, mas nada tenho contra esse rapaz, a quem considero boa gente, simpático e por quem torcerei desesperadamente a cada vez que entrar em campo. Eu, que nem ligo como devia para o vil metal, me pego desgraçadamente fazendo contas para que um dia o dinheiro investido no desengonçado atacante possa voltar aos maltratados cofres de Vila Belmiro. E perco o humor, pois a possibilidade de que isso aconteça é remota.

Com tantos garotos descobertos e a descobrir, com tanto jogador de potencial escondido por esses recantos do Brasil, a milionária contratação de Leandro Damião, repito, foi um verdadeiro crime de lesa clube. E isso ainda sem ter um patrocinador máster! Meu Deus, quanta falta de visão!

O caminho do Santos para a sua independência passa pelo planejamento meticuloso dos investimentos no futebol, por um plano ousado e trabalhoso para se obter mais visibilidade, mais parceiros, mais sócios e por uma atenção especial a esses parceiros e sócios. Sem conseguir sua auto-sustentação, o Santos continuará, como um cachorrinho, a lamber as mãos do sistema que o apunhala pelas costas.

Os exemplos estão aí, e vêm de centros que antes eram desprezados pelo poder central do futebol brasileiro. Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm, hoje, os quatro clubes mais independentemente poderosos do País. Mesmo preteridos pela tevê, eles continuam crescendo e hoje são quase todo o Brasil na Copa Libertadores. Isso é ter mais do que um plano de sobrevivência, é querer mais do que um título estadual. Isso é o que realmente importa.

E pra você, como o Santos conseguirá sua independência?